O ambiente na singela e acolhedora casa na
Fazenda Nova América, onde passei minha primeira infância, era altamente
poético e musical. Meu pai, depois de um dia de trabalho árduo na roça, onde
cultivava abacaxis, arroz, feijão e outras culturas, necessárias à
sobrevivência, vinha o costume de, ao chegar em casa, procurar à minha mãe se
estava tudo bem, se alguém da casa da minha avó, que morava perto, viera nos
visitar, assuntos triviais, mas que simbolizavam a alegria de partilharem o dia
a dia um com o outro.
Nesses momentos, enquanto meu pai “esfriava
o corpo” do calor, eu ficava por ali pertinho, escutando, e esperando que ele
me chamasse para o melhor momento do dia: ir tomar banho no pequeno riacho que
ficava bem próximo á nossa casa.
Aliás, o riacho era um lugar maravilhoso, cujo
acesso de dava por um grande lajedo na margem “de cá”, do
lado que ficava a nossa casa. Na outra margem, imensas e centenárias mangueiras
davam sombra e aconchego a inúmeras espécies de pássaros, até as temidas e
ditas agourentas, porém inofensivas “Alma de Gato”, que com seu canto mavioso,
enchiam as crianças de temor.
Pouco acima, uma pinguela – um tronco de
madeira forte e seca, que atravessava o riacho de um lado a outro, em uma
altura tal, que quando viessem as enchentes, não fosse levada. E interessante:
a pinguela não tinha nada parecido com um corrimão, mas adultos e cachorros passavam por ela,
tranquila e calmamente.
Depois do reconfortante banho para meu pai
– e super divertido para mim – era hora de jantar. Reunidos na pequena e rústica
mesa, após a oração, a conversa animada surgia e se estendia para mais um pouco,
quando meu pai buscava, ou “alguém trazia” o violão e ele tirava seus dobrados
e valsas nas cordas cansadas do velho instrumento.
Quase sempre, mamãe atendia aos pedidos de
recitar versos marcantes, como os do “Pavão Misterioso” ou outros de famosos cordéis
da época.
O tempo passou. A fazenda se fez saudade,
quando mudamos para a cidade. Era hora de, aos sete anos, enfrentar realidades
que até então desconhecia. Pouco tempo depois, aos nove anos, fui estudar como
aluno do internato do distante Ginásio Anchieta, na histórica e então bucólica
Silvânia, outrora, Bomfim de Goyaz. Ali, eu não era mais o Paulinho, o caçula
da família, mas apenas mais um dentre 130 alunos, entre adolescentes e jovens adultos.
Da minha idade, éramos apenas três.
Quando da festa de Nossa Senhora Auxiliadora,
a turma ia toda para o colégio das freiras Salesianas, e alguns escolhidos,
dentre eles eu, ensaiados pela gentil e simpática irmã Terezinha, Soltavam a
voz. Ainda lembro de canções, cuja letra traziam: “Sobe à Jerusalém, Virgem
Oferente, sem igual...”.
Por ocasião da Semana Santa, a cidade de reunia
na Igreja do Rosário, a Matriz, e em suas proximidades, seguindo a procissão.
Era quando ecoava pelas ruas a inesquecível e vibrante voz do querido “Tio Zé
Luiz” (Gonçalves dos Santos), que puxava a enorme fila da procissão entoando,
dentre outros, um canto que nunca esqueci: “Pecador, agora é tempo, de
contrição e de temor, serve a Deus, despreza o mundo, já não sejas pecador...”.
De volta à casa paterna, chegava o tempo
de Natal eu me encantava com as canções. E na véspera, na tradicional Missa de Natal
celebrada na Matriz da querida e distante São Miguel, ainda hoje me vem à
lembrança o marcante: Glória, Glória, In Excelxis Deo...”, magistralmente
interpretado pelo Coral da igreja.
Vez por outra, “passeio” por estes cânticos de minha vida,
usando a facilidade que a tecnologia nos traz, onde basta pedir à IA que toque
aquilo que quero ouvir.
E entre reminiscências da Fazenda Nova América,
a saudade de meus pais e outros tantos cânticos que me acompanham pela vida, vejo
o tanto que a vida seguiu com pressa.
E, reflito que, ao mesmo tempo em que a
tecnologia evoluiu a ponto de pedirmos qualquer música a uma pequena esfera,
alguns ditos homens que se intitulam “senhores da guerra, do ódio e do mundo”
prescindem da paz e da boa convivência entre os povos. Paz, que tantas vezes
encontrei em momentos de singela harmonia familiar
e em cânticos, de louvor.
E, que a paz e o bem, ainda que difíceis,
possam permanecer entre nós.








