terça-feira, 23 de junho de 2026

O PÔR DO SOL NA PRAÇA UNIVERSITÁRIA, O CENTRO E A RUA 24

 

 

No início da década de 1980, deixei a pacata e saudosa São Miguel do Araguaia, no norte de Goiás e cheguei a Goiânia carregando sonhos, algumas incertezas e a disposição de quem acreditava que a vida acontecia além da linha do horizonte. Fui morar em uma pequena edícula na esquina da Rua 3 com a Rua 24, no coração da cidade, um abrigo simples, mas que para mim representava um novo mundo.

De segunda a sexta-feira o centro da capital era de um movimento intenso, mas aos finais de semana, adotava um ritmo diferente: mergulhava em uma calma quase provinciana. O comércio, as repartições, os bancos fechavam, e as ruas ficavam silenciosas, as calçadas vazias, e o vento parecia circular livremente entre as velhas e resistentes mongubas.

Nessas tardes tranquilas, eu montava em minha bicicleta e seguia em direção à Praça Universitária. Gostava de chegar quando o sol começava a descer lentamente atrás dos edifícios. Sentava-me em algum banco e permanecia ali, observando o céu trocar o azul intenso pelos tons dourados, alaranjados e avermelhados que anunciavam a chegada do ocaso e brevemente da noite.

O caminho de volta era tão agradável quanto a ida. Eu pedalava sem pressa pelas ruas centrais, admirando as casas que surgiam pelo percurso, iluminadas de cores diversas. Eram construções diferentes de tudo o que eu conhecera no interior, com linhas elegantes, detalhes geométricos, fachadas harmoniosas e uma beleza discreta que me encantava profundamente.

Naquele tempo, eu ainda não sabia que aquelas edificações pertenciam ao estilo Art Déco, apenas sentia que havia algo especial nelas. Eram casas que pareciam guardar histórias, memórias e segredos de uma Goiânia ainda jovem.

Mal poderia imaginar que, em uma daquelas residências que tanto admirava ao passar de bicicleta, vivia uma mulher extraordinária. Seu nome era Amália Hermano Teixeira. Eu só descobriria sua trajetória anos depois, quando a vida me levou pelos caminhos da pesquisa histórica, do jornalismo e da literatura.

Ali, ao lado do esposo Maximiano da Matta Teixeira, Amália cultivava muito mais do que um jardim. Entre árvores, flores e orquídeas raras, construía um universo singular, com objetos trazidos de viagens, lembranças de amizades ilustres, livros, documentos e histórias. Conta-se que até uma pequena nascente d'água fazia parte daquele ambiente encantador, transformando o quintal em um refúgio quase mágico no centro da cidade.

Enquanto eu observava, sem saber, a fachada daquelas casas durante meus passeios, Amália e Maximiano mantinham uma intensa vida cultural. Intelectuais, artistas, pesquisadores e amigos encontravam ali um espaço de convivência, diálogo e troca de ideias. Era um pedaço vivo da história de Goiás pulsando silenciosamente atrás daqueles portões.

Hoje, quando a memória me leva de volta àquele jovem vindo do interior, que pedalava pelas ruas tranquilas da Goiânia dos anos 1980, percebo como a cidade guardava tesouros invisíveis aos meus olhos. Eu contemplava a beleza da arquitetura sem conhecer seu nome, e passava diante de uma das casas mais interessantes da capital sem saber quem vivia ali.

Infelizmente, o tempo passa e nem sempre se preserva aquilo que deveria ser guardado. Como tantas outras residências que ajudaram a contar a história de Goiânia, a casa de Amália e Maximiano foi demolida. Em seu lugar ergueu-se um edifício, mais um sinal das transformações inevitáveis da cidade.

Mas há um pequeno consolo nessa perda, pois o prédio que substituiu aquela casa histórica recebeu o nome de Edifício Amália Hermano. É como se a cidade, ao mesmo tempo em que apagou uma parte de sua paisagem, tivesse encontrado uma forma, ainda que singela, de manter viva a memória de quem tanto contribuiu para sua cultura, sua ciência e sua história.

É assim que a vida acontece: primeiro, caminhamos pelas paisagens e depois, anos mais tarde, descobrimos as histórias escondidas dentro delas. E então compreendemos que aqueles pores do sol na Praça Universitária não eram apenas o encerramento de mais um dia. Eram o início silencioso de uma relação de afeto com a cidade, suas pessoas, sua cultura e sua memória.

Essa relação continua até hoje, e cada vez que uma lembrança ressurge e nos recorda que os lugares desaparecem, consola o fato que as histórias que eles abrigaram permanecem vivas na memória daqueles que aprenderam a amá-los.





sexta-feira, 24 de abril de 2026

DOS CÂNTICOS DA MINHA VIDA, DA NECESSÁRIA PAZ NO MUNDO

 


O ambiente na singela e acolhedora casa na Fazenda Nova América, onde passei minha primeira infância, era altamente poético e musical. Meu pai, depois de um dia de trabalho árduo na roça, onde cultivava abacaxis, arroz, feijão e outras culturas, necessárias à sobrevivência, vinha o costume de, ao chegar em casa, procurar à minha mãe se estava tudo bem, se alguém da casa da minha avó, que morava perto, viera nos visitar, assuntos triviais, mas que simbolizavam a alegria de partilharem o dia a dia um com o outro.

Nesses momentos, enquanto meu pai “esfriava o corpo” do calor, eu ficava por ali pertinho, escutando, e esperando que ele me chamasse para o melhor momento do dia: ir tomar banho no pequeno riacho que ficava bem próximo á nossa casa.

Aliás, o riacho era um lugar maravilhoso, cujo acesso de dava por um grande lajedo na margem “de cá”, do lado que ficava a nossa casa. Na outra margem, imensas e centenárias mangueiras davam sombra e aconchego a inúmeras espécies de pássaros, até as temidas e ditas agourentas, porém inofensivas “Alma de Gato”, que com seu canto mavioso, enchiam as crianças de temor.

Pouco acima, uma pinguela – um tronco de madeira forte e seca, que atravessava o riacho de um lado a outro, em uma altura tal, que quando viessem as enchentes, não fosse levada. E interessante: a pinguela não tinha nada parecido com um corrimão, mas adultos e cachorros passavam por ela, tranquila e calmamente.

Depois do reconfortante banho para meu pai – e super divertido para mim – era hora de jantar. Reunidos na pequena e rústica mesa, após a oração, a conversa animada surgia e se estendia para mais um pouco, quando meu pai buscava, ou “alguém trazia” o violão e ele tirava seus dobrados e valsas nas cordas cansadas do velho instrumento.

Quase sempre, mamãe atendia aos pedidos de recitar versos marcantes, como os do “Pavão Misterioso” ou outros de famosos cordéis da época.

O tempo passou. A fazenda se fez saudade, quando mudamos para a cidade. Era hora de, aos sete anos, enfrentar realidades que até então desconhecia. Pouco tempo depois, aos nove anos, fui estudar como aluno do internato do distante Ginásio Anchieta, na histórica e então bucólica Silvânia, outrora, Bomfim de Goyaz. Ali, eu não era mais o Paulinho, o caçula da família, mas apenas mais um dentre 130 alunos, entre adolescentes e jovens adultos. Da minha idade, éramos apenas três.

Quando da festa de Nossa Senhora Auxiliadora, a turma ia toda para o colégio das freiras Salesianas, e alguns escolhidos, dentre eles eu, ensaiados pela gentil e simpática irmã Terezinha, Soltavam a voz. Ainda lembro de canções, cuja letra traziam: “Sobe à Jerusalém, Virgem Oferente, sem igual...”.

Por ocasião da Semana Santa, a cidade de reunia na Igreja do Rosário, a Matriz, e em suas proximidades, seguindo a procissão. Era quando ecoava pelas ruas a inesquecível e vibrante voz do querido “Tio Zé Luiz” (Gonçalves dos Santos), que puxava a enorme fila da procissão entoando, dentre outros, um canto que nunca esqueci: “Pecador, agora é tempo, de contrição e de temor, serve a Deus, despreza o mundo, já não sejas pecador...”.

De volta à casa paterna, chegava o tempo de Natal eu me encantava com as canções. E na véspera, na tradicional Missa de Natal celebrada na Matriz da querida e distante São Miguel, ainda hoje me vem à lembrança o marcante: Glória, Glória, In Excelxis Deo...”, magistralmente interpretado pelo Coral da igreja.

  Vez por outra, “passeio” por estes cânticos de minha vida, usando a facilidade que a tecnologia nos traz, onde basta pedir à IA que toque aquilo que quero ouvir.

E entre reminiscências da Fazenda Nova América, a saudade de meus pais e outros tantos cânticos que me acompanham pela vida, vejo o tanto que a vida seguiu com pressa.

E, reflito que, ao mesmo tempo em que a tecnologia evoluiu a ponto de pedirmos qualquer música a uma pequena esfera, alguns ditos homens que se intitulam “senhores da guerra, do ódio e do mundo” prescindem da paz e da boa convivência entre os povos. Paz, que tantas vezes encontrei em momentos de singela harmonia familiar

e em cânticos, de louvor.

E, que a paz e o bem, ainda que difíceis, possam permanecer entre nós.

 

    


 

domingo, 29 de março de 2026

HOJE, ACORDEI COM VONTADE DE OUVIR BELCHIOR...

 




Neste sábado, meu despertar foi às primeiras luzes da manhã, manhã de outono, que se apresentaria radiosa, brilhante e com ares de felicidade. Bela manhã!

No mais, tudo se desenhava para ser um sábado comum. Ainda na cama, após minhas orações, um breve momento de reflexão sobre como seria o meu dia: o que faria, se estava tudo preparado para a reunião de trabalho com uma nova cliente, marcada para as dez horas, a sequência dos novos livros a serem publicados. E essas reflexões me acompanharam ao fazer meu café – forte e com pouco açúcar – e ao esperar o pão de queijo assar, ver o dia chegar, com pássaros se apresentando com a beleza de seu canto, o incansável João de Barro já na lida, ciscando e em busca de material para seu trabalho. Tudo isso, com o amigo e companheiro rádio, que trazia canções antigas, que lembravam os tempos da querida e saudosa Fazenda Nova América, de muitos anos passados.

Café tomado, hora de me debruçar diante do velho e incansável Dell 1510, que outra vez parece querer me avisar que precisa de um novo teclado.

Quase não percebo o passar das horas, que passam, passam, enquanto os textos vêm, fluem, surgem no branco do Word, em incansável e infindo compor de palavras, em orações, períodos, parágrafos, capítulos.

Hora da reunião, muito agradável, harmônica, e incluiu a degustação de um saboroso quibe, com suco natural de limão.

Na volta para casa, um bate-papo com o motorista de aplicativo, e no rádio, música de Belchior - ...eu sou apenas um rapaz, latino-americano... – que começava sua carreira no segmento, e elencava as vantagens que teria ao trabalhar para si mesmo. Desejei boa sorte e que ele alcançasse o sucesso tão almejado, pensando nas frases da canção do dândi cearense.

Ao abrir o portão, a alegria da Cacau pela minha volta, como sempre faz: correndo pelo quintal e pulando em mim, à espera do carinho e certamente, de um pedaço de pão, ou bolacha.

O dia transcorreu como começou: dia ensolarado, e a tarde trouxe, depois de um período de chuvas diárias, trouxe um belo pôr do sol, seguido do anoitecer que ampliou a beleza do infinito com a lua em fase crescente.

Inspirado, ler um pouco, tomar uma cerveja, e esperar o socorro do amigo sono.

E hoje, Domingo de Ramos, em manhã tão bela como a do sábado, me permiti ficar na cama um pouco mais, e ao levantar, a manhã já estava plena, luminosa, esplendorosa, de beleza ímpar.

Momento de fazer o café – forte, com pouco açúcar – e pedir à Alexa canções. Canções de Belchior. De puro lirismo e poesia!


@paulorolimescritor


 

 





domingo, 1 de março de 2026

MARÇO, MANHÃS, E OS SENHORES DA GUERRA

 

Imagem: Hosny Salah, por Pixabay.

Março começa sob belas e amenas manhãs, inundadas de claridade e de uma suave sensação de conforto. Às vezes, estas manhãs vêm com chuva fininha, calma e constante, daquelas que realmente molham a terra, penetram o chão e despertam o cheiro antigo da vida. Aqui e ali, roseiras exibem suas flores como quem inaugura o mês, enquanto as samambaias da varanda ostentam seu verde único, ora iluminadas pela luz do sol, ora acariciadas pelos pingos delicados da chuva.

Desde as primeiras luzes do alvorecer, pássaros irrequietos cruzam o céu e se unem numa bela e afinada orquestra espontânea, a anunciarem que mais um dia chegou.

Mas março mal desponta e os senhores da guerra, insatisfeitos com morticínios recentes, reiniciam seus jogos violentos, como se empunhassem controles invisíveis de videogame. A diferença brutal é que nestes jogos não há ficção: é vida real. E nela há morte, destruição, terror, futuros aniquilados.

A diplomacia, que no chamado pós-guerra — depois de 1945 — e durante a “Guerra Fria” dos anos 1960 e 1970 foi essencial e determinante para impedir uma hecatombe nuclear, parece hoje reduzida a reuniões de emergência do Conselho de Segurança da ONU. Ali se veem senhores de cabelos brancos, talvez bem-intencionados, cumprindo ritos solenes que incluem os inevitáveis fones de ouvido para traduzir as muitas línguas do mundo. Contudo, diante dos senhores da guerra, restam-lhes notas, recomendações, declarações formais. Nada que detenha bombas. Nada que suspenda massacres. Parece que a diplomacia também perdeu sua própria batalha.

Justifica-se tudo em nome da liberdade: libertar povos subjugados por ditaduras sanguinárias, regimes que sufocam o pensamento e instrumentalizam a religião como suporte para o terror. A promessa é nobre: permitir que homens e mulheres sejam simplesmente livres para pensar, agir, criar, professar sua arte, afirmar sua individualidade.

Entretanto, no videogame mortal dos senhores da guerra, as chamadas bombas “inteligentes” revelam uma estupidez atroz. Incapazes de distinguir alvos de inocentes, espalham morte sobre crianças, adultos e idosos com a mesma indiferença mecânica. O importante é vencer a fase, conquistar território, exibir estatísticas. Depois, reinicia-se o jogo, enquanto analistas sérios e compenetrados comentam a tragédia em meio a um fluxo incessante de imagens através dos veículos de comunicação.

Não recordo onde li ou ouvi, mas há quem afirme que a guerra pode e deve ser instrumento para alcançar a paz. Paradoxal afirmação, por vezes defendida como realista. Mas penso que nenhuma paz autêntica pode nascer da morte de inocentes, sobretudo quando entre eles há crianças que mal começaram a aprender o significado da palavra futuro.

Triste é saber que a carnificina continuará. A história sugere que povos que anseiam por liberdade frequentemente apenas trocam as mãos que os oprimem: saem de uma ditadura para entrar noutra.

E a liberdade, em sua plenitude, permanece distante — quase inalcançável.

Enquanto isso, março segue amanhecendo.

E os pássaros, inocentes e indiferentes, continuam cantando.