segunda-feira, 21 de setembro de 2026

VENTOS DE QUASE-PRIMAVERA



Ah, esse vento... Vento que vem forte pela minha janela, desordena os papéis do próximo livro – alguns com quase duzentos anos. E quase sempre vem de surpresa, com lufadas repentinas a afrontar a calmaria do final da manhã; chega, quase avassalador, mostrando que está aqui e é quem domina o território ocupado pelo calor de quase-primavera,

Mas, não me impaciento, não me irrito, pelo contrário, agradeço. Recordo Francisco, o Santo, que chamava a chuva e o vento de irmãos.

E ainda mais: este vento, cada vez mais presente e que afasta o calor, traz reminiscências de minha infância. Na calorenta região da saudosa Fazenda Nova América, na longínqua e ao mesmo tempo, hoje tão perto, Araguaçu, o vento era um grande aliado, afastava a fadiga do calor, tão presente. Aliás, na entrada da cidade, havia um cata-vento que movia uma bomba e elevava a água até a casa de seus proprietários. E o chegante, não se importa pelo lado leste ou oeste, o avistava de longe, sobressaía como era a primeira imagem da pequena cidade, a desfilar imponente figura.

Lembro também, que meu pai, depois da colheita de feijão, após “bater” com duas varas de Guatambu seco, amarradas uma à outra, com uma cuia, contando com a ajuda do vento, separava os grãos de feijão de sua palha. E para chamar vento, costumava assoviar... Eram horas e horas nesse labor, aproveitando a sombra no oitão da singela casa onde morávamos, batendo, depois separando palha e grãos. O assovio, segundo se dizia, era para chamar o vento.

Ainda, nas noites de tempestade, com chuva forte, raios e trovões, o vento se fazia muito presente, mas o acalento e o aconchego de minha mãe e meu pai, que me levavam para ficar junto a eles, até que eu adormecesse novamente, ou que a tempestade se fosse. Se havia vento forte na tempestade, não faltava cuidado, amor e carinho de meus pais.

Portanto, ainda que o irmão-vento hoje venha de surpresa, desorganize meus papéis, sua presença é bem-vinda.

E da janela lateral do escritório em que trabalho, tenho cotidianamente uma paisagem encantadora, que muda a cada instante, seja com nuvens que convidam a brincar de adivinhar figuras, ou um céu de azul límpido e claro, ou ainda, quando a irmã-chuva se apresenta e traz nuvens escuras, que permanecem ou vão embora depressa.  

Tudo isso, da janela lateral... Em tempo de quase-primavera.


@paulorolimescritor

@voxletter