sexta-feira, 20 de março de 2015

A ENCHENTE DE SÃO JOSÉ




O dia começou ensolarado. A manhã, de beleza indescritível, fazia a paisagem da fazenda algo belo e encantador. A chuva da véspera, calma e demorada, deixara o capim e as arvores que circundavam a fazenda com um verde especial. E era belo o brilho das ultimas gotas de orvalho, que teimavam em resistir ao brilho do sol.
Vi meu pai olhar para o nascente e murmurar, quase para si mesmo, que hoje a chuva viria forte, pois era dia de São José. Minha mãe, ali perto disse algo que não entendi, mas percebi que ela concordava com ele.
Meu pai era um homem diligente. Antes da temporada das chuvas, fez uma pequena reforma na casa. Arrumou o telhado, trocou telhas quebradas, reforçou o paiol e as casinhas que serviam aos animais. E sozinho, com enxada e pá desobstruiu as saídas de agua na estrada que dava acesso a fazenda.
E a chuva veio. No inicio, tímida, com muito trovão, ventania, mas pouca água. Com isso o pasto ficou com um tom de cor marrom, quase seca. O pequeno riacho diminuiu consideravelmente a vazão de água e os animais emagreciam.
Mas um verde tímido se formou. Não era um verde total, como antes, mas melhorara a visão daqueles ermos. Mas meu pai afirmava que “ainda teríamos inverno bom” naquele ano. Para ele, inverno era a estação das chuvas.
Veio janeiro e seu tradicional veranico. Novamente, o pasto ficou seco e a agua do riacho ficou pouca. A plantação de milho e feijão parecia implorar por agua. E curiosamente se mantinham verdes e vivas.
Até que em uma tarde a chuva veio de vez. Depois de muito anunciar e o tempo fechar, veio com trovoadas fortes. Após um inicio turbulento, se tornou calma e mansamente molhou o chão e no outro dia, era um ir e vir de pássaros em alegre algazarra. E foi assim durante uma semana. Chuva, chuva e mais chuvas.
Os pequenos animais da fazenda permaneciam quietos, molhados. As galinhas em seus ninhos, cuidando de seus pintinhos, mal saiam para se alimentar.
Mais alguns dias e ficou regular. Chovia em alguns dias, parava em outros. Até que passaram a se concentrar no período da tarde. Eram chuvas mais fortes, de intensidade alta. Não raras vezes, os trovões e raios assustavam. Era quando minha mãe colocava o “Agnus Dei” atrás da porta da frente e pedia proteção divina para que nada de ruim acontecesse.
E foi naquela manhã, de beleza única e brilhante que ouvi meu pai dizer que seria a grande enchente do ano. A sabedoria e a experiência dele o autorizavam a isso. Resolveu que pararia o trabalho na roça iria somente até o horário do almoço.
E, justamente na hora do almoço que o céu começou a ficar escuro. Nuvens pesadas e densas começavam a se formar no horizonte.
No meio da tarde vieram pingos fortes e pesados. Reunimo-nos na cozinha e passamos a ver a chuva cair. Seguros e protegidos, podíamos ter a noção de sua força. Repentinamente um clarão intenso seguido de um estrondo nos assustou. Meu pai manteve a serenidade e a calma habituais e nos acalmou, pedindo que não tivéssemos medo, fora apenas um raio que caíra distante dali.
Choveu até a noite. Aos poucos foi diminuindo e quando fui me deitar, era apenas uma chuvinha gostosa, cujo barulho de seus pingos no telhado acalentava e fazia adormecer mais rápido.
No dia seguinte, levantei cedinho e constatei que novamente viera uma manhã esplêndida. Acompanhei meu pai em uma visita de verificação em todos os cantos da fazenda. A pequena ponte sobre o riacho, não obstante a força da enchente estava intacta, no lugar de costume. Na roça, parte do arrozal no chão. E onde caiu o raio, um imenso e majestoso jatobá tombou, ante a força da natureza. Quem poderia imaginar que aquele gigante sucumbiria, em poucos segundos.
Sobre a roça de arroz no chão meu pai disse que em dois dias ela estaria de pé novamente, e que aquilo serviria para dar força á plantação. Que São José sempre trazia força e fartura aos seus devotos.
Aquele ano foi maravilhoso. Ano de colheita farta, e muito mantimento na tulha. Então um dia, papai reuniu os vizinhos, compadres e amigos e em agradecimento ao Senhor São José, o Santo de sua devoção, rezaram o terço e confraternizaram, agradecendo pelo ano, pela fatura e pela vida e saúde de todos.
Era assim na Fazenda Nova América, onde a harmonia, o amor e a fraternidade eram sempre presentes.


quinta-feira, 19 de março de 2015

DIÁFANO





Não,
Nada foi escrito...
Apenas
Leve e ternamente
Sussurrado...

Ficou
No ir e vir
De brisa suave,
No barulho
De cachoeira
Caindo devagar.
Em noite
De lua cheia...

Em toques cálidos
De bocas entreabertas,
Que exalavam perfume
De rosas...

Se ficaram
Vestígios,
Só o coração
dirá...





sexta-feira, 13 de março de 2015

DO VALOR DA AMIZADE




Em uma tarde desta semana, após visitar um cliente, resolvi saborear um café em um shopping de Goiânia. É um local calmo, que fica anexo a uma livraria e perfeito para refletir, preparar estratégias de trabalho, rever amigos e praticar o habito saudável da boa conversa.
Após o atendimento da moça que fez o meu pedido, de café expresso e dois biscoitos de queijo, notei que a mesa ao lado foi ocupada por três senhoras muito elegantes, que logo começaram a conversar animada e alegremente.
Observando-as discretamente, notei que traziam na face marcas do tempo. Mas exibiam um semblante plácido, sereno. Era nítida a alegria demonstrada por elas, pela oportunidade de se encontrarem, de estarem na presença uma da outra.  Era alto o valor que davam àquele momento de encontro e fraternidade.
E eu ali, imerso em minhas preocupações, mas sem deixar de observar as alegres e animadas damas da mesa ao lado. Ficaram ali por um bom tempo, até que se despediram e resolveram seguir seu caminho. Não sem antes deixar marcada para outra ocasião um novo encontro no mesmo local. Na despedida, recomendações e desejos de felicidade as famílias.
Confesso que fiquei emocionado e feliz. Emocionado ao ver que pessoas se encontraram, se confraternizaram, colocando os assuntos em dia, durante um momento de alegria e felicidade. E feliz, por constatar gestos de amizade, carinho e consideração.
Eu posso afirmar que tenho grandes amigos. Amigos verdadeiros, que quando convivo diariamente, fico feliz com a presença, e quando ficam distantes, sinto a falta e saudade.
 Dos amigos da infância, quando construíamos carrinhos de lata, fazíamos pião ou corríamos livres, leves e soltos pelas ruas de terra, sobre bicicletas sem freios, aos amigos de hoje, quando estou perto de completar meio século de vida,
A amizade é preciosa joia, diamante raro, de inestimável valor. É a amizade que se manifesta através de um bom dia em uma rede social, em uma lembrança trazida de um passeio em um lugar distante, ou em um encontro rápido para um café, onde se pode colocar o papo em dia, embora o relógio seja imperativo e informe que as responsabilidades profissionais exigem que seja breve o encontro.
Depois das despedidas, fica aquele gostinho de saudade e a certeza que novamente nos encontraremos. Isso fortalece laços e traz a certeza que o reeencontro será uma nova alegria.
Todos os dias, ao acordar, agradeço a Deus a dádiva de um novo dia. Agradeço a bênção da vida. Agradeço pela minha família, pela saúde e pela harmonia. E peço também ao Pai do Céu pelos meus amigos, que são tão preciosos, como é preciosa a fraternidade.
Tudo isso me faz recordar uma canção da infância, tão cantada nas escolas e nos encontros de jovens da paroquia que frequentava: “se uma boa amizade você tem, louve a Deus, pois amizade é um bem”.
Verdadeiramente um grande bem. Com um amigo, partilhamos momentos, bons e difíceis.
Que prevaleça no mundo a paz o bem e a harmonia. E que a amizade seja plena.




sexta-feira, 6 de março de 2015

MULHER, MÃE, GUERREIRA...




Eu era bem criança e quando me levantava cedinho, ia de encontro ao sorriso e carinho de minha mãe, que me tomava nos braços, e depois dar-me a bênção, vinha cobrir-me de beijos e afagos. Trazia o café da manhã, simples mas cheio de sabores, composto por tapioca, leite e algumas rosquinhas de nata, feitas no forno do velho  fogão à lenha.
Ainda de pijama eu ficava a observar minha mãe em sua labuta. Ora mexendo nas panelas, ou catando feijão para cozinhar – naqueles tempos não havia panela de pressão – indo ao quintal para dar milho às criações e a arrumar uma trouxa de roupas para levar até o pequeno córrego, onde, ao lado de outras mulheres, passava boa parte da manhã.
Eu a acompanhava. O radio era companheiro inseparável. E quando cansavam de ouvir o radio, entoavam juntas cantos dolentes, que diziam de lugares, de brincadeiras de roda, de tempos idos e saudosos.
Depois de colocar a roupa para secar, era hora de voltar para a casa. Um breve intervalo para o almoço, quando meu pai chegava.  E novamente, voltar à lida incansável, organizar a cozinha, dar comida aos animais e voltar para o córrego e recolher as roupas limpinhas e agora secas. De volta, passar as roupas simples com o ferro de brasa. E eu ali, em certa distancia ouvindo suas cantigas, ou o radio que a acompanhava.
Ao fim da tarde, quando meu pai chegava da roça, havia sempre uma conversa alegre entre os dois, cheia de gestos de carinho e companheirismo.
Então papai me chamava e eu ao lado do cachorro Guamá, corria para o córrego, agora vazio e sem o canto das lavadeiras. Nos deliciávamos no pequeno riacho, com as brincadeiras de  papai, que jogava água em mim e me ensinava a nadar. No inicio, sentia medo da agua, mas a confiança era maior e aos poucos tudo se tornava alegria e felicidade.
Hora de voltar e vestir a roupa limpinha e cheirosa, passada no ferro de brasa. Jantávamos e vinha a hora mais esperada do dia, quando papai tocava o violão e mamãe buscara no coração os poemas e as cantigas de sua época. Mas, o sono chegava e mamãe me agasalhava e carinhosamente me levava até a cama, para mais uma noite de inocente sono.
Um dia, deixamos a Fazenda Nova América para trás. Mudamos para a cidade. Cidade pequena, onde meu pai montou uma pequena venda, que tinha de tudo um pouco, desde fumo, querosene para as lamparinas até camisas e mantimentos.
Mamãe sempre presente, agora de maneira diferente. Talvez as preocupações tenham aumentado, afinal cidade é muito diferente da fazenda – mas sempre ao lado de meu pai para o que fosse necessário. E meu pai, não dava nenhum passo sem dialogar ou pedir opinião de minha mãe. Agiam sempre de comum acordo.
O tempo passou. Hoje eu vejo o exemplo de minha mãe em tantas mulheres, como minha esposa, minhas filhas, minhas irmãs e pessoas amigas. Vejo mães, avós, mulheres que perdem noites de sono, preocupadas com a saúde, com o bem estar de filhos ou netos. Mulheres que trabalham em dois, três turnos diariamente para prover a família, daquilo que ela necessita para viver.
Ao contar a história, a rotina de minha saudosa mãe, faço uma homenagem às mulheres de fibra. Às mulheres que constroem o mundo, que nunca fogem às responsabilidades, às vezes sendo mãe e pai.
Às mulheres minha homenagem. A mulher é muito forte, sempre foi muito forte. Posso afirmar que sem as mulheres, o amor não seria tão puro e profundo. Deus, em sua infinita sabedoria, foi muito generoso com a humanidade. Parabéns às mulheres! Parabéns!






domingo, 1 de março de 2015

QUE COMO EU, AMA OS BEATLES, A VIDA, A POESIA...




Era um garoto ainda, quando saia das brincadeiras de bola de meia com os amigos, nos ladrilhos irregulares da Rua São Pedro em sua querida Juazeiro e ia encantar multidões através das ondas do rádio.
Era o garoto que amava os Beatles, no tempo do sorriso encantador de Jaqueline Kennedy, depois Onassis... Era o garoto da época em que os acordes da guitarra de Paul encantavam o mundo.
É um garoto... É um garoto que apresenta sua majestade Nelson, a Rainha do Rádio, as canções de amor, nas tardes em que a música está em movimento...
É o garoto que um dia saiu de sua Juazeiro, voou nas asas da panair, e ao lado da amada, e fincou raízes em Goiás. Aqui, veio a se encantar com noites estreladas, tardes de sol brilhante, doçura de jabuticabas, arroz com pequi, com tanta coisa boa, porém sem esquecer suas raízes nordestinas, tão caras...
É o garoto que como eu continua amando os Beatles, os Rolling Stones... É o garoto que diariamente dá sua dose de carinho e amor aos netos, aos filhos e à filha, à sua amada Socorrinho (minha madrinha Socorrinho).
É o garoto John...
Que como eu, ama os Beatles, a vida, a poesia...
Feliz aniversário, Garoto João Sobreira!