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terça-feira, 1 de setembro de 2026
segunda-feira, 31 de agosto de 2026
BENTO FLEURY: CELEBRAÇÃO DE UMA VIDA DEDICADA À MEMÓRIA DE GOIÁS
Por Paulo Rolim
Nesta segunda-feira, 31 de agosto, o
professor Bento Fleury celebra a dádiva de completar mais um ano de uma vida
fecunda, dedicada ao conhecimento, à literatura e à preservação da memória de
Goiás.
Professor, escritor, poeta, cronista e
articulista cultural, Bento Fleury construiu uma trajetória marcada pelo
diálogo entre literatura, história e geografia, com especial atenção às
paisagens culturais, à identidade regional e à memória do Cerrado. Em sua obra,
a produção acadêmica encontra-se com a criação literária, compondo um valioso
conjunto de estudos, narrativas e registros comprometidos com a valorização do
patrimônio histórico e cultural goiano.
Durante quase trinta anos foi professor
nas Faculdades Aphonsiano, em Trindade e é servidor público estadual, em Goiás,
e municipal, em Goiânia, além de fundador e integrante de diversas entidades
culturais e acadêmicas. É presidente de honra do Instituto Cultural e
Educacional Bernardo Élis para os Povos do Cerrado — ICEBE, instituição
dedicada à valorização da trajetória do escritor Bernardo Élis e à preservação
da cultura e das tradições do Centro-Oeste brasileiro. Integra também o
Instituto Histórico e Geográfico de Goiás — IHGG.
Publicou sessenta livros, a maioria em
parcerias significativas, entre edições físicas e eletrônicas, além de
participar em diversas antologias. Consolidou uma produção intelectual extensa,
diversificada e profundamente ligada à história de Goiás.
Ao longo da caminhada da vida, sua atuação
aproximou-se da vida e da obra de importantes personalidades da cultura goiana,
entre elas Amália Hermano Teixeira, Maria Carmelita Fleury Curado, Célia
Coutinho Seixo de Britto, Emília Perillo Argenta e Edla Pacheco Saad.
Atualmente, desenvolve o projeto de pesquisa histórica Esse Goyaz profundo...,
em parceria com Narcisa Abreu Cordeiro, e a coleção A Medicina nos Tempos de
Goyaz/Goiaz/Goiás, juntamente com Elisa de Araújo Meireles Lewergger,
Mariana Luiza Lewergger Borges e Vitória Mota Rabelo.
Bento Fleury situa-se entre os
pesquisadores e escritores contemporâneos mais dedicados à memória de Goiás.
Sua obra estabelece uma ponte entre o rigor da pesquisa e a sensibilidade
literária, retirando dos arquivos, das lembranças e da tradição oral acontecimentos
e personagens fundamentais para a compreensão da história regional.
Seu trabalho preserva documentos, recupera
vozes silenciadas e restitui à memória coletiva histórias que poderiam
desaparecer. Em sua trajetória, pesquisa e literatura convergem para um mesmo
propósito: reconhecer, interpretar e manter viva a riqueza humana e cultural do
povo goiano.
Parabéns, Bento Fleury! Que a nova etapa de sua vida seja igualmente fecunda e lhe permita continuar percorrendo os caminhos desse Goyaz profundo, revelando histórias, preservando memórias e engrandecendo a cultura goiana.
terça-feira, 28 de julho de 2026
MARISTA OU PERIFERIA: ONDE AS NOITES ACONTECEM!
Dizem que a noite de Goiânia acontece no
Setor Marista e adjacências. E talvez seja verdade, para quem a observa pelas telas
das redes sociais, através de fotografias cuidadosamente produzidas e
“filtradas” para registrar o brilho dos letreiros, das taças erguidas e dos
sorrisos ensaiados.
Ali, entre avenidas iluminadas e calçadas
largas, multiplicam-se bares e choperias famosos e elegantes. Estacionados à
porta, automóveis que custam pequenas fortunas disputam espaço como se também
desejassem ser vistos. Não raro, surgem os chamados “agroboys”, vestindo
calças e camisas estilo country, chapéu impecável, botas reluzentes e, vez ou
outra, passeando calma e tranquilamente pelas ruas montados em cavalos de raça,
igualmente valiosos, transformados em extensão do patrimônio e da personalidade
de seus donos. Por companhia, mulheres elegantes, também vestidas a caráter,
com olhares que parecem acompanhar o compasso da música dita sertaneja, que
acontece nos palcos dos bares.
É um mundo de prosperidade aparente.
Empresários, profissionais liberais, produtores rurais, influenciadores, gente
que venceu na vida ou faz questão de demonstrar que venceu. Todos em busca de
algumas horas de descanso, de conversa, de um chope gelado, como se o tempo,
por algumas horas, pudesse esquecer os compromissos da manhã seguinte. Muitos,
com o advento das redes sociais, vão em busca de exposição.
Mas, basta percorrer alguns quilômetros...
Longe das vitrines e instalações elegantes do Marista, cuidadosamente
elaboradas por designers famosos, nos bairros da periferia, nas fronteiras da
metrópole, existe uma outra cidade, efervescente e intensa, que desperta quando
o sol se despede, principalmente aos finais de semana. Uma Goiânia menos
fotografada, menos comentada e, talvez por isso mesmo, mais parecida consigo mesma.
Ali, os bares não ostentam fachadas
sofisticadas nem arquitetura assinada. As mesas de plástico, com logomarcas de
cervejas conhecidas resistem ao tempo, as cadeiras guardam histórias de
incontáveis fins de semana, e o letreiro nem sempre luminoso quase sempre
resume tudo em poucas palavras: “Som ao Vivo”.
Na chegada, sempre há um sorriso:
— Seja bem-vindo.
Palavras simples, pronunciadas sem
protocolo, mas carregadas de uma sinceridade que nenhum investimento em
marketing consegue fabricar.
É suficiente. Naquele local não há garçons
circulando entre as mesas. Cada cliente aproxima-se do balcão, escolhe sua
bebida, paga antecipadamente e leva consigo a garrafa ou o copo, como quem
participa naturalmente do funcionamento da casa.
Não existe cerimônia. Existe convivência,
onde quase todos se conhecem, sabem o nome do dono, do filho do dono que liga
os equipamentos de som, daquela moça que rotineiramente gosta de cantar duas ou
três músicas. Afinal, o palco é diferente. Não pertence apenas aos artistas
contratados, pois parece compreender que talento não precisa viver
exclusivamente da música. Em qualquer noite, se alguém pede licença, pega o
violão, segura o microfone e canta uma moda de viola, um bolero antigo, uma
canção sertaneja que atravessou gerações, a plateia recebe com alegria e o
aplauso vem espontâneo; sem jurados, sem competição, sem necessidade de
perfeição. Ali, ninguém precisa provar que é estrela. Basta cantar com a alma.
E nesses pequenos palcos muitas amizades
começam. Um dueto improvisado transforma desconhecidos em companheiros de mesa.
Um refrão cantado em coro aproxima famílias inteiras. Entre uma música e outra,
surgem convites para aniversários, rodas de viola e encontros que seguirão
existindo muito depois de a última nota desaparecer no silêncio da madrugada.
E na despedida, invariavelmente:
— Muito obrigado. Volte sempre.
Talvez a grande riqueza da cidade não
esteja onde brilham os refletores, mas onde ainda existe tempo para perguntar
pelo filho do vizinho, pela saúde da mãe adoentada ou pela colheita daquele
pequeno sítio que resiste na memória de quem um dia deixou o interior para
viver na capital.
Goiânia tem muitas noites. Há a noite
elegante do Marista, com suas luzes, seus automóveis reluzentes e seus brindes
sofisticados, e há a noite das esquinas da periferia, onde o copo pode ser mais
simples, a música menos perfeita e o piso um pouco gasto, mas onde os abraços
costumam durar mais do que as fotografias.
No fim das contas, pouco importa onde
repousa a mesa ou quanto custa a bebida. O que realmente alimenta a alma
continua sendo aquilo que nunca esteve à venda: a amizade sincera, a conversa
sem pressa, a música compartilhada e a alegria humilde de quem, depois de uma
semana inteira de trabalho honesto, encontra algumas horas para celebrar de
maneira simples o privilégio e a dádiva da vida.
E assim segue Goiânia. Entre o luxo e a
simplicidade. Entre o brilho das vitrines e a luz amarela dos postes dos
bairros distantes.
Porque, no fundo, é o mesmo povo que acorda
cedo, vai à luta, trabalha, sonha, vence dificuldades, quando a noite chega,
procura apenas um lugar onde possa rir, cantar, reencontrar amigos e descansar
o coração.

O palco simples, acolhedor, generoso.
@paulorolimescritor
@voxletter
terça-feira, 30 de junho de 2026
DE JUNHO, JULHO...
Junho se vai e deixa a saudade da poesia
trazida por manhãs luminosas e amenas, de céu intensamente azul, salvo por
alguns poucos e até inesperados dias em que a irmã chuva deu o ar de sua graça.
Este ano veio mais frio que o ano passado.
Dizem os entendidos que isso se deve ao fenômeno climático La Niña — ou talvez
ao El Niño, não me recordo qual deles —, relacionado ao aquecimento ou ao
resfriamento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, em decorrência
das variações na intensidade dos Ventos Alísios. Só espero que esses
"meninos" não tragam efeitos tão severos, como chuvas em excesso
capazes de provocar destruição, a exemplo do ocorrido em anos recentes.
Desde que me entendo por gente, junho é um
dos meus meses preferidos do ano. Evidente que há outros. Primeiro, porque é o
mês em que, assim como minha filha Alline, comemoro meu aniversário. Traz a
confortável sensação de realização e renovação, e a certeza de que mais uma
etapa da vida foi cumprida. E olhe que já se passaram — ou melhor, voaram —
sessenta junhos.
Do meu escritório, a janela lateral me
oferece diariamente a visão de um telhado carcomido pelo tempo, mas ainda
eficiente para proteger a família que abriga. Vejo também algumas belas e
bem-cuidadas árvores que, de vez em quando, se enfeitam de flores. Assim,
acompanho os dias, as semanas, os meses e todas as estações do ano desfilando
diante da minha janela. Vejo, igualmente, céus escuros, tomados por nuvens
densas e carregadas, que anunciam e embelezam as chuvas. Mas é a luminosidade
das manhãs que sempre me encanta, assim como o som maravilhoso da orquestra de
pássaros que, em determinadas horas do dia, se apresenta, e os inigualáveis
pores do sol que encerram cada jornada com delicadeza.
Outro motivo para eu sempre gostar de
junho é que ele antecede as férias escolares. Em parte da infância e pré-adolescência,
eu estudava longe de casa, em um internato, e a saudade de casa, dos meus pais
era intensa e confortava que as férias estavam prestes a chegar. O tempo
passou, me tornei pai e era sempre muito bom quando chegavam as férias escolares
de minhas filhas.
Julho, igualmente luminoso, alegre e de
dias mais quentes, sempre despertou lembranças, de quando fazíamos o
planejamento de viagens, especialmente para as praias do Araguaia, de
encontros, reencontros e da alegria de estar perto de quem se ama.
E, quando julho enfim abrir suas portas,
que traga consigo não apenas novos dias, mas gestos de bondade e amor, e que o
calor do sol aqueça igualmente os corações, tornando-nos mais generosos,
atentos às necessidades do próximo e agradecidos pelas pequenas dádivas da
vida.
Que nunca nos faltem esperança a cada
alvorecer, serenidade para seguir adiante e capacidade e vontade de espalhar
luz por onde passarmos.
As estações mudam, os meses se despedem, mas a beleza maior continua sendo aquela que floresce dentro de nós e se transforma em carinho, amizade e amor compartilhados.
@paulorolimescritor
@voxletter
terça-feira, 23 de junho de 2026
O PÔR DO SOL NA PRAÇA UNIVERSITÁRIA, O CENTRO E A RUA 24
No início da década de 1980, deixei a
pacata e saudosa São Miguel do Araguaia, no norte de Goiás e cheguei a Goiânia
carregando sonhos, algumas incertezas e a disposição de quem acreditava que a
vida acontecia além da linha do horizonte. Fui morar em uma pequena edícula na
esquina da Rua 3 com a Rua 24, no coração da cidade, um abrigo simples, mas que
para mim representava um novo mundo.
De segunda a sexta-feira o centro da capital era de um movimento intenso, mas aos finais de semana, adotava um ritmo diferente: mergulhava em uma
calma quase provinciana. O comércio, as repartições, os bancos fechavam, e as
ruas ficavam silenciosas, as calçadas vazias, e o vento parecia circular
livremente entre as velhas e resistentes mongubas.
Nessas tardes tranquilas, eu montava em
minha bicicleta e seguia em direção à Praça Universitária. Gostava de chegar
quando o sol começava a descer lentamente atrás dos edifícios. Sentava-me em
algum banco e permanecia ali, observando o céu trocar o azul intenso pelos tons
dourados, alaranjados e avermelhados que anunciavam a chegada do ocaso e
brevemente da noite.
O caminho de volta era tão agradável
quanto a ida. Eu pedalava sem pressa pelas ruas centrais, admirando as casas que
surgiam pelo percurso, iluminadas de cores diversas. Eram construções
diferentes de tudo o que eu conhecera no interior, com linhas elegantes,
detalhes geométricos, fachadas harmoniosas e uma beleza discreta que me
encantava profundamente.
Naquele tempo, eu ainda não sabia que
aquelas edificações pertenciam ao estilo Art Déco, apenas sentia que havia algo
especial nelas. Eram casas que pareciam guardar histórias, memórias e segredos
de uma Goiânia ainda jovem.
Mal poderia imaginar que, em uma daquelas
residências que tanto admirava ao passar de bicicleta, vivia uma mulher
extraordinária. Seu nome era Amália Hermano Teixeira. Eu só descobriria sua
trajetória anos depois, quando a vida me levou pelos caminhos da pesquisa
histórica, do jornalismo e da literatura.
Ali, ao lado do esposo Maximiano da Matta
Teixeira, Amália cultivava muito mais do que um jardim. Entre árvores, flores e
orquídeas raras, construía um universo singular, com objetos trazidos de
viagens, lembranças de amizades ilustres, livros, documentos e histórias.
Conta-se que até uma pequena nascente d'água fazia parte daquele ambiente
encantador, transformando o quintal em um refúgio quase mágico no centro da
cidade.
Enquanto eu observava, sem saber, a
fachada daquelas casas durante meus passeios, Amália e Maximiano mantinham uma
intensa vida cultural. Intelectuais, artistas, pesquisadores e amigos
encontravam ali um espaço de convivência, diálogo e troca de ideias. Era um
pedaço vivo da história de Goiás pulsando silenciosamente atrás daqueles
portões.
Hoje, quando a memória me leva de volta
àquele jovem vindo do interior, que pedalava pelas ruas tranquilas da Goiânia
dos anos 1980, percebo como a cidade guardava tesouros invisíveis aos meus
olhos. Eu contemplava a beleza da arquitetura sem conhecer seu nome, e passava
diante de uma das casas mais interessantes da capital sem saber quem vivia ali.
Infelizmente, o tempo passa e nem sempre
se preserva aquilo que deveria ser guardado. Como tantas outras residências que
ajudaram a contar a história de Goiânia, a casa de Amália e Maximiano foi
demolida. Em seu lugar ergueu-se um edifício, mais um sinal das transformações
inevitáveis da cidade.
Mas há um pequeno consolo nessa perda, pois
o prédio que substituiu aquela casa histórica recebeu o nome de Edifício Amália
Hermano. É como se a cidade, ao mesmo tempo em que apagou uma parte de sua
paisagem, tivesse encontrado uma forma, ainda que singela, de manter viva a
memória de quem tanto contribuiu para sua cultura, sua ciência e sua história.
É assim que a vida acontece: primeiro,
caminhamos pelas paisagens e depois, anos mais tarde, descobrimos as histórias
escondidas dentro delas. E então compreendemos que aqueles pores do sol na
Praça Universitária não eram apenas o encerramento de mais um dia. Eram o
início silencioso de uma relação de afeto com a cidade, suas pessoas, sua
cultura e sua memória.
Essa relação continua até hoje, e cada vez que uma lembrança ressurge e nos recorda que os lugares desaparecem, consola o fato que as histórias que eles abrigaram permanecem vivas na memória daqueles que aprenderam a amá-los.







