quinta-feira, 17 de novembro de 2011

NAS ONDAS E CAMINHOS DA VIDA ATRAVÉS DA RÁDIO 730



(Singela homenagem aos oito anos da emissora goiana)

                Ainda madrugada, longe da chegada dos raios solares, Seu João, velho e experiente vaqueiro pula da cama juntamente com a esposa, que se encaminha para a cozinha para preparar o café e assar o pão de queijo, para o desjejum.
                Ao molhar o rosto com a água fria da bica que passa no rego d’água em frente à ampla varanda da casa, espantando de vez o sono, ele ouve Dona Corina, sua esposa ligar o rádio. Presta atenção na hora certa após o sinal eletrônico que parece desperta-lo daquela letargia: “Em Goiânia cinco horas”, diz com voz firme o locutor Justino Guedes, como a  lembrá-lo que as vacas o aguardam tirar o leite.
                Toma café calado, apenas prestando atenção em uma letra dolente de uma canção antiga. Canção que o leva ao tempo da mocidade, quando gostava de aos finais de semana se divertir nas festas das fazendas vizinhas, folias de reis e outros festejos da região.
                Não se contendo, vai até o quarto e pega outro radinho de pilha – se pegasse o da cozinha era briga na certa – e junto com sua tralha de tirar leite - banquinho, balde e corda – leva-o para o curral, o pendurado no local de costume. Durante algumas horas, viaja nas canções e nas noticias de futebol e também nas informações sobre preços de arroba de boi, do feijão, do milho e outros assuntos de seu interesse.
                Longe dali na cidade Dr. Agenor, patrão de Seu João acaba de deixar a filha na porta da faculdade, com o rádio sintonizado na 730. Ouvindo as noticias do Brasil e do mundo com a Teresa Ribeiro. Os pitacos e comentários do Altair Tavares complementam as noticias. O trânsito difícil parece ficar mais rápido por causa do noticiário.
Ao adentrar o escritório começa a se deixar levar pela rotina de trabalho, procedimentos, processos. Recebe a ligação de seu filho que mora e estuda em Atlanta, nos Estados Unidos da América, que pergunta sobre as melhorias que estão acontecendo em seu bairro, informação ouvida via internet na entrevista do diretor da empresa de limpeza urbana. Sorri quando ouve um “Pô, pai, estou tão longe e sei mais do nosso bairro que você”. Lembra que está na hora de saber noticias do esporte, pelo note book sintoniza na “730 ao vivo” e com um coração apertado, ouve as más noticias do seu querido Vila Nova, do descenso à serie C e outros problemas inimagináveis. Hora de voltar a dedicar ao trabalho, afinal, seu combalido vila Nova não está merecendo seu tempo.
Ouve resignado a comentarista Cecília Barcelos afirmar que dificilmente o Vila Nova terá um futuro melhor no ano próximo. Concorda com o comentário franco e espontâneo do Edson Rodrigues. Comenta algo no twitter e ouve a pronta resposta do Cleisson Teixeira. Não era o que gostaria de ouvir, mas se o próprio Vila Nova não ajuda, fazer o quê?
Na pequena lanchonete a poucos quilômetros dali enquanto faz mais um suco, atendendo um cliente, a proprietária está com o rádio ligado no Repórter Cidade, programa apresentado por Amaury Garcia e Flávia Vinhal. Ela tem boas lembranças do Amaury Garcia: quando era sua aluna de Matemática em uma escola pública e quando ele participou ao lado de outros goianos ainda em LP de vinil o disco Elos, ao lado de Luiz Augusto. A canção Aragem ainda toca seu coração. Bons tempos, lembra.
Já mais tarde no táxi parado no trânsito confuso da cidade, as ultimas noticias do esporte entretém aquele passageiro que, embora seja de outra cidade ouve com atenção. E usa como motivo para puxar conversa com o motorista, que não perde a oportunidade de declarar sua felicidade e amor ao Atlético – GO, “o time goiano da série A”, afirma efusivamente.
À noite, enquanto luta com suas revisões e textos do dia o cronista, no sossego de seu lar, em um bairro de periferia vê desfilar nas ondas do rádio o humor inteligente no programa Fanáticos. Novela?  Programa do Ratinho? Não, nem pensar. O bom mesmo é embarcar na alegria e bom astral do Beto Brasil, que  com seu bordão “você sumiu deu...” faz uma viagem ao mundo do futebol e interage de forma muito espontânea com seus ouvintes que apesar de ficarem na espera um bom tempo, participam,  dando sua opinião no ar, sem censura e seguindo o astral do programa. São ouvintes cativos desde o início do programa.
Quando acaba, hora de dormir, desligar. Vem mais coisa por aí, mas o corpo e a mente pedem descanso. Amanhã tem mais.
No outro dia, ainda madrugada, Seu João, o vaqueiro, acorda mais cedo e vê que não está na hora de levantar. Enquanto pensa na vida, na lida diária e em suas obrigações, liga o radio e encontra ânimo e disposição ao ouvir o Madrugada Viva. Engraçado, pensa, o que faz o Barack Obama ali? Ele não é Presidente dos Estados Unidos? Mais um pouco, e retoma a rotina diária, afinal, Justino Guedes já vem chegando e anunciando: “em Goiânia, cinco horas”! É hora de começar mais um dia.
-*-

Parabéns pelo aniversário de oito anos, Rádio 730! Continuem entretendo e levando a informação correta a seus inúmeros ouvintes, pelo mundo inteiro.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

NA FAZENDA DO TIO JOÃO

Fazendo o maravilhoso doce de leite goiano

Lugar bucólico, de um entardecer maravilhoso

Na fazenda do Tio João, o cair da tarde traz a paz e a quietude que fazem bem ao coração e à alma.
O sol, despedindo do dia e buscando seu refugio, deixando atrás de si belíssima claridade traz o intenso movimento dos pássaros em busca de seus ninhos, o canto das araras azuis, sempre em dupla ou casal e o mugir melancólico do gado, recolhido e apartado, faz sonhar e imaginar ser a vida apenas aquele momento, de tranqüilidade e sossego.
À noite, vem a visita dos vagalumes. Ao longe, observo pequenos sapos que buscam refugio em um lugar escondido e seguro. Apurando mais os ouvidos, escuto a imensa cantoria que vem da pequena mata próxima.
Sentado na pequena cerca que fica em frente à casa, vejo o surgir das estrelas. No começo, tímidas, apenas uma aqui, outra acolá. Mas, em pouco tempo, um céu maravilhoso e iluminado resplandece. Belíssimo céu. Fez falta apenas a lua nesse instante, mas pela madrugada adentro, ela aparecerá e iluminará até pela fresta da janela do quarto.
Na fazenda do Tio João, devido á pouca freqüência da irmã-chuva neste ano, o milho ainda não está totalmente granado, no ponto de fazer pamonhas. Talvez daí a uns vinte dias esteja no ponto, mas, sapiência da mãe natureza, ainda não chegou lá.
O alvorecer, depois de noite calma e repousante, vem com os pássaros em festiva sinfonia, o barulho das galinhas no quintal e o mugido triste das vacas no curral, a chamar seus bezerros, para receber a parte do leite que lhe é de direito.
Em breve, estou ao lado dos amigos, reunidos em volta de uma grande fornalha, a preparar um delicioso doce-de-leite. Á moda antiga, com muito cuidado, mexendo sempre para não pregar no fundo do tacho. Depois de algumas horas de paciência e trabalho, a primeira prova. Mais um pouco, é só retira-lo e chamar a meninada (e alguns adultos) para raparem o tacho.
No imenso quintal, com suas mangueiras antigas oferecendo generosa sombra, tem uma quantidade imensa de guarirobas de variadas idades. Fico a imaginá-las na panela sozinhas ou acompanhadas do delicioso frango caipira, à moda goiana.
Apesar de todo este paraíso, desta vez a fazenda do Tio João estava um pouco mais sem-graça. Faltava algo. Ou melhor, alguém.
Acometido de forte gripe, o Tio João não estava lá. Todos sentiram imensa falta de suas brincadeiras, de sua habitual mania de oferecer aperitivo aos presentes – os mais afoitos acabam no chão -, de seu carinho com as crianças. Sua presença sempre é motivo de alegria e satisfação.
Que da próxima vez estejamos juntos novamente. E com o Tio João gozando de plena saúde.

sábado, 12 de novembro de 2011

O MELHOR LUGAR DO MUNDO


"Faze de tua casa um pasaiso e o paraiso será tua casa"

Na parede da sala de minha casa tem um pequeno quadro. Pequeno, humilde, singelo, mas com uma paisagem e uma mensagem fantástica. Sua moldura, já marcada pelo tempo, tem uma cor bege, meio de empoeirado, meio de muito tempo.
É uma pintura feita à mão, com três palmeiras em destaque à frente, uma estradinha em perspectiva que vai até uma pequena casa de taipa, coberta de palha, um lago do lado com um barquinho distante e um belo pôr-do-sol, com nuances de amarelo vivo e vermelho-alaranjado. É uma palhoça simples, mas dá a impressão de um lugar de pessoas felizes.
Traz o ano e as iniciais de quem pintou o pequeno quadro. O ano: 1972 e as iniciais: I. C.G., de Irmã Cirene Garcia, uma religiosa salesiana, que morou em Goiânia nessa época, em um colégio que fica na Praça do Cruzeiro, região sul de Goiânia, chamado Instituto Maria Auxiliadora.
Em 1972 eu era ainda muito criança, tinha apenas seis anos. Goiânia também era uma cidade adolescente e tranqüila. Não havia a loucura dos enormes engarrafamentos de hoje, tampouco o telefone era como hoje, inconveniente, móvel, os chamados “celulares”.
Sobre a Praça do Cruzeiro, naquele tempo era um lugar encantador. A imensa fonte luminosa, com seus surpreendentes e coloridos jatos d’água me fazia ficar parado, encantado, a admirá-la. Maravilhosas canções eram transmitidas pelos auto-falantes da fonte, que faziam uma perfeita harmonia com os jatos coloridos. Seus gramados de um verde muito vivo eram completados por pequenas plantas que sempre derramavam flores e mais flores. Um jardim de encanto. Havia também roseiras floridas, dos mais diversos tons e tamanhos.
O pipoqueiro, com seu carrinho e sua palavra amiga conquistava as crianças. Não havia o medo, era de confiança, tratava a todos com cortesia e conquistava amigos. Durante o dia, eu ficava contando as horas para que chegasse logo a noite, para que pudesse ir para a praça, rever a bela fonte luminosa, ouvir canções que encantavam e brincar com os amiguinhos da vizinhança.
Era um tempo em que as pessoas encontravam mais tempo para conversar, para trocar idéias. Era muito comum os vizinhos serem compadres e as crianças tomarem a benção aos mais velhos. A televisão não era tão obrigatória, impositiva, fazendo com que todos ficassem mudos, lado a lado, olhar fixo na tela, sem conversar, como hoje. Havia confraternização, alegria de encontros. Era uma praça muito bonita e alegre.
Hoje, a praça ainda está lá. Como na Avenida Tocantins, sobre quem já escrevi um dia, suas árvores e seus arbustos estão negros pela fuligem. A fonte não funciona mais e tampouco tem musica. Mesmo que tivesse, com o intenso barulho dos ônibus e veículos que passam ali seria impossível ouvir. Apesar dos modernos sistemas de iluminação, a praça está quase às escuras. Não vemos mais crianças a brincar, nem carrinho de pipoca.
O pequeno quadro me leva a esse tempo. Hoje, somos obrigados a ficar seguros, trancados em casa. Cada um com sua ocupação, sua obrigação a fazer.
Costumo afirmar que o melhor lugar do mundo deve ser a nossa casa. Ao lado, em um canto da linda paisagem do quadrinho, uma pequena mensagem que nos leva a refletir: “Faze de tua casa um paraíso, e o paraíso será tua casa”.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

SÁBADO DE SOL, XADREZ, ESCOLA... E UM MENINO SONHADOR


- Vamos jogar, Tio?
Aquela pergunta pegou-me de surpresa, absorto que estava, com o pensamento bem longe daquele lugar. Olhei para o garoto que me inquiria. De tez morena, com o olhar muito vivo e de uma expressão alegre no rosto, trazia nas mãos um pequeno tabuleiro de xadrez. Demorei a responder e ele, novamente, com certo ar de decepção, indagou novamente:
- Ah, o Tio não sabe jogar xadrez?
Pedi-lhe que me desculpasse, pois estava distraído, e querendo justificar alguma coisa, disse que talvez nem lembrasse mais como se joga xadrez, pois, verdadeiramente, só havia tido contato com aquelas pedrinhas estranhas, aí por volta dos meus dez anos, coincidentemente a mesma idade do menino ali à minha frente.
- Pode deixar que eu ensino ao Tio.
Agradeci, e sentamo-nos frente a frente, ele com um ar danado de satisfação, talvez por encontrar um adversário mais velho que ele, onde poderia mostrar seus conhecimentos do assunto, e assim, fomos iniciando a colocação das pedras no tabuleiro em suas devidas posições.
Não pude deixar de notar sua indumentária simples, limpinha, bem humilde. Uma camiseta com propaganda de um supermercado qualquer, uma bermudinha surrada e nos pés, um tênis com cara de apertado e que certamente já andou por muitos lugares com seu dono.
Ao iniciarmos o movimento do jogo, com a visão daquele menino, pus-me a lembrar de tantas histórias de homens que, um dia na vida, foram como ele. Que, se hoje, as pessoas ao vê-los profissionais bem sucedidos em suas áreas, sequer imaginam que um dia também foram crianças de pais pobres, cheio de incertezas da vida, mas cheios de sonhos, e se estava ali em um dia de sábado na escola, não era por um motivo qualquer, mas pela vontade de ser alguém na vida. Afinal, poderia estar em seu bairro, soltando pipa, jogando futebol, brincando de carrinho, ou, mal das crianças de hoje, defronte a um aparelho de TV. Mas não, orgulhosamente, estava ele ali, na sua escola, desafiando pessoas para uma partida de xadrez.
Prestando pouca atenção no jogo e mais no menino, fiz algumas perguntas e ele, com naturalidade foi respondendo, sem deixar de dar a devida atenção ao tabuleiro. Assim, fiquei sabendo que ele mora em um bairro da periferia, no município de Aparecida de Goiânia, que o pai foi assassinado (matado, segundo suas palavras) em uma briga de bar e a mãe, que trabalha como diarista não tem muito tempo para ele e seus outros cinco irmãos. Disse ainda que tem um avô doente, que fica deitado em uma cama, mas, mesmo assim, tenta, como pode, cuidar para que seus irmãos não aprontem muito. Disse ainda que gosta muito de estudar, da sua professora e de sua escola. E, que um dia, quer ser “dotô adevogado”. Para tirar os pobres da cadeia.
Viajei novamente com suas palavras, pois, um momento em que um ministro da mais alta corte do País livra da cadeia um político nacional e mundialmente conhecido por suas falcatruas e roubalheiras contra o patrimônio público, justificando no seu voto “que dava a ele liberdade por pena e dó, sensibilizado por vê-lo na cadeia ao lado do filho” e um menino como aquele, sonhando com um futuro melhor, ainda acreditava na vida.
- Xeque-mate.
Sua voz trouxe-me à realidade, e vi-me perdido naquela partida. Intimamente, porém, senti-me tomado por imensa alegria, ao ver naquele menino, uma pessoa, como tantos brasileiros, que lutam por um lugar ao sol, que quer realizar seus sonhos, ainda que a vida os torne distantes. Precisei ir embora, não sem antes dizer para que ele continuasse assim, lutador e que acreditasse muito em seus sonhos. Em pensamento roguei ao Senhor que o afastasse de tanta coisa ruim que existe hoje contra nossas crianças, como drogas, más-companhias, etc.
Tive que prometer que voltaria no próximo sábado. E que iria treinar durante a semana, para melhorar o meu jogo e poder enfrentá-lo de igual para igual.
- E não esqueça Tio, xadrez “é bom pra cachola, pra ficar mais inteligente”.
Saí dali com o coração pequeno, mas feliz da vida. Pena que nossos governantes - seja em que época for - nunca pensarão no país, mas somente em roubar para encher seus bolsos e de seus apaniguados. Como seria bom ver nosso Brasil um País bem governado, para que crianças como aquela pudessem ter a certeza de ser alguém na vida.

sábado, 5 de novembro de 2011

AVENIDA TOCANTINS

Um dia desses, já primavera, passei pela Avenida Tocantins, no Centro de Goiânia. Senti um aperto no peito - depois de tanto tempo, estava novamente ali. Ao cruzar a Rua Três, subindo em direção à Praça Cívica (ou Praça Pedro Ludovico, como queiram), revivi a década de 1980, os meus primeiros tempos de morador desta metrópole.
A Tocantins me acolheu. Em seu asfalto, no primeiro emprego, dei meus primeiros passos. Ficava exatamente ali, no numero 310. Recém chegado de uma cidade do interior, eu havia deixado para trás tudo o que tinha de mais importante - amigos, escola, familiares. Encontrei ali esperança, novos caminhos e oportunidades para a busca de um futuro e uma vida melhor.
No número 310 da Avenida, trabalhava como office-boy. Entregava passagens aéreas nas empresas, fazia cobranças, ia ao banco e ajudava nos trabalhos na tesouraria. Utilizava uma bicicleta, que foi minha grande companheira nesse período. Essa bicicleta também ficava comigo nos finais de semana e me proporcionava liberdade de ir e vir, gastando naqueles tempos de dinheiro curto e escasso apenas energia e vitalidade.
Eu tinha já dezesseis anos. Diariamente ia às agências da Vasp, naquele tempo uma representação, administrada pela simpática dona Cilene Andrade, de quem ouvi bons conselhos – e seu filho Zezo - situada na Rua Três e também na Varig, que ficava na Rua Dois, na esquina com a Avenida Goiás. Nesses dois lugares as réplicas dos aviões e os grandes painéis retratando lugares turísticos de todo o mundo me faziam viajar, sonhar. E enquanto aguardava que as atendentes – por sinal, muito elegantes - fizessem os procedimentos necessários, encontrava sempre uma palavra amiga, um bom dia do sempre simpático Sr. Duarte, gerente da empresa. Apesar de seu cargo importante era despido de vaidades, algo muito comum nesse meio.
Voltando à Tocantins, de longe já enxergava e me encantava com a beleza de um imenso Flamboyant, que com seus galhos imensos atravessava a avenida de um lado a outro. Conradianamente* me enternecia ao observar suas flores vermelhas, cheias de abelhas com seus zunidos e seu ir e vir, alimentando-se com o néctar e transportando o pólen, fecundando-as para que viessem a ser sementes - a seqüência da vida.
Ali no número 310 eu assumi responsabilidades logo,  bem cedo. Trabalhar durante todo o dia e estudar à noite, no colégio Lyceu de Goiânia, não era um fardo, não era uma coisa difícil. Ali eu conheci e enfrentei o mundo com altivez e dignidade. Encontrei muitas barreiras, mas venci a quase todas. Inicio de vida adulta, pronto a assumir tarefas, responsabilidades.
Quanto aos meus sonhos, comecei a realizá-los, formatá-los para a vida. Alguns jamais se realizariam. Mas realizei outros, embora não os tivesse sonhado. Sem perceber construí castelos sólidos que talvez que não esperasse construir.
Avenida Tocantins foi minha grande amiga. Ao passar por lá hoje não posso deixar de notar os velhos flamboyants enegrecidos pela fuligem da fumaça dos coletivos e mutilados pelos motosserras – afinal, eles precisam dar lugar à fiação elétrica, aos cabos telefônicos e das TV’s por assinatura. Mas estão lá. A primavera trouxe as flores teimosas. Insistem em aparecer e cumprir a função que a mãe natureza lhes deu. As raízes sobressaem-se das calçadas e parecem demarcar território, como a mandar um recado: resistimos, continuamos aqui.
A Tocantins continua lá. Diante de tantos veículos que passam por ali, parece não ter mais espaço. Mas continua lá. E, mais ainda, estará sempre na minha lembrança, no meu coração. Afinal, ela me acolheu e me propiciou dar os primeiros passos nesta Goiânia, que tanto amo.
· Conradianamente: alusão ao cronista e poeta das coisas simples e belas, JEAN PIERRE CONRAD.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

INFÂNCIA

“é assegurado à criança o direito à vida… à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar… além de colocá-los a salvo de toda a forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”. (art. 227 CF)

Não fora uma noite das melhores. Tivera pesadelos, sonhara com sua mãe, com seu padrasto Bené ameaçando mais uma surra; sonhara também com sua irmã pequenina adoentada. Foi com alívio que vislumbrou pela abertura no telhado os raios solares parecendo querer trazer-lhe desejos de um dia feliz.
Levantou-se meio sonolento, procurou pelo seu Tio Pedro, mas ele já tinha ido trabalhar. Despertou de sua letargia ao ouvir sua avó mandando-o escovar os dentes para tomar café. Encantou-se com dois pequenos pássaros coloridos que se bicavam carinhosamente, numa demonstração natural de ternura.
Após a higiene, tomando leite e comendo pão, lembrou dos pesadelos que tivera, querendo saber se aquilo fora mesmo sonho ou realidade, constatando aliviado que fora mesmo um pesadelo. Não tinha ainda noção, na ingenuidade de seus seis anos, do que era sonho. Achava que era sua mãe que vinha visitá-lo escondido do padrasto, que não gostava dele. Mas não entendia que, se às vezes, ela vinha toda sorridente, tomava-o nos braços cobrindo-lhe as faces de beijos, prometendo-lhe que logo voltaria para buscá-lo para viverem juntos e felizes para sempre, outras vezes vinha, juntamente com o padrasto Bené, que se punha a aterrorizá-lo com suas ameaças de surra. Seu pequenino coração ainda não sabia discernir o que era sonho e o que era realidade.
Levantou a vista no horizonte, sorriu ao ver uma raia subindo cada vez mais alto, depois outra e mais outra. Imaginou-se sendo uma daquelas raias, para ir bem alto e gritar para sua mãe e sua irmã “olhem aqui! Vocês podem me ver, olhem como eu estou alto”.
Súbito, um berro de seu pai trouxe-o à realidade. Ao virar para saber o que seu pai queria, viu-o crescer, tornando-se imenso, com a aparência de um monstro. Fechou os olhos ao levar o primeiro tapa no pequeno rosto, sentiu as pernas formigarem e doer muito a cada cintada que levava. Tentou, meio zonzo levantar, mas nova saraivada de cintadas o derrubou. Sentiu o gosto acre de sangue na boca. Sentiu ser arrastado em direção a uma pequena casa que havia nos fundos, onde ficava um fogão a lenha – por sinal um dos locais preferidos para suas brincadeiras solitárias.
Ouviu um grotesco “ajoelha aí, agora você vai saber o quando é bom ser danado”. Levou mais um tapa, sentiu alívio quando o pai saiu, porém para logo voltar com as mãos cheias de pedra-brita. Sentiu quando ele colocava as pedras embaixo de seus joelhos. Dor, naquele momento, não sentia. Parecia estar anestesiado. Ouviu ao longe a ameaça do pai, dizendo que se ele saísse dali, apanharia em dobro.
O tempo foi passando e a dor foi chegando. Seus joelhos já feridos pediam saísse dali. Também estava com uma vontade imensa de urinar, mas lembrava-se da ameaça do pai de recomeçar tudo novamente. Ouviu passos, viu seu Tio José passar perto, mas ele apenas olhou. Implorou em pensamento que ele o tirasse daquele suplício, mas ele não o ouvia. As horas foram passando. Sentia muita sede, mas não tinha coragem de pedir água. Sentiu saudade, muita saudade da mãe. Até do Bené, pois quando ele o espancava, o batia, não tinha aquela tortura de colocá-lo com os joelhos sobre pedras. Perdeu a noção do tempo. Via apenas que já era tarde. Aquele longo dia estava acabando. Mal ouviu quando o pai mandou que saísse dali, dizendo que iria tirá-lo da escola, para nunca mais ouvir reclamações dele.
Tentou andar, mas as pernas não obedeciam. Viu sua avó, com um rosto triste e deixando cair uma lágrima. Como queria rever sua mãe.
Mais algum tempo, chegou seu Tio Pedro, seu grande amigo e perguntou a si mesmo: como é que ele deixava que acontecesse aquilo. Não, o Tio Pedro não poderia estar sabendo o que acontecera. Ele o levava para passear, dava-lhe broncas, mas de forma diferente. Sentiu imenso carinho quando se aproximou dele. Sentiu, depois de um dia de horror, que estava seguro. Mas, o que seu coração de criança queria mesmo era estar perto de sua mãe, abraçá-la e se sentir amparado.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

UM VELHO VIOLÃO EM UMA NOITE DE CANTORIA - E CERVEJA!

Chegou numa motocicleta pra lá de velha, com problemas de “juntas”, debaixo de uma chuva fria e insistente. Trazia as vestimentas cheias de pingos de tinta, sinal que havia trabalhado durante todo o dia. Tinha um rosto magro, as feições rijas, um ar de sofrimento, barba por fazer, um olhar meio perdido, distante talvez.
Trazia nas costas um violão, velho e carcomido, faltando uma corda, envolvido no que foi um dia uma capa protetora própria para violões.
 Dirigiu-se ao balcão do bar onde estávamos, pediu ao Sr. Toninho uma pinga. Mandou colocar logo uma    dupla, para acabar com o frio que, segundo ele, doía-lhe até os ossos.
Não me contive e perguntei-lhe sobre o violão e, nesse instante, seu rosto se iluminou, despertando de sua letargia. Fitando-me nos olhos, respondeu dizendo que acabara de comprar. E que seu sonho desde menino era ter um violão, não importando se fosse velho, mas que desse para tirar umas cantigas.
Disse isso e retirou-o da desarrumada e malcheirosa capa e entregou o violão a mim, dando a impressão que ali estava um bem tão precioso, algo que representava muito para ele, como sua própria vida.
Meio sem jeito, peguei o violão, tentei afinar as velhas e enferrujadas cordas e, apesar da falta da primeira (mi), consegui tirar alguns acordes.
Foi o suficiente para o sujeito mostrar-se radiante e feliz, pois constatara que sua aquisição funcionava. Imediatamente propôs pagar uma cerveja para mim, desde que eu tocasse mais alguma coisa. Não me neguei e continuei a tirar sons. Ele então se atreveu “pedir” uma música que, embora não faça parte do meu gosto musical, era fácil de tocar e sabia mais ou menos sua letra. Ele acompanhou a cantoria e, sabendo de cor toda a letra da música, cantou e interpretou ao seu modo, meio desengonçado, mas cantou.
Em uma mesa de canto, estava um casal que, chegando mais perto, também pediram que tocasse outra música. O tal sujeito disse também que sabia a letra e, num instante estava eu tocando um violão que faltava uma corda, e dois sujeitos desafinados a cantar musicas que falavam de amor, de paixões antigas, desenganos e outras coisas mais. E desce cerveja.
Foram chegando pessoas, outros que sabiam tocar davam sua palinha e, quando olho no relógio, uma hora da manhã. Pensei eu: hoje não entro em casa. Minha primeira dama deve estar cuspindo fogo.
Não tem jeito, agora é ir embora. No trajeto para casa, fiquei pensando o que é a música. Um violão velho, que para alguém não prestava mais acabou fazendo a festa de pessoas durante uma noite, e principalmente, trouxe felicidade a uma pessoa que, pela sua aparência não era das mais felizes. Certamente tinha uma vida difícil.
Chego em casa, tomo meu banho, vou aninhar-me nos braços das minha amada, que pergunta por que cheguei aquela hora. Meio sem jeito, respondo que estava na companhia de um velho e surrado violão, que fez a felicidade de pessoas durante algumas horas.