quinta-feira, 10 de novembro de 2011

SÁBADO DE SOL, XADREZ, ESCOLA... E UM MENINO SONHADOR


- Vamos jogar, Tio?
Aquela pergunta pegou-me de surpresa, absorto que estava, com o pensamento bem longe daquele lugar. Olhei para o garoto que me inquiria. De tez morena, com o olhar muito vivo e de uma expressão alegre no rosto, trazia nas mãos um pequeno tabuleiro de xadrez. Demorei a responder e ele, novamente, com certo ar de decepção, indagou novamente:
- Ah, o Tio não sabe jogar xadrez?
Pedi-lhe que me desculpasse, pois estava distraído, e querendo justificar alguma coisa, disse que talvez nem lembrasse mais como se joga xadrez, pois, verdadeiramente, só havia tido contato com aquelas pedrinhas estranhas, aí por volta dos meus dez anos, coincidentemente a mesma idade do menino ali à minha frente.
- Pode deixar que eu ensino ao Tio.
Agradeci, e sentamo-nos frente a frente, ele com um ar danado de satisfação, talvez por encontrar um adversário mais velho que ele, onde poderia mostrar seus conhecimentos do assunto, e assim, fomos iniciando a colocação das pedras no tabuleiro em suas devidas posições.
Não pude deixar de notar sua indumentária simples, limpinha, bem humilde. Uma camiseta com propaganda de um supermercado qualquer, uma bermudinha surrada e nos pés, um tênis com cara de apertado e que certamente já andou por muitos lugares com seu dono.
Ao iniciarmos o movimento do jogo, com a visão daquele menino, pus-me a lembrar de tantas histórias de homens que, um dia na vida, foram como ele. Que, se hoje, as pessoas ao vê-los profissionais bem sucedidos em suas áreas, sequer imaginam que um dia também foram crianças de pais pobres, cheio de incertezas da vida, mas cheios de sonhos, e se estava ali em um dia de sábado na escola, não era por um motivo qualquer, mas pela vontade de ser alguém na vida. Afinal, poderia estar em seu bairro, soltando pipa, jogando futebol, brincando de carrinho, ou, mal das crianças de hoje, defronte a um aparelho de TV. Mas não, orgulhosamente, estava ele ali, na sua escola, desafiando pessoas para uma partida de xadrez.
Prestando pouca atenção no jogo e mais no menino, fiz algumas perguntas e ele, com naturalidade foi respondendo, sem deixar de dar a devida atenção ao tabuleiro. Assim, fiquei sabendo que ele mora em um bairro da periferia, no município de Aparecida de Goiânia, que o pai foi assassinado (matado, segundo suas palavras) em uma briga de bar e a mãe, que trabalha como diarista não tem muito tempo para ele e seus outros cinco irmãos. Disse ainda que tem um avô doente, que fica deitado em uma cama, mas, mesmo assim, tenta, como pode, cuidar para que seus irmãos não aprontem muito. Disse ainda que gosta muito de estudar, da sua professora e de sua escola. E, que um dia, quer ser “dotô adevogado”. Para tirar os pobres da cadeia.
Viajei novamente com suas palavras, pois, um momento em que um ministro da mais alta corte do País livra da cadeia um político nacional e mundialmente conhecido por suas falcatruas e roubalheiras contra o patrimônio público, justificando no seu voto “que dava a ele liberdade por pena e dó, sensibilizado por vê-lo na cadeia ao lado do filho” e um menino como aquele, sonhando com um futuro melhor, ainda acreditava na vida.
- Xeque-mate.
Sua voz trouxe-me à realidade, e vi-me perdido naquela partida. Intimamente, porém, senti-me tomado por imensa alegria, ao ver naquele menino, uma pessoa, como tantos brasileiros, que lutam por um lugar ao sol, que quer realizar seus sonhos, ainda que a vida os torne distantes. Precisei ir embora, não sem antes dizer para que ele continuasse assim, lutador e que acreditasse muito em seus sonhos. Em pensamento roguei ao Senhor que o afastasse de tanta coisa ruim que existe hoje contra nossas crianças, como drogas, más-companhias, etc.
Tive que prometer que voltaria no próximo sábado. E que iria treinar durante a semana, para melhorar o meu jogo e poder enfrentá-lo de igual para igual.
- E não esqueça Tio, xadrez “é bom pra cachola, pra ficar mais inteligente”.
Saí dali com o coração pequeno, mas feliz da vida. Pena que nossos governantes - seja em que época for - nunca pensarão no país, mas somente em roubar para encher seus bolsos e de seus apaniguados. Como seria bom ver nosso Brasil um País bem governado, para que crianças como aquela pudessem ter a certeza de ser alguém na vida.

sábado, 5 de novembro de 2011

AVENIDA TOCANTINS

Um dia desses, já primavera, passei pela Avenida Tocantins, no Centro de Goiânia. Senti um aperto no peito - depois de tanto tempo, estava novamente ali. Ao cruzar a Rua Três, subindo em direção à Praça Cívica (ou Praça Pedro Ludovico, como queiram), revivi a década de 1980, os meus primeiros tempos de morador desta metrópole.
A Tocantins me acolheu. Em seu asfalto, no primeiro emprego, dei meus primeiros passos. Ficava exatamente ali, no numero 310. Recém chegado de uma cidade do interior, eu havia deixado para trás tudo o que tinha de mais importante - amigos, escola, familiares. Encontrei ali esperança, novos caminhos e oportunidades para a busca de um futuro e uma vida melhor.
No número 310 da Avenida, trabalhava como office-boy. Entregava passagens aéreas nas empresas, fazia cobranças, ia ao banco e ajudava nos trabalhos na tesouraria. Utilizava uma bicicleta, que foi minha grande companheira nesse período. Essa bicicleta também ficava comigo nos finais de semana e me proporcionava liberdade de ir e vir, gastando naqueles tempos de dinheiro curto e escasso apenas energia e vitalidade.
Eu tinha já dezesseis anos. Diariamente ia às agências da Vasp, naquele tempo uma representação, administrada pela simpática dona Cilene Andrade, de quem ouvi bons conselhos – e seu filho Zezo - situada na Rua Três e também na Varig, que ficava na Rua Dois, na esquina com a Avenida Goiás. Nesses dois lugares as réplicas dos aviões e os grandes painéis retratando lugares turísticos de todo o mundo me faziam viajar, sonhar. E enquanto aguardava que as atendentes – por sinal, muito elegantes - fizessem os procedimentos necessários, encontrava sempre uma palavra amiga, um bom dia do sempre simpático Sr. Duarte, gerente da empresa. Apesar de seu cargo importante era despido de vaidades, algo muito comum nesse meio.
Voltando à Tocantins, de longe já enxergava e me encantava com a beleza de um imenso Flamboyant, que com seus galhos imensos atravessava a avenida de um lado a outro. Conradianamente* me enternecia ao observar suas flores vermelhas, cheias de abelhas com seus zunidos e seu ir e vir, alimentando-se com o néctar e transportando o pólen, fecundando-as para que viessem a ser sementes - a seqüência da vida.
Ali no número 310 eu assumi responsabilidades logo,  bem cedo. Trabalhar durante todo o dia e estudar à noite, no colégio Lyceu de Goiânia, não era um fardo, não era uma coisa difícil. Ali eu conheci e enfrentei o mundo com altivez e dignidade. Encontrei muitas barreiras, mas venci a quase todas. Inicio de vida adulta, pronto a assumir tarefas, responsabilidades.
Quanto aos meus sonhos, comecei a realizá-los, formatá-los para a vida. Alguns jamais se realizariam. Mas realizei outros, embora não os tivesse sonhado. Sem perceber construí castelos sólidos que talvez que não esperasse construir.
Avenida Tocantins foi minha grande amiga. Ao passar por lá hoje não posso deixar de notar os velhos flamboyants enegrecidos pela fuligem da fumaça dos coletivos e mutilados pelos motosserras – afinal, eles precisam dar lugar à fiação elétrica, aos cabos telefônicos e das TV’s por assinatura. Mas estão lá. A primavera trouxe as flores teimosas. Insistem em aparecer e cumprir a função que a mãe natureza lhes deu. As raízes sobressaem-se das calçadas e parecem demarcar território, como a mandar um recado: resistimos, continuamos aqui.
A Tocantins continua lá. Diante de tantos veículos que passam por ali, parece não ter mais espaço. Mas continua lá. E, mais ainda, estará sempre na minha lembrança, no meu coração. Afinal, ela me acolheu e me propiciou dar os primeiros passos nesta Goiânia, que tanto amo.
· Conradianamente: alusão ao cronista e poeta das coisas simples e belas, JEAN PIERRE CONRAD.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

INFÂNCIA

“é assegurado à criança o direito à vida… à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar… além de colocá-los a salvo de toda a forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”. (art. 227 CF)

Não fora uma noite das melhores. Tivera pesadelos, sonhara com sua mãe, com seu padrasto Bené ameaçando mais uma surra; sonhara também com sua irmã pequenina adoentada. Foi com alívio que vislumbrou pela abertura no telhado os raios solares parecendo querer trazer-lhe desejos de um dia feliz.
Levantou-se meio sonolento, procurou pelo seu Tio Pedro, mas ele já tinha ido trabalhar. Despertou de sua letargia ao ouvir sua avó mandando-o escovar os dentes para tomar café. Encantou-se com dois pequenos pássaros coloridos que se bicavam carinhosamente, numa demonstração natural de ternura.
Após a higiene, tomando leite e comendo pão, lembrou dos pesadelos que tivera, querendo saber se aquilo fora mesmo sonho ou realidade, constatando aliviado que fora mesmo um pesadelo. Não tinha ainda noção, na ingenuidade de seus seis anos, do que era sonho. Achava que era sua mãe que vinha visitá-lo escondido do padrasto, que não gostava dele. Mas não entendia que, se às vezes, ela vinha toda sorridente, tomava-o nos braços cobrindo-lhe as faces de beijos, prometendo-lhe que logo voltaria para buscá-lo para viverem juntos e felizes para sempre, outras vezes vinha, juntamente com o padrasto Bené, que se punha a aterrorizá-lo com suas ameaças de surra. Seu pequenino coração ainda não sabia discernir o que era sonho e o que era realidade.
Levantou a vista no horizonte, sorriu ao ver uma raia subindo cada vez mais alto, depois outra e mais outra. Imaginou-se sendo uma daquelas raias, para ir bem alto e gritar para sua mãe e sua irmã “olhem aqui! Vocês podem me ver, olhem como eu estou alto”.
Súbito, um berro de seu pai trouxe-o à realidade. Ao virar para saber o que seu pai queria, viu-o crescer, tornando-se imenso, com a aparência de um monstro. Fechou os olhos ao levar o primeiro tapa no pequeno rosto, sentiu as pernas formigarem e doer muito a cada cintada que levava. Tentou, meio zonzo levantar, mas nova saraivada de cintadas o derrubou. Sentiu o gosto acre de sangue na boca. Sentiu ser arrastado em direção a uma pequena casa que havia nos fundos, onde ficava um fogão a lenha – por sinal um dos locais preferidos para suas brincadeiras solitárias.
Ouviu um grotesco “ajoelha aí, agora você vai saber o quando é bom ser danado”. Levou mais um tapa, sentiu alívio quando o pai saiu, porém para logo voltar com as mãos cheias de pedra-brita. Sentiu quando ele colocava as pedras embaixo de seus joelhos. Dor, naquele momento, não sentia. Parecia estar anestesiado. Ouviu ao longe a ameaça do pai, dizendo que se ele saísse dali, apanharia em dobro.
O tempo foi passando e a dor foi chegando. Seus joelhos já feridos pediam saísse dali. Também estava com uma vontade imensa de urinar, mas lembrava-se da ameaça do pai de recomeçar tudo novamente. Ouviu passos, viu seu Tio José passar perto, mas ele apenas olhou. Implorou em pensamento que ele o tirasse daquele suplício, mas ele não o ouvia. As horas foram passando. Sentia muita sede, mas não tinha coragem de pedir água. Sentiu saudade, muita saudade da mãe. Até do Bené, pois quando ele o espancava, o batia, não tinha aquela tortura de colocá-lo com os joelhos sobre pedras. Perdeu a noção do tempo. Via apenas que já era tarde. Aquele longo dia estava acabando. Mal ouviu quando o pai mandou que saísse dali, dizendo que iria tirá-lo da escola, para nunca mais ouvir reclamações dele.
Tentou andar, mas as pernas não obedeciam. Viu sua avó, com um rosto triste e deixando cair uma lágrima. Como queria rever sua mãe.
Mais algum tempo, chegou seu Tio Pedro, seu grande amigo e perguntou a si mesmo: como é que ele deixava que acontecesse aquilo. Não, o Tio Pedro não poderia estar sabendo o que acontecera. Ele o levava para passear, dava-lhe broncas, mas de forma diferente. Sentiu imenso carinho quando se aproximou dele. Sentiu, depois de um dia de horror, que estava seguro. Mas, o que seu coração de criança queria mesmo era estar perto de sua mãe, abraçá-la e se sentir amparado.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

UM VELHO VIOLÃO EM UMA NOITE DE CANTORIA - E CERVEJA!

Chegou numa motocicleta pra lá de velha, com problemas de “juntas”, debaixo de uma chuva fria e insistente. Trazia as vestimentas cheias de pingos de tinta, sinal que havia trabalhado durante todo o dia. Tinha um rosto magro, as feições rijas, um ar de sofrimento, barba por fazer, um olhar meio perdido, distante talvez.
Trazia nas costas um violão, velho e carcomido, faltando uma corda, envolvido no que foi um dia uma capa protetora própria para violões.
 Dirigiu-se ao balcão do bar onde estávamos, pediu ao Sr. Toninho uma pinga. Mandou colocar logo uma    dupla, para acabar com o frio que, segundo ele, doía-lhe até os ossos.
Não me contive e perguntei-lhe sobre o violão e, nesse instante, seu rosto se iluminou, despertando de sua letargia. Fitando-me nos olhos, respondeu dizendo que acabara de comprar. E que seu sonho desde menino era ter um violão, não importando se fosse velho, mas que desse para tirar umas cantigas.
Disse isso e retirou-o da desarrumada e malcheirosa capa e entregou o violão a mim, dando a impressão que ali estava um bem tão precioso, algo que representava muito para ele, como sua própria vida.
Meio sem jeito, peguei o violão, tentei afinar as velhas e enferrujadas cordas e, apesar da falta da primeira (mi), consegui tirar alguns acordes.
Foi o suficiente para o sujeito mostrar-se radiante e feliz, pois constatara que sua aquisição funcionava. Imediatamente propôs pagar uma cerveja para mim, desde que eu tocasse mais alguma coisa. Não me neguei e continuei a tirar sons. Ele então se atreveu “pedir” uma música que, embora não faça parte do meu gosto musical, era fácil de tocar e sabia mais ou menos sua letra. Ele acompanhou a cantoria e, sabendo de cor toda a letra da música, cantou e interpretou ao seu modo, meio desengonçado, mas cantou.
Em uma mesa de canto, estava um casal que, chegando mais perto, também pediram que tocasse outra música. O tal sujeito disse também que sabia a letra e, num instante estava eu tocando um violão que faltava uma corda, e dois sujeitos desafinados a cantar musicas que falavam de amor, de paixões antigas, desenganos e outras coisas mais. E desce cerveja.
Foram chegando pessoas, outros que sabiam tocar davam sua palinha e, quando olho no relógio, uma hora da manhã. Pensei eu: hoje não entro em casa. Minha primeira dama deve estar cuspindo fogo.
Não tem jeito, agora é ir embora. No trajeto para casa, fiquei pensando o que é a música. Um violão velho, que para alguém não prestava mais acabou fazendo a festa de pessoas durante uma noite, e principalmente, trouxe felicidade a uma pessoa que, pela sua aparência não era das mais felizes. Certamente tinha uma vida difícil.
Chego em casa, tomo meu banho, vou aninhar-me nos braços das minha amada, que pergunta por que cheguei aquela hora. Meio sem jeito, respondo que estava na companhia de um velho e surrado violão, que fez a felicidade de pessoas durante algumas horas.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

ANO BOM, DE FARTURA

               Notei meu pai um tanto quanto inquieto aqueles dias. O tempo parecia fazer diferença para ele. Todos os dias ao fim da tarde ficava a mirar o horizonte,, verificando a barra do nascente,  procurando sinais de chuva.
                Antes disso, intensificara o trabalho no local escolhido para plantar a roça naquele ano. Era um lugar onde já plantara roça, mas que deixara descansar a terra para que se tornasse fértil e produtiva novamente.
                Juntamente com meu Tio Marcelino, armado com foices e enxadas limparam o terreno, cortando e empilhando os arbustos maiores em coivaras e deram combate às formigas. Depois, quando tudo estava seco, atearam fogo e o terreno ficou limpo, preparado, aguardando apenas a chegada das chuvas.
                No paiol, perto de casa, todos ajudavam a desencaroçar das espigas de milho os grãos maiores, escolhidas para semente. Os menores que sobravam iam para os animais da fazenda. A semente do arroz, previamente escolhida na colheita do ano anterior, fora colocada espalhada em uma lona no terreiro, para secar mais e germinar totalmente.
                Vi passar por uma boa manutenção as duas matracas, que eram usadas para o plantio do arroz. Interessante aquela máquina manual, talvez o que houvesse de mais moderno na fazenda, que produzia um barulho engraçado e forte, ao lançar a semente na terra.
                Ate que um dia, ouvi meu pai dizer: “a chuva está perto. Logo chegará”. Poucos dias percebi o canto das cigarras. Belo, intenso, contínuo.
                Meu pai sempre olhando para o horizonte. Sua experiência o fez afirmar que daquela semana não passaria.
                E a chuva veio em um fim de tarde. Com trovões, ventos fortes e pingos grossos. Como a afirmar sua força e grandeza. Com certo medo, me tranqüilizei ao ficar ao lado do meu pai, deitando em seu colo. Dali, vi minha mãe colocar um Agnus Dei na porta da frente da casa e diante do pequeno oratório, invocar proteção Divina, em oração.
                Dia seguinte acompanhei meu pai ao local onde plantaria a roça. Mais duas chuvas como essa e lançaria a semente na terra.
                Na volta, descansando perto do pequeno córrego e sob uma imensa mangueira carregada de frutos, com galhos baixos e vergados pelo peso, saboreamos um delicioso lanche, de mangas maduras e doces.  Meu pai ainda disse que teríamos um ano bom, de muita fartura. As chuvas vieram na hora certa.
                Passados alguns dias vieram os amigos da vizinhança. Maioria compadres, que dariam a ajuda e fariam um mutirão para plantar mais rápido e de forma uniforme a roça. Foi também uma grande festa.
                Ao fim do plantio, hora de pedir ao Pai do Céu que concedesse a graça de um bom ano, com fartura e bom rendimento.
                Era aguardar. Mais algum tempo e a mãe natureza se encarregaria de fazer sua parte. Mais duas ou três limpas e no momento certo fazer a colheita. E encher a tulha do velho paiol, garantindo assim alimento para todos da fazenda em mais um ano.
                Era assim a vida na Fazenda Nova América. Era assim que meus pais garantiam a subsistência da fazenda. Tempos difíceis, de trabalho árduo, às vezes, sob sol inclemente ou chuva constante - que meu pai afirmava ser abençoada.
                A Fazenda Nova America hoje é apenas lembrança e saudade nos recônditos do meu coração. Mas nunca esquecerei a figura singela de meu pai, a olhar no horizonte em busca de saber se a chuva estava ou não por chegar. Momentos de simplicidade e imensa sabedoria daquele homem, que com seu trabalho e dignidade trazia segurança e o necessário à subsistência da família.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O SALÃO SILVA

Fica no Bairro de Campinas, na Rua Quintino Bocaiúva. No mesmo e único local há mais de 60 anos é parte integrante da história da antiga Campininha das Flores e, por que não, da nossa Goiânia. Passaram pela sua porta e sentaram em suas cadeiras muitas gerações. Assim é o Salão Silva.
Seu primeiro proprietário, Sr. João Silva, conhecido de todos como Tio João, já há alguns anos não exerce a profissão de barbeiro, oficio que passou a seu sobrinho Jeová, que por sua vez cedeu ao cunhado e afilhado João Balbino. Conhecido de todos como Joãozinho, se orgulha de estar no local trabalhando há 28 anos (desde que tinha quatorze, quando aprendeu o oficio de barbeiro). Tem a seu lado, na outra cadeira, o sempre alegre e divertido Benedito, ou Dito, (como o chamam): torcedor doente do Goiás, que veio da cidade de Jaraguá e tem sempre uma piada ou uma prosa na ponta da língua para contar.
Além de um local aonde as pessoas vão para fazer a barba e aparar o cabelo, também é um movimentado ponto de encontro. Ali se tem a cortesia de uma água gelada, um jornal do dia para se atualizar e, coisa obrigatória em todo salão que se preze, dois dedos de prosa sempre.
Apesar de funcionar em um espaço diminuto, cerca de doze metros quadrados, passa por ali um grande número de pessoas todos os dias. Discutem os mais variados assuntos, como a propalada crise (crise?) do momento, política, futebol, etc. Todos os assuntos do dia-a-dia são discutidos ali. Bom mesmo é na segunda-feira, quando os torcedores dos times que vencem no fim de semana vão logo cedo para pegar no pé dos adversários. No outro fim de semana, a coisa se repete, ás vezes ao contrário. E assim vai-se levando a vida.
Em época de campanha política, o movimento aumenta, não de fregueses, mas de pessoas transitando por ali: todos querendo o apoio explícito do proprietário, que sai pela tangente. Se não manifesta apoio ao candidato, também não o desagrada.
É um local ideal para quem quer saber da rica historia de Campinas e de Goiânia em detalhes. É interessante ouvir a narração de um fato histórico por quem o viveu. Histórias do Atlético Goianiense, o time do Bairro, de quando o ex-governador e ex-prefeito Iris Rezende circulava nas ruas de bicicleta, exercendo seu primeiro mandato de vereador, casos interessantes - verdadeiros ou não - são perpetuados ali, como um relicário  da existência da Campininha das Flores.
Goiânia já era uma cidade grande, capital imponente, porém conservava traços e hábitos de cidade do interior.
Recentemente o Salão Silva passou por uma reforma. O velho forro de madeira deu lugar a outro moderno e bonito, feito de gesso. A antiga cerâmica, desgastada em volta das cadeiras pelo movimento contínuo dos barbeiros, deu lugar a um piso antiderrapante, elegante, moderno. Também foi colocado um imponente espelho e novas luminárias, alem da pintura branca nas paredes. Ficou bonito.
Restaram apenas, como testemunhas oculares que são da história, as cinqüentenárias cadeiras de aço Ferrante, que não sucumbiram ao tempo. Permanecem ali, resistindo.
Assim é o Salão Silva, cuja história se confunde com a do Bairro de Campinas e suas gerações. Que ele continue ali por muito tempo ainda, sendo sempre um lugar de encontro de amigos e companheiros.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

GOIANIA, MEUS SONHOS, MINHA VIDA...

Ainda não havia amanhecido totalmente o dia, os raios de luz tenazmente mandavam embora e tentavam vencer e dominar as últimas sombras da note, quando cheguei a Goiânia. Mais algum tempo e desembarcava com malas, mochilas e sonhos, além do coração cheio de saudade da pequena São Miguel, onde morava. Eram meados de março, e o tempo indicava que teríamos um dia de muito calor. Talvez, chuva ao fim da tarde.
                Desci do ônibus na confluência das Avenidas Independência e Goiás. Optei por descer ali, pois ser mais perto de onde eu iria morar. Podia ir a pé.
                Subindo a Avenida Goiás, me encantei com tudo aquilo que vi pela frente. Uma cidade grande, mas com ares de cidade humana. Um pouco diferente daquilo que eu ouvia falar
                Aos poucos, a mochila e apequena mala que carregava começavam a pesar. Pergunta daqui, pergunta dali, e seguindo as indicações que tinha cheguei ao pequeno quartinho da rua três, no Centro, onde dali pra frente seria minha morada.
                Cansado da viagem, embora o copo pedisse, preferi não descansar. Fui em busca das novidades. Conheci a pequena mercearia, alguns bares, lanches, uma eletrônica, enfim, o comercio ali perto, e observei o ir e vir das pessoas. O centro da cidade era movimentado e agitado. Gostei de tudo que vi.
                Logo estava trabalhando e dando conta de mim. O primeiro emprego foi em uma agência de turismo, onde fazia serviço de Office-boy. Foi a descoberta de um mundo maravilhoso. Viajava naqueles imensos painéis com fotografias de Roma, Paris, Tóquio, admirava a elegância das pessoas que ali circulavam. Sonhava com o futuro.
                À noite tinha as aulas no Lyceu. Ali, além das matérias normais tinha aulas de Francês, Filosofia, Sociologia e Artes. Confesso que me encantava com o teor daquelas aulas. Tinha ainda Dona Zizi, mestra de tantos anos de magistério, que me fez tomar mais gosto ainda pelas aulas de Literatura e Português.
                Depois, fui morar no setor oeste. Ali, conheci a pessoa amada.  Morava pertinho da Praça Tamandaré e suas movimentadas noites de sábado e tardes de domingo. Sempre que podia, parava no Buteko, bar de propriedade do poeta Luiz de Aquino, e para desespero dos garçons, ocupava o quanto podia uma mesa. Viajava em canções, nas vozes de Anete Teixeira, Pádua, Jorge Lyra, Fernando Perillo, ouvia o piano maravilhoso tocado pelas mãos de Paulinho de Assis.
                Dali, ia para casa a pé, sem medo de assaltos ou violência. Libertos e sossegados, andávamos – a amada e eu - pelas ruas e avenidas, sem medo nem temor.
                Um dia me casei, formei minha família. Edifiquei minha casa, vi nascerem minhas filhas. Emoções incomparáveis. Minha Goiânia querida, que sempre me acolheu com carinho, me permitiu tudo isso.
                Hoje, circulando pela cidade, apesar do intenso movimento de carros e pessoas, ainda enxergo poesia em suas esquinas e monumentos. Cada canto me lembra uma passagem boa da vida. Com emoção o coração busca na saudade os tempos do Lyceu, da Rua Três, da Praça Tamandaré, dos bares da Rua Vinte, onde tocava violão e tentava entoar canções.
 Hoje, no meu Faiçalville querido eu espero que o tempo me permita ver a chegada de netos, e que eu possa envelhecer em paz. Sempre observando o que de belo há perto de mim. 
Goiânia me deu tudo isso. Obrigado, minha Goiânia querida. Parabéns, cidade amada! Feliz aniversário!