quinta-feira, 13 de setembro de 2012

EVOLUÇÃO E CONSCIÊNCIA POLÍTICA DO BRASILEIRO

            Quase ao final da década de 1980 de uma hora para outra surge em todo o país o fenômeno Fernando Collor. Surge de forma avassaladora em um bem produzido programa de TV de seu partido, o desconhecido PRN, onde mostraram mazelas da administração pública como os estoques de milho que apodreciam nos silos, os famosos marajás - servidores de altos salários que muito ganhavam e pouco faziam - e escandalosos casos de nepotismo.


          O Brasil ainda se ressentia do trauma da morte de Tancredo e a conseqüente ascensão à Presidência da República de Jose Sarney, com seu jeito polido e adepto da “liturgia do cargo”. Acabara de ser promulgada a constituição cidadã e em todos os corações brotava esperança de um país social e economicamente justo.


            


  Ocorriam grandes transformações no mundo. A igreja Católica tinha um Papa não italiano depois de 455 anos, relativamente jovem que embora conservador, desfrutava de grande popularidade. 





 
No leste europeu, a Polônia convivia com o Sindicato Solidariedade, comandado por um sonhador chamado Lech Walesa e abria espaço para a democratização. 

Na até então impenetrável e misteriosa União Soviética Mikhail Gorbachev assumia o poder no meio da década, e trouxe ao mundo a elegância de sua esposa Raissa e palavras como Perestroika e Glasnost – cujo significado literal era reconstrução e transparência. 






Na fechada China, em local de nome significativo e emblemático - Praça da Paz Celestial - milhares de jovens protestavam e ousavam pedir democracia. O mundo se estarreceu quando um indefeso e frágil rapaz, de camisa branca enfrentou uma coluna de blindados, fazendo-o desviar da rota. As imagens correram mundo. 

                
 

 Michael Jackson lançava seu disco Thriller, que vendia aos montes, chegando ao ponto de haver lista de espera nas lojas. Enquanto no rock nacional a Legião Urbana encantava, Paulo Ricardo e os RPM’s faziam verdadeiras revoluções por minuto nos corações da juventude que lotavam ginásios de esportes e estádios país afora.

                Era grande o desejo de mudanças e consolidação da democracia. A decepção pelo fracasso do plano cruzado deixou em cada cidadão o desejo de um governo com ações rápidas e eficazes.
                E foi absorvendo esse desejo do povo que Collor chegou como um verdadeiro furacão. Jovem, com excelente retórica e de imediato - a partir do programa em rede nacional do PRN – conquistou adeptos em todo o país. Lembro como hoje a ansiedade de um político do interior ante a chegada da resposta da direção nacional para que pudesse fundar o diretório local. O restante da história todos já sabem. Collor foi eleito, gastou a única bala que tinha em um plano econômico e tempos depois foi cassado, voltando à cena política como Senador da República anos mais tarde.
                É inegável que o que deu o grande start na ascensão política em nível nacional de Fernando Collor foi o aproveitamento de sua retórica eficiente, conteúdo de acordo com o que a população queria ouvir, tudo isso veiculado no programa de seu partido em rede nacional de TV. Sem, isso, naquele tempo, Collor não teria tido sucesso.
                Há 30 anos tínhamos apenas veículos como a TV, rádio, jornais impressos – e revistas cujo preço as tornava inacessíveis. Hoje a informação chega por várias vias. Logo pela manhã é possível encontrar um enorme contingente de pessoas das mais diferentes idades e classes sociais de posse de um pequeno tablóide, que resume noticias dos jornais maiores e custa em média cinqüenta centavos de real. Ao celular é possível acessar via internet a uma infinidade de jornais, blogs e sites que trazem informação em tempo real. As redes sociais deixaram de ser apenas álbuns eletrônicos de fotos, tornaram-se eficazes canais de informação e compartilhamento de idéias. 
                Veículos tradicionais de comunicação não são mais exclusivos detentores da informação e da verdade. Tampouco, a massificação de um nome ou de uma causa, ou a forja de um líder carismático, conforme definiu Max Weber, não é mais empurrada goela abaixo. O cidadão não abre mão de pensar, conversar com as pessoas mais próximas e formar sua opinião.


 
O governo ao divulgar seus feitos, informa que a situação da educação, saúde e segurança está totalmente sob controle. Mas o cidadão nota a ausência do Estado quando vê bem perto dele o tráfico de drogas, assaltos e assassinatos; ou quando precisa dos serviços de saúde e descobre que a falta de profissionais ou insumos básicos é a verdadeira realidade. Isso quando tem a felicidade de não precisar de UTI. Cirurgias ortopédicas chegam a esperar um, até dois anos, com o paciente dormindo e acordando todos os dias vendo seu trauma físico se consolidar

                A visão real dos fatos, o acesso a redes sociais e o ingresso na educação superior mostram a politização e o nível de consciência do cidadão. Apesar da massificação da divulgação das ações governamentais – nem sempre de forma efetiva e verdadeira, algumas eivadas de promessas nem sempre factíveis - o cidadão percebe com nitidez as mazelas e as dificuldades que o afligem. Tais bombardeios de noticias o fazem desconfiar e seguramente alimentar o desejo de alijar da vida publica os governantes que lançam mão desses artifícios.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

"CANTOS & ENCANTOS" BREVE NA SUA TELINHA

Breve na sua telinha, através da Tv Capital Canal 32 UHF Goiânia o programa "Cantos & Encantos", com o melhor da arte e cultura goiana e brasileira. Confira a abertura do programa, criação do mago das imagens e boas idéias Estife Kalil, com música de Chico Aafa, a bela Por onde eu for.


 


sábado, 8 de setembro de 2012

PÁTRIA AMADA: BRASIL! E O BRASIL DO B



                O verde e amarelo das flores nas sibipirunas que ainda restam na velha e querida Campininha das Flores em Goiânia anuncia a chegada da semana da pátria e me leva a reflexões.

              
  Reflexões que incluem o Brasil grande de hoje, integrante dos BRIC’s, que empresta dinheiro ao FMI, é objeto de desejo de bons profissionais formados no exterior, e praticamente obriga o governo norte-americano a facilitar o antes tão cobiçado visto de entrada.

               
 Brasil grande que é sinônimo de pujança econômica, milhões de carros produzidos, rotineiros recordes na agricultura e construção civil que contrata, contrata, mas não consegue preencher todas as vagas. Brasil onde programas habitacionais e crédito farto fazem com que o trabalhador tenha acesso à casa própria e itens de conforto, como carro, eletro-eletrônicos, computador, internet banda larga, e escola particular para os filhos.


Esse é o retrato fiel de todo o Brasil? Infelizmente não. Ainda temos o Brasil do B. Brasil do B como o denunciado pelo Padre Djacy Brasileiro, que atua na região do sertão do Vale do Piancó, Estado da Paraíba, onde o sertanejo sofre com terrível seca, que traz desesperança e sofrimento a 171 municípios somente naquele estado.


Raquel de Queiroz romanceou em “O Quinze” a terrível seca de 1915. A procissão da chuva, descrita no livro escrito em 1930 continua a acontecer até hoje? Continua, e sem esperança de melhoras.


Conhecimentos e tecnologias existentes conseguem criar obras primas da engenharia espacial, como o fantástico “Curiosity” que explora o planeta Marte. Ainda assim não vencem a indústria da seca no Nordeste do país, que continua ativa a atuante. E precisa sempre ter seu campo fértil de flagelados para perpetuar dinastias políticas, que sempre aparecem como benfeitores e salvadores da pátria.

Mas há outra seca que assola o Brasil Grande e pujante. A seca da educação, com escolas sem mínimas condições de trabalho e Professores com salários absurdamente baixos. Seis Governadores, inclusive o de Goiás moveram Ação Direta de Inconstitucionalidade junto ao STF, onde se questiona a legalidade da Lei do Piso, instituída em 2008.


A Lei número 11.738, de 16 de Julho de 2008 não é panacéia para os problemas da educação no Brasil, mas objetiva resgatar divida histórica do estado com a educação. Quando o estado passa a ver a lei apenas sob o ponto de vista financeiro, corre-se risco de piorar ainda mais a já tênue situação dos educadores. E justo em Goiás, no inicio do ano o governo retirou dos educadores conquistas e direitos adquiridos há anos, como a gratificação de titularidade.


Em recente entrevista o Reitor da Universidade Federal de Goiás Edward Madureira afirmou taxativamente que sobram vagas de licenciatura. Isso é a constatação cabal que os jovens não se sentem mais atraídos pela profissão de Professor, antes tão decantada e valorizada socialmente.


Os professores também em sua grande maioria se sentem mal representados na área sindical. O sindicato da categoria saiu enfraquecido diante dos fatos ocorridos na ultima greve. Por mais que tentem mostrar que estão atuando, os educadores os vêem com desconfiança. E sindicato fraco, significa classe mais enfraquecida ainda e mais suscetível às pressões e atos intimidatórios do poder público.


O Brasil grande, pujante, dos recordes econômicos e da boa imagem internacional tem grande divida com seus filhos do Brasil do B. Grande dívida social. A seca do nordeste, terra de meus pais, onde estão minhas raízes das quais me orgulho tanto, está em plena convergência com a seca da educação.
Que se lute para mudar esse quadro. De seca de água e de saber.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

VELHAS FOTOGRAFIAS DE SAUDADE


                Rebuscando e remexendo papeis guardados em velhas caixas de papelão, eis que encontro esquecidas e quase abandonadas fotos de tempos antigos, felizes, de esperança e busca de dias melhores.
                Olhando aquelas fotos, percebo o quanto éramos fisicamente diferentes. O que nunca mudou  foi o sorriso estampado no rosto e os sonhos, que continuam os mesmos. Retratos de épocas em que começávamos a construir a vida, formatando aquilo que somos hoje.
                Como foi bom revisitar aqueles momentos. As “crianças” eram pequenas, dependentes e felizes, vivendo sua infância, não obstante as dificuldades da época.

                Invariavelmente viajo a esse tempo, que foi muito feliz. O começo da vida a dois, a vinda das filhas queridas,  que um dia tiveram a primeira bicicleta, o primeiro uniforme e o primeiro dia na escola. Aos finais de semanas as meninas iam à casa dos avós maternos, onde as tias, que eram da mesma idade ou até menores, eram alegres companheiras de brincadeiras e traquinagens.

                Os avós moravam de agregados em uma fazenda. A casa ficava nas proximidades de uma mata e uma aguada, que desembocava e formava uma bica d’água que corria o ano inteiro. Pertinho, um pé de manga coquinho derramava-se sobre o chão com seus galhos firmes e quase centenários, a beijar o chão e reverenciar a mãe terra que lhe sustentava as raízes. Ao lado um imenso tronco seco, tombado mas ainda firme de um grande angico, que sob a força bruta de um insistente machado, um dia caiu. Servia de balanço à meninada, como um amplo play ground natural
                Com telhado quatro águas, sem varanda, e com pouco conforto, a moradia era ao menos aconchegante. Constava de dois quartos, sala com janela de madeira e a cozinha grande, onde ficava o fogão à lenha. Apesar de pequena, agasalhava bem a todos os filhos. Por algumas telhas quebradas nas noites claras as crianças divertiam-se quando ao deitar, antes que chegasse o sono, viam pelas frestas a luz da lua e o brilho das estrelas.

                Um dia tiveram que mudar para a cidade. A velha fazenda fora vendida e os novos compradores não queriam saber de agregados morando lá. A mudança para a nova morada foi um choque, embora tivessem ido para a periferia da capital, em uma Vila não muito longe da antiga fazenda.
                 A casa nova da cidade era simples, pequena, menor que a da fazenda. Aos poucos foram construindo mais cômodos. No inicio estranharam a água de cisterna e as telhas de amianto, que cobriam a casa, muito quente e abafado.

Aos poucos foram se adaptando, as crianças foram crescendo e a vida foi ficando aparentemente melhor, com novos móveis e itens de conforto sendo acrescentados. A até então pouco necessária televisão tomou seu lugar na sala e, em certas horas do dia, passou a monopolizar a atenção. Superou  rapidamente o rádio, até então a principal e mais animada diversão daquela casa.

            Passados tantos anos dos momentos registrados naquelas fotos, fiquei enternecido e saudoso ao revê-las. Aquelas imagens de alegria e felicidade revolveram nos recônditos do coração as boas lembranças e junto com a saudade, trouxeram-nas de volta ao presente.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

PARA ONDE IRÁS, ANA MARIA?

            A tiara de cores alegres emoldura o pequeno rosto, adornado por um sorriso franco e inocente. A pequena Ana Maria pouco se importa com o barulho e o movimento intenso de veículos e pessoas ao seu redor.


De dentro de um carrinho de bebê, sob os cuidados da mãe ela encanta a todos que ali passam. Não obstante a pouca idade – oito meses de vida – ela parece acompanhar tudo com seus olhos negros, vivos e brilhantes. E solta sempre seu sorriso espontâneo quando se aproximam e brincam com ela.
Durante o dia a casa e o mundo de Ana Maria é a marquise em frente a um centro comercial, onde dentre outras modalidades de comércio há drogaria, distribuidora de bebidas e vinhos finos e uma agência bancária, situado em uma das esquinas mais movimentadas de Goiânia, confluência das Avenidas T-63 e T-4, no Setor Bueno - região sul da capital goiana.
Enquanto Ana Maria fica sob os cuidados da mãe – que está grávida de dois meses - o pai, rapaz jovem e sonhador vigia e orienta a manobra dos carros que entram e saem do estacionamento de calçada, tipo espinha de peixe do movimentado centro comercial. Faz esse trabalho, mas não coage nem exige paga pelo serviço. Aceita de bom grado as moedas e algumas notas de poucos reais que os motoristas lhe oferecem – alguns até de cara não muito boa.
O resultado do serviço é imediatamente entregue à esposa, que toma conta do “caixa”. Quando as moedas alcançam numero suficiente vai até a farmácia e troca por notas de papel – “mais fáceis de guardar”, diz.
O pouco tempo que fiquei ali serviu para conversar com a família. A rotina deles é pesada: saem de casa às cinco da manhã de onde moram, um barraco alugado de dois cômodos em Trindade, cidade que fica a 20 km de Goiânia. De ônibus coletivo gastam cerca de duas horas para fazer o trajeto até o centro comercial.
É preciso chegar cedo, pois o movimento das primeiras horas da manhã, antes do expediente comercial é bom e as pessoas necessariamente procuram o banco e a farmácia. Sempre se faz um bom dinheiro nessa hora.
Trabalham ali até as 21 horas, quando cansados e fatigados buscam o caminho de volta à pequena casa em Trindade. Merecido e breve descanso, pois novamente hão de recomeçar na manhã seguinte. Para não perder o “ponto” trabalham todos os dias, de domingo a domingo.
Os pais de Ana Maria têm seus sonhos: imaginam em breve ter seu cantinho. Para isso querem juntar uma pequena quantia e para completar “tirar” um financiamento em banco oficial para ter a tão sonhada moradia, onde poderão criar a filha e o bebê que em breve virá.  “Responsabilidade aumentando, Doutor”- afirma antes de correr para ajudar a manobra de um carro que vai sair.
Do outro lado da cidade, alto da Avenida T-9 na Região Sudoeste, quando paro no semáforo vejo um rapaz puxando um pesado carrinho cheio de papelão e materiais para recicláveis. O movimento de carros e a subida íngreme, que tornam seu propósito mais difícil e árduo, parecem não o abalar.

Observando mais detidamente percebo no cantinho, dentro de uma caixa– como a não querer atrapalhar – o rosto assustado e triste de uma criança cuja idade certamente aproxima-se de um ano e meio. Com um pedaço de pão doce na mão, distraidamente observa o mundo que passa à sua frente ao ritmo da caminhada do pai. Parece não se interessar muito, pouco se importa com aquilo que a cada instante se apresenta a ela. Quieta e comportada, de costas para o pai, que segue seu caminho em marcha constante e firme, a pequena criança mostra tristeza no olhar, ao contrário da risonha Ana Maria.

As duas crianças – Ana Maria e a menina triste do carrinho da Avenida T-9 vão precisar de coisas básicas e essenciais como um teto digno, família estruturada, saúde, lazer e acesso à educação para que o futuro não lhes seja ingrato.
Ao invés de permanecerem durante todo o dia sob uma marquise ou dentro de um carrinho de recolhimento de recicláveis no desconfortável calor de Goiânia, estariam melhor em uma creche sob o cuidado de “tias” dedicadas e preparadas.

Por apenas vê-la passando enquanto aguardava a abertura do semáforo, nada fiquei sabendo sobre o mundo e a família da pequena e triste menina da Avenida T-9. Resta-me rogar ao Pai do Céu que a proteja e ampare, bem como à pequena e risonha Ana Maria
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sábado, 4 de agosto de 2012

A CASA DE RILZA E ZÉ LUIZ


                      “Ao Senhor oferecemos o alimento que teremos” Era assim que iniciávamos o almoço na casa de Rilza e Zé Luiz. Depois da oração, em alegre e festivo momento degustar a comida deliciosa preparada por Rilza e prestar atenção na boa prosa de Zé Luiz, que sempre tinha coisas boas e alegres para dividir.
                      A essa época eu era aluno interno do Ginásio Anchieta de Silvânia – GO. Durante a semana tinhas minhas atividades normais como todos os demais alunos do internato, mas aos finais de semana desfrutava do imenso e único privilégio de ir para a casa de Rilza e Zé Luiz.  
                      O filho mais novo de Rilza e Zé Luiz, Luzo era meu colega de classe, estudávamos na mesma sala onde fazíamos a mesma série. De imediato ficamos amigos, como se fôssemos irmãos. Amizade que se estendeu quando comecei a freqüentar sua casa e fui acolhido como filho por Zé Luiz e Rilza.
                      Recordo como hoje aquela manhã chuvosa de sábado, depois das aulas, o primeiro fim de semana que passei naquela casa feliz da Rua Henrique Silva.  Um fato interessante e marcante aconteceu assim que cheguei.  A mãe de “Tia Rilza” e avó do Luzo, Vó Dalvina havia trazido ovos de tracajá, iguaria muito apreciada em sua terra natal, a cidade do Peixe - àquela época Goiás e hoje Tocantins. Perguntaram se eu aceitava e ao dizer sim, ainda falei que gostava muito – mesmo sem conhecer. Só que ao colocar na boca o tal ovo de tracajá, não fui com a cara nem com o gosto do petisco, e tentando disfarçar chamei o Luzo para visitarmos o quintal, onde eu poderia me livrar daquilo mais facilmente. Foi o bastante para que todos caíssem na risada e se divertissem com a minha falta de jeito e  inexperiência com a iguaria.
                      Daí para a frente foi somente alegria. A casa de Rilza e Zé Luiz passou a ser a minha casa em Silvânia. “Tio Zé Luiz” gostava de reunir a família e patrocinar  saraus, onde o violão e sua possante voz se sobressaiam. Era de uma alegria incomensurável e contagiante ouvi-lo  interpretando belas canções de Seresta. Embora Zé Luiz sofresse com seus reumatismos, sempre mantinha o bom humor.
                      Zé Luiz era Contador e fazia faculdade. Durante o dia, pela manhã dava expediente no Ginásio Anchieta e à tarde, no escritório que ficava na casa de sua mãe, Emerenciana (Vó Miçana). À noite, ao lado de outras pessoas, tomava o ônibus e dirigia-se à cidade de Anápolis – GO, onde se formou em direito, carreira mais tarde seguida pelo “primo” Luzo.
                      A paixão futebolística da família Gonçalves dos Santos eram Flamengo e Goiás Esporte Clube. Duas bandeiras no quarto “dos meninos” simbolizavam isso. Como eu era torcedor do Vila Nova, que naquela época ganhava tudo no goianão tínhamos bastante o que falar do assunto.
                      Mas bom mesmo eram os passeios de bicicleta. Luzo tinha a dele e eu me apoderava da que servia ao escritório de contabilidade, uma Monark barra circular azul. Passeávamos pelos arredores da cidade e na volta, buscávamos sempre um quintal da casa de algum amigo, onde encontrávamos pés de mangas, jabuticabas ou mexericas pokan carregados e generosos.
                      Luzo e eu éramos tão irmãos que até brigávamos. A maneira de irritá-lo logo descobri: bastava chamá-lo pelo apelido que suas irmãs o presentearam que se enfezava. Não raro nos estranhávamos, mas logo tudo era apaziguado pelo conselho e pela ternura de Rilza, que com seu sorriso de mãe tornava impossível que não fizéssemos as pazes. Coisa de irmãos.
                      Ao fim da refeição, vinha a sobremesa. O pudim era uma das especialidades de Rilza. Zé Luiz degustava com imenso prazer e satisfação.
                      “Ao Senhor agradecemos o alimento que tivemos” Era a oração final, o agradecimento a Deus pela dádiva do alimento que nunca faltou àquela mesa.
                      Hoje mesmo distante agradeço ao Pai o privilégio do convívio com a minha família de Silvania, quando aluno interno do ginásio Anchieta. Além de amor, carinho e ternura na casa de Rilza e Zé Luiz fui verdadeiramente acolhido como filho, o que permitiu minimizar a saudade que sentia de meus pais, que moravam na distante São Miguel do Araguaia.
                      Obrigado, Senhor, obrigado ao Pai, pela família que tive e tenho no coração – dos queridos Rilza e Zé Luiz!