Dizem que a noite de Goiânia acontece no
Setor Marista e adjacências. E talvez seja verdade, para quem a observa pelas telas
das redes sociais, através de fotografias cuidadosamente produzidas e
“filtradas” para registrar o brilho dos letreiros, das taças erguidas e dos
sorrisos ensaiados.
Ali, entre avenidas iluminadas e calçadas
largas, multiplicam-se bares e choperias famosos e elegantes. Estacionados à
porta, automóveis que custam pequenas fortunas disputam espaço como se também
desejassem ser vistos. Não raro, surgem os chamados “agroboys”, vestindo
calças e camisas estilo country, chapéu impecável, botas reluzentes e, vez ou
outra, passeando calma e tranquilamente pelas ruas montados em cavalos de raça,
igualmente valiosos, transformados em extensão do patrimônio e da personalidade
de seus donos. Por companhia, mulheres elegantes, também vestidas a caráter,
com olhares que parecem acompanhar o compasso da música dita sertaneja, que
acontece nos palcos dos bares.
É um mundo de prosperidade aparente.
Empresários, profissionais liberais, produtores rurais, influenciadores, gente
que venceu na vida ou faz questão de demonstrar que venceu. Todos em busca de
algumas horas de descanso, de conversa, de um chope gelado, como se o tempo,
por algumas horas, pudesse esquecer os compromissos da manhã seguinte. Muitos,
com o advento das redes sociais, vão em busca de exposição.
Mas, basta percorrer alguns quilômetros...
Longe das vitrines e instalações elegantes do Marista, cuidadosamente
elaboradas por designers famosos, nos bairros da periferia, nas fronteiras da
metrópole, existe uma outra cidade, efervescente e intensa, que desperta quando
o sol se despede, principalmente aos finais de semana. Uma Goiânia menos
fotografada, menos comentada e, talvez por isso mesmo, mais parecida consigo mesma.
Ali, os bares não ostentam fachadas
sofisticadas nem arquitetura assinada. As mesas de plástico, com logomarcas de
cervejas conhecidas resistem ao tempo, as cadeiras guardam histórias de
incontáveis fins de semana, e o letreiro nem sempre luminoso quase sempre
resume tudo em poucas palavras: “Som ao Vivo”.
Na chegada, sempre há um sorriso:
— Seja bem-vindo.
Palavras simples, pronunciadas sem
protocolo, mas carregadas de uma sinceridade que nenhum investimento em
marketing consegue fabricar.
É suficiente. Naquele local não há garçons
circulando entre as mesas. Cada cliente aproxima-se do balcão, escolhe sua
bebida, paga antecipadamente e leva consigo a garrafa ou o copo, como quem
participa naturalmente do funcionamento da casa.
Não existe cerimônia. Existe convivência,
onde quase todos se conhecem, sabem o nome do dono, do filho do dono que liga
os equipamentos de som, daquela moça que rotineiramente gosta de cantar duas ou
três músicas. Afinal, o palco é diferente. Não pertence apenas aos artistas
contratados, pois parece compreender que talento não precisa viver
exclusivamente da música. Em qualquer noite, se alguém pede licença, pega o
violão, segura o microfone e canta uma moda de viola, um bolero antigo, uma
canção sertaneja que atravessou gerações, a plateia recebe com alegria e o
aplauso vem espontâneo; sem jurados, sem competição, sem necessidade de
perfeição. Ali, ninguém precisa provar que é estrela. Basta cantar com a alma.
E nesses pequenos palcos muitas amizades
começam. Um dueto improvisado transforma desconhecidos em companheiros de mesa.
Um refrão cantado em coro aproxima famílias inteiras. Entre uma música e outra,
surgem convites para aniversários, rodas de viola e encontros que seguirão
existindo muito depois de a última nota desaparecer no silêncio da madrugada.
E na despedida, invariavelmente:
— Muito obrigado. Volte sempre.
Talvez a grande riqueza da cidade não
esteja onde brilham os refletores, mas onde ainda existe tempo para perguntar
pelo filho do vizinho, pela saúde da mãe adoentada ou pela colheita daquele
pequeno sítio que resiste na memória de quem um dia deixou o interior para
viver na capital.
Goiânia tem muitas noites. Há a noite
elegante do Marista, com suas luzes, seus automóveis reluzentes e seus brindes
sofisticados, e há a noite das esquinas da periferia, onde o copo pode ser mais
simples, a música menos perfeita e o piso um pouco gasto, mas onde os abraços
costumam durar mais do que as fotografias.
No fim das contas, pouco importa onde
repousa a mesa ou quanto custa a bebida. O que realmente alimenta a alma
continua sendo aquilo que nunca esteve à venda: a amizade sincera, a conversa
sem pressa, a música compartilhada e a alegria humilde de quem, depois de uma
semana inteira de trabalho honesto, encontra algumas horas para celebrar de
maneira simples o privilégio e a dádiva da vida.
E assim segue Goiânia. Entre o luxo e a
simplicidade. Entre o brilho das vitrines e a luz amarela dos postes dos
bairros distantes.
Porque, no fundo, é o mesmo povo que acorda
cedo, vai à luta, trabalha, sonha, vence dificuldades, quando a noite chega,
procura apenas um lugar onde possa rir, cantar, reencontrar amigos e descansar
o coração.

O palco simples, acolhedor, generoso.
@paulorolimescritor
@voxletter
