sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

NAVEGAR, É PRECISO!




O homem magro, esquálido e com o dorso queimado pelo sol arrastou e empurrou pela areia da praia, em um esforço sobre-humano, a pequena embarcação. Com dificuldade conseguiu colocá-la na água, em direção às ondas do mar, que naquele momento não estavam muito calmas ou amigáveis. Era uma embarcação pequena, uma metade de jangada, com cerca de dois metros por um e meio, um quase quadrado, onde ele subiu e passou a empurra-la em direção ao mar amparado por uma imensa vara de bambu.
Parecia uma luta inglória. Eu mesmo cheguei apensar que ele não conseguiria sair dali, afinal, as ondas eram altas e constantes. Mas, aos poucos, com paciência e empurrando o bambu em direção ao fundo do mar, foi lenta e vagarosamente alcançando seu objetivo.
Ao me aproximar percebi que ele buscava alcançar uma rede lançada na água, a cerca de cem metros da praia. A pequena embarcação parecia não sair do lugar, e algumas ondas que quebravam antes da praia, o jogavam para trás. Mas nem assim, ele desistia. Aos poucos, com calma e manobrando o imenso bambu, que além de impulsionar a embarcação servia para que ele se equilibrasse.
Chegando ao local almejado, ele verificou as redes, e a intervalos, levantava e acenava positiva ou negativamente em direção á praia onde outro homem parecia dar apoio a ele.
Após esse trabalho, hora de voltar. O local, embora tivesse ondas fortes e constantes, não tinha grande profundidade, o que facilitava o manuseio do imenso bambu. E ele repetiu a operação, e lentamente foi chegando, chegando, até aportar na praia.
Fiquei reflexivo. Certamente aquele homem repetia aquela operação cotidianamente, em todas as manhãs e com o resultado da pesca, garante o sustento da família.
Para ele, navegar é preciso, mesmo enfrentando ondas fortes, insistentes e nervosas, que dessa forma tentam impedir o deslocamento da frágil embarcação.
Ele, persistentemente, conseguiu seu objetivo, chegou até as redes que horas antes colocara naquele pedaço de mar. Ante a imensidão ao oceano atlântico, aquela era sua hora e na manhã de beleza e sol brilhante - talvez ele pouco tenha tido tempo para perceber isso – importava que as redes estivessem abarrotadas de peixes.
No outro dia, logo bem cedo, fui ao mesmo local, e percebi ele novamente lá, desta feita, já manuseando e verificando as redes, como no dia anterior. Parecia uma cena de filme que se repetia.
Diante do azul do mar se confundindo como azul do céu deixei-me ficar ali, ouvindo o barulho das ondas que vez em quando vinham mais fortes e tocavam meus  pés. Ondas generosas, que embora possam não parecer, garantem a vida de muita gente.
 Navegar, é preciso... Viver é preciso! E a vida é uma grande viagem, onde navegamos sobre ondas fortes e por vezes, aparentemente insuperáveis, mas entre idas e vindas, saídas e chegadas, cumprimos nossas metas e alcançamos nossos sonhos.
Hoje me vejo com quase meio século de vida, por vezes, lutando contra ondas fortes e difíceis. Mas, como aquele homem da pequena embarcação, sigo em frente, na busca da rede farta e da volta à praia, ao continente, com certeza de missões cumpridas.
 Tenho muitos sonhos por realizar! O que me move e traz ânimo, são esses sonhos. Na minha inquietude, estou sempre em busca deles. Assim, navegar é preciso.



domingo, 31 de janeiro de 2016

FALTA




Nem poemas,
Nem versos
Previsíveis,
Lógicos
Ou controversos...

Sem versos e poemas:
Página em branco,
Vazia...

Sem versos,
Sem poesia
Nem mesmo uma
Aldravia...

Nem versos, nem rosas
Sem o alimento diário
Da poesia

Sem versos,
A Poesia,
Ausente...

Sem versos,
Sem orquídeas
Sem rosas...
Sem o lirismo
Da fugidia

Poesia...

-*-


#Deumpoetaqualquer

“ALUIR A PALHA, RUIR A PILHA”, O PRIMEIRO LIVRO DE HAILTON CORREA




O lançamento de um livro e sua presença no meio literário é motivo de jubilo e louvores. Ainda mais que, sendo o primeiro do autor, nos brinda com a chegada de um operário das letras e a certeza de que novos e interessantes livros hão de vir. Diz-se que, ao lançar um livro, o escritor já tem em mente o próximo, o próximo e o próximo trabalho. Se não escritos, ao menos encaminhados, pensados, planejados. E um livro, gerado nas entranhas da alma e do coração, sempre é algo alvissareiro e marcante.
Ao escritor, é dado o direito de sentir sempre a renovada emoção de ver seu trabalho, seja um singelo poema, uma crônica em páginas de um jornal, nas ondas do rádio ou nas folhas brancas com letras pretas de um livro. É emocionante saber que o resultado daquilo que nos deixou minutos, horas, dias ou meses –quiçá anos – será objeto de atenção, de carinho e de obtenção de emoções por parte de quem lê, que acaba vivendo, vivenciando e adentrando no que está contido ali. Que o leitor haverá de identificar-se e sentir o coração tocado com aquela narrativa.
Através de uma rede social, recebi o convite para comparecer ao lançamento de “Aluir a palha, ruir a pilha”, e fiquei a imaginar e a recordar termos de minha infância, dos dialetos que eram presentes na longínqua e distante Fazenda Nova América de minha infância. E o titulo me leva a isso: “aluir a palha, ruir a pilha”. Aluir, é um verbete do mais puro dialeto goiano, da terra, do interior, da simplicidade da gente boa do meu querido estado.
“Aluir a palha, ruir a pilha”. Um título interessante por demais para um livro e que, nos leva imediatamente ao desejo de consumir avidamente o conteúdo. Esse título nos leva à lembrança da beleza dos contos de Carmo Bernardes, ou da poesia das crônicas de Jean Pierre Conrad.
Mas, quem afinal é Hailton Correa? E esse seu nome começando com H o quer torna-lo diferente?
Hailton, como os meninos de sua geração, correu, brincou e andou pelas ruas descalças e pedregosas de sua Itauçu natal.  Cresceu órfão de pai, que perdeu aos cinco anos de idade, e foi criado pela mãe – guerreira e lutadora – e pelos irmãos mais velhos.
 Como foi trabalhar desde cedo, Hailton Correa percorreu caminhos: foi engraxate, vendedor de laranjas e na adolescência e a fase adulta, exerceu funções, como arrancador de feijão, ceramista e cobrador de ônibus. Não há dúvida que as vivências nesses diversos momentos da vida foram o campo fértil para a inspiração com que compõe sua literatura. “Aluir a palha” termo que pode ter o significado de que determinado sujeito é tão preguiçoso que sequer dá conta de “aluir a palha” – é certamente resultado de suas andanças na arranca do feijão, ou nas observações feitas aos passageiros dos ônibus onde trabalhou durante certo tempo da vida.
Hoje, Hailton é servidor público. E, instado por uma amiga, em 2011 entrou para a Faculdade de Letras de Inhumas, onde concluiu a graduação em 2014. Além de licenciado em letras, é agora Escritor.

De minha parte espero aluir a palha e ávida e intensamente, fazer uma imersão nas histórias contadas em livro por Hailton Correa.



domingo, 20 de dezembro de 2015

INDIGNAÇÃO, ESPERANÇA, POESIA...




A caminhada em 2015 começou com incertezas e preocupações. As notícias não foram boas e o povo brasileiro teve medo do que viria à frente. Logo, começou o terror do governo, com seus porta-vozes engravatados, todos com cara de gente séria e comprometida com o país, a informar que mais uma vez o povo teria que fazer sacrifícios.
Um dos primeiros atos foi uma absurda e injustificada alta nas tarifas de energia elétrica – deu a impressão que voltaríamos ao tempo da lamparina – que com suas bandeiras sempre vermelhas, claro, viria extorquir o bolso do trabalhador, dobrando o valor da conta, apesar do consumo ser o mesmo, ou até diminuir. Tivemos que nos acostumar com uma nova realidade.
De repente, começam a pipocar no noticiário do radio e da televisão noticias de prisões de grandes empresários e figurões do poder, algo impensável até recentemente. O Brasil, através de sinais que vinham da justiça de primeira instancia do Paraná, começava a acreditar que, apesar da roubalheira instalada, de vergonha explicitada em confissões de corrupção, delações, em depoimentos constrangedores - não para os depoentes – mas para o cidadão honesto e de bem, que trabalha e sustenta esse país desde que Cabral aportou aqui há cinco séculos.
As crianças e jovens de repente se veem cotidianamente diante de vocábulos que até pouco tempo não eram utilizados.  Buscam entender o significado dessas palavras, como algo novo desconhecido, mas que para a maioria dos brasileiros são velhas conhecidas. Inflação e recessão, desemprego e retração da economia era algo que há um ano, poucos previam que acontecesse dessa forma desumana, fruto de irresponsabilidade e da corrupção.
Mas, de uma maneira ou de outra, sempre haveremos de encontrar motivos para sorrir e sonhar. As preocupações do dia a dia com a família, com fatos decorrentes da violência crescente são cotidianas e os rumos que o país pode tomar nos afligem, mas olhando para o lado, vemos a beleza do brilho das luzes do alvorecer, o canto dos pássaros saudando o novo dia, o barulho de chuva mansa caindo e o sorriso puro de uma criança ao encontrar o carinho de seus pais e avós. Haveremos de sentir ternura ao ouvir o murmúrio das águas de um regato debaixo de arvores frondosas, quando se ouvir uma canção e ao abrir um livro de poemas...
Apesar de tudo, penso que devemos acreditar na esperança de dias melhores. O amor e a ternura devem ser companheiros constantes. O firmamento sempre trará estrelas que nos oferecem brilho e poesia.
É tempo de Natal. Que agora e sempre, amor e a harmonia sejam o maior presente. Que apesar de momentos difíceis, a vida seja louvada pela dádiva que é.
Um feliz natal a todos. De esperança, amor, alegria e ternura! E claro, com poemas e canções!




sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

O MENINO DO VALE DE UM RIO QUE ERA DOCE




A manhã chegou diferente para aquele menino. Ele acordou estranhando e procurando a cama onde costumeiramente dormia, mas sentiu que estava em um local diferente. Procurou a cama ao lado da sua, onde dormia seu irmão mais velho, mas nada encontrou, percebeu apenas um amontoado de coisas. Não conseguiu entender o que era. Procurou ainda pela luz na janela que todos os dias vinha acorda-lo, mas viu apenas uma parede bege, fria e diferente.
Tentou reorganizar seus pensamentos e começou a se dar conta da tragédia que ocorrera no dia anterior. Lembrou o barulho forte, o cheiro acre da lama que descia no rumo de sua singela e humilde morada, onde vivia feliz com sua mãe, seu padrasto e seus irmãos e o momento em que nos braços da mãe, tiveram que correr em desespero para salvar suas vidas.
Lembrou onde brincava todos os dias e desenhava na areia fina, onde criava seus personagens, que viajavam nas estradinhas que construía para passar com o carrinho que ganhara ainda no natal anterior. E ele era cuidadoso com os brinquedos – poucos – que ganhava e que sempre eram seus companheiros durante todo o ano.
Dias antes da tragédia que se abateu sobre ele e sua família, pensara no que ganharia naquele natal. Via seu padrasto reclamar que as coisas estavam difíceis, que o pouco que ganhava mal dava para sustentar a família, no que era acompanhado por sua bondosa mamãe. Mãe que vivia trabalhando, que saía cedo em alguns dias da semana para “faxinar” as casas mais abastadas da vila. E ao fim da tarde, cansada, ia cuidar da pequena casa onde moravam, mas não sem antes pegar cada filho no colo e dividir seus beijos e carinhos. E o menino adorava sua mãe.
Lembrou que no natal anterior, umas pessoas diferentes e com ar bondoso estiveram em sua casa, onde deixaram alimentos e alguns brinquedos, dentre eles, o carrinho amarelo que tanto cuidava e com o qual brincava todos os dias.
E estava radiante, pois ouvira de sua mãe que no próximo ano iria para a escola da vila. Sonhava em estar naquela escola pintada de branco, com detalhes em azul, que tanto o encantava. Queria um dia estar ali. Tantas vezes perguntara à mãe quando é que poderia ir até aquele pátio, onde havia um frondoso flamboyant sob cuja sombra ficavam meninos e meninas, que fugiam do sol quente e ficavam a brincar. Passava ali diante da cerca do alambrado e se via debaixo daquela arvore, brincando, correndo... Sonhos de menino.
Ouviu vozes diferentes e voltou à realidade. Não estava em casa e de repente, viu sua mãe chegar amparada por pessoas que não conhecia. Ela tinha o semblante triste. Passou a noite toda em busca de saber noticias de seu padrasto e do irmão mais velho, que haviam desaparecido.
Sentiu ela abraça-lo forte e entendeu o motivo das copiosas lagrimas que derramava. Ouviu entre soluços, ela sussurrar: “meu filho, meu filho...”. E o menino também se emocionou e chorou abraçado à ela.
Vieram pessoas estranhas, um soldado com cara de assustado e os levou para uma grande mesa, onde havia muitas pessoas. Em silêncio, fizeram um lanche, tomaram um café diferente do que tomava todos os dias, como sua mãe colocava na mesa simples todos os dias.
Ouviu de algumas pessoas que não mais retornariam à suas casas. Elas não existiam mais, a pequena vila estava destruída.
A lama levara seu padrasto, um homem calado, mas bom e também seu irmão. Soube que estavam desaparecidos. Pouco entendia o que significava “desaparecido”, mas percebia que era motivo de tristeza.
Lembrou o terreiro onde fazia suas estradas imaginárias, do cãozinho “Muleque”, seu companheiro de alegrias, a casinha simples, a cama onde dormia, os brinquedos e as estradinhas de sonho, que ficaram para trás...
Onde outrora era o vale de um rio que fora doce, agora era retrato da destruição, de triste e amarga realidade. Realidade coberta pela lama...

E o menino sentiu que sonhar, de agora em diante, seria muito mais difícil.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

BALÉ DE SONHO, E FANTASIA




A cortina a abre e o palco, misterioso e encantador desnuda-se diante de uma plateia ansiosa pelo que há de vir. Luzes intensas de variadas cores e formatos ilustram o som da orquestra, que começa suave, tênue, para aos poucos, evoluir e se tornar forte, vigoroso.
Sutilmente, uma bailarina entra em cena, evolui ao compasso da orquestra que, regida por jovem e atento maestro, mostra a perfeita sintonia entre arranjos e movimentos.  A graça, a elegância, e o sorriso firme e verdadeiro em seu rosto vai encantando, tornando aquele momento, de muita técnica, dela e da orquestra, um suave e delicioso deslizar, qual voo de beija-flor...
Súbito a música muda e um grande número de bailarinos e bailarinas entram em cena. Uma musica alegre, misto de dança cigana e dança flamenca. A Espanha se faz presente. O vigor e a alegria dos movimentos são valorizados pela beleza do figurino que adorna corpos esculturais.
Na plateia, uma jovem senhora se emociona ao ver o sorriso das pequenas bailarinas, que ora sentadas, ou em movimento, parecem ninfas a cuidar da heroína da historia. Fica emocionada e sem que perceba, vai até a infância, ao seu tempo de criança e adolescente, quando no antigo cinema da pequena cidade onde morava, assistiu a um filme, em uma sessão de domingo, que contava a historia de uma bailarina. E a partir daí, sonhou um dia ser bailarina.
Eis que a jovem senhora se viu no palco, sob as luzes do espetáculo, acompanhada pelos bailarinos, recebendo a atenção dos acordes e arranjos da orquestra, que tocava para ela. Tocava canções que embalaram seus sonhos de menina-moça, sonhadora e ingênua.
A jovem senhora dançou e evoluiu naquele cenário de sonhos. Levitou e foi feliz naquela ilusão, ainda que por breves instantes.
Foi despertada do seu torpor, ainda com o sorriso de bailarina no rosto, pelas palmas e gritos de bravo, que ecoados da plateia atingiram seu coração.  Bateu palmas acompanhando a todos, mas sentia que os aplausos eram para ela. E o coração batia no ritmo daquelas palmas...
Era sonho, amor, lembranças. E saudade...
Ao voltar para casa, embora acompanhada de amigas, permaneceu calada, sob o efeito da emoção vivida há pouco.
Ao lembrar que o espetáculo permaneceria em cartaz por mais alguns dias, resolveu que viria novamente assisti-lo. Para na sua fantasia, entrar em cena, naquele palco dos sonhos guardados e acalentados na infância.
Dançaria acompanhada pelas ninfas, seria cortejada pelo seu par bailarino e acima de tudo, se emocionaria com as luzes, com os acordes da orquestra, com a magia das canções e com o aplauso da plateia.
Ao voltar para casa, desta vez sozinha, a jovem senhora se sentia novamente menina e agora bailarina. Foi feliz naqueles breves instantes de ilusão e fantasia. Aplaudida pela plateia dos sonhos.




domingo, 1 de novembro de 2015

A LEVEZA DO VIVER





Ao abrir a porta e caminhar em direção ao quintal, nos primeiros momentos da manhã, que ainda trazia vestígios da madrugada, de imediato senti o cheiro de terra molhada, de terra visitada e acariciada pela chuva da véspera.
As últimas e teimosas estrelas insistiam em permanecer no céu e os pássaros alegres e ruidosos abriam o concerto matinal com alegre sinfonia. Executavam sutil balé, em seu ir e vir de árvore em árvore. No chão, a leveza de claras e límpidas gotas de orvalho espalhadas sobre a relva que, após as primeiras chuvas, brotaram verdes e viçosas. O aroma de terra molhada permanecia. À medida que o sol aumentava sua presença com dourados e imponentes raios, o dia ficava mais bonito e encantador.
A chuva da véspera fora forte, acompanhada de ventos intensos e velozes. Os trovões e o clarão dos raios que riscavam o céu incessantemente me levaram à infância, me levaram ao medo que eu tinha quando, pelas frestas do telhado da pequena casa da fazenda acompanhava sua trajetória irregular.
Quietinho, deitado sob as cobertas e parte da cabeça coberta, deixava apenas os olhos, que, assustados se negavam a deixar de acompanhar a tempestade.
Em minha inocência de criança, ficava a imaginar qual seria o destino deles, para onde iam aqueles raios, tão rápidos, que sempre “andavam” à frente dos potentes e assustadores trovões. Para onde e porque sempre havia um barulho daqueles a persegui-los? Eram belos, mas traziam medo. Mas fascinava minha imaginação de criança.
Assim, a noite ia, a tempestade passava e eu adormecia. Ao levantar, antes mesmo de tomar o café da manhã, eu corria a ver o que a chuva deixara. Fitava os caminhos interessantes, desenhos feitos na areia, pela água que corria e deixava suas marcas. De longe, via que o ribeirão que servia a casa, onde eu e meu pai tomávamos banho ao entardecer, estava com suas águas caudalosas e turvas. Olhava no horizonte e percebia um sol tímido chegar.
Como na manhã de minha infância, eu também olhei, apesar do pequeno espaço do quintal, que a enxurrada deixara seus rastros. Faltou o pequeno ribeirão. Um alto muro impedia a visão de horizonte. Restara-me o caminho feito pelas águas e o canto dos pássaros, com o cheiro de terra que ali estava.
Sentindo as caricias da cadela Doth, que viera me saudar com sua alegria costumeira, me pus  a refletir. Refletir que a vida passa, o tempo passa, mas mantemos sempre no coração as coisas simples belas que tanto amamos e gostamos. Vão desde a lembrança do sorriso franco de criança pequena, do canto de pássaros a uma manhã com cheiro de terra molhada.
E o brilho do sol daquela manhã encheu de paz meu coração. Fui para a batalha diária da vida com a alma leve. E leve, como deve ser a vida. Cheia de paz e com esperanças renovadas a cada manhã. Até mesmo, em uma manhã como aquela, depois da tempestade.