domingo, 1 de março de 2026

MARÇO, MANHÃS, E OS SENHORES DA GUERRA

 

Imagem: Hosny Salah, por Pixabay.

Março começa sob belas e amenas manhãs, inundadas de claridade e de uma suave sensação de conforto. Às vezes, estas manhãs vêm com chuva fininha, calma e constante, daquelas que realmente molham a terra, penetram o chão e despertam o cheiro antigo da vida. Aqui e ali, roseiras exibem suas flores como quem inaugura o mês, enquanto as samambaias da varanda ostentam seu verde único, ora iluminadas pela luz do sol, ora acariciadas pelos pingos delicados da chuva.

Desde as primeiras luzes do alvorecer, pássaros irrequietos cruzam o céu e se unem numa bela e afinada orquestra espontânea, a anunciarem que mais um dia chegou.

Mas março mal desponta e os senhores da guerra, insatisfeitos com morticínios recentes, reiniciam seus jogos violentos, como se empunhassem controles invisíveis de videogame. A diferença brutal é que nestes jogos não há ficção: é vida real. E nela há morte, destruição, terror, futuros aniquilados.

A diplomacia, que no chamado pós-guerra — depois de 1945 — e durante a “Guerra Fria” dos anos 1960 e 1970 foi essencial e determinante para impedir uma hecatombe nuclear, parece hoje reduzida a reuniões de emergência do Conselho de Segurança da ONU. Ali se veem senhores de cabelos brancos, talvez bem-intencionados, cumprindo ritos solenes que incluem os inevitáveis fones de ouvido para traduzir as muitas línguas do mundo. Contudo, diante dos senhores da guerra, restam-lhes notas, recomendações, declarações formais. Nada que detenha bombas. Nada que suspenda massacres. Parece que a diplomacia também perdeu sua própria batalha.

Justifica-se tudo em nome da liberdade: libertar povos subjugados por ditaduras sanguinárias, regimes que sufocam o pensamento e instrumentalizam a religião como suporte para o terror. A promessa é nobre: permitir que homens e mulheres sejam simplesmente livres para pensar, agir, criar, professar sua arte, afirmar sua individualidade.

Entretanto, no videogame mortal dos senhores da guerra, as chamadas bombas “inteligentes” revelam uma estupidez atroz. Incapazes de distinguir alvos de inocentes, espalham morte sobre crianças, adultos e idosos com a mesma indiferença mecânica. O importante é vencer a fase, conquistar território, exibir estatísticas. Depois, reinicia-se o jogo, enquanto analistas sérios e compenetrados comentam a tragédia em meio a um fluxo incessante de imagens através dos veículos de comunicação.

Não recordo onde li ou ouvi, mas há quem afirme que a guerra pode e deve ser instrumento para alcançar a paz. Paradoxal afirmação, por vezes defendida como realista. Mas penso que nenhuma paz autêntica pode nascer da morte de inocentes, sobretudo quando entre eles há crianças que mal começaram a aprender o significado da palavra futuro.

Triste é saber que a carnificina continuará. A história sugere que povos que anseiam por liberdade frequentemente apenas trocam as mãos que os oprimem: saem de uma ditadura para entrar noutra.

E a liberdade, em sua plenitude, permanece distante — quase inalcançável.

Enquanto isso, março segue amanhecendo.

E os pássaros, inocentes e indiferentes, continuam cantando.