segunda-feira, 6 de abril de 2020

EM TEMPO DE LÍDERES APEQUENADOS, O PODER SE AGIGANTA NAS MÃOS DOS MAUS






Na crise, quando líderes que deveriam ser grandes no aspecto de caráter, firmeza de decisões e capacidade de articulação, gestão e organização, se portam como meninos birrentos de escola, o mais imediato resultado é que adversários ou aliados fracos acabam se sobressaindo, mostrando aos poucos suas vontades, ambições e aspirações pessoais, crescendo à medida que o dito líder se diminui, se apequena.
É o que está acontecendo no Brasil hoje. O presidente Bolsonaro, que teve no pleito de  2018 o apoio de mais de 57 milhões de brasileiros que o elegeram, cansados da roubalheira, da pilhagem perpetrada contra a coisa pública, por uma poderosa e tentacular organização criminosa, segundo a PGR/MPF e a Polícia Federal, confirmada pelas instâncias da justiça brasileira, se mostra cada vez menor, mais incapaz, jogando para outros a responsabilidade de sua imensa incapacidade de governar, articular e acima de tudo, trabalhar para a solução dos grandes problemas nacionais, que apesar da urgência do combate e prevenção ao Covid-19, não acabaram. Até pelo contrário, se potencializaram. Estão apenas relegados a segundo plano nas matérias prioritárias dos informativos, pela força impiedosa do crescimento do Covid-19.
Um dos principais problemas do presidente, além das agressões a profissionais e veículos de comunicação, é o ciúme, que ao que parece, é alimentado e fomentado por seus filhos, que embora tenham cadeira em parlamentos, se arvoram em circular no gabinete da presidência, não perdendo uma só chance de estarem sob os holofotes.
Foi assim que, por esse ciúme, doentio até, geraram desnecessárias crises que quase afastaram o ministro Sérgio Moro, unanimidade nacional e um dos poucos do governo a manter popularidade e credibilidade.
E é o que acontece com o Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. Bastou, pelo seu cargo, ser figura proeminente no esclarecimento e nas ações de combate ao vírus, que o ciúme se generalizou e o presidente mostrando-se fraco, manda recados, lembrando a todo momento que “o presidente é ele”. Fraqueza, ciúme, insegurança e arrogância não são predicados de um estadista, que é o que o país precisa nesse momento. E o pior: passam os dias e o presidente da república dá sequência àquilo que se chama de “fritura” do ministro da saúde, algo já ocorrido em seu governo com os ministros Moro e Paulo Guedes.
E nesse vácuo, com constantes oscilações da popularidade e credibilidade – sempre para baixo - do presidente, surgem figuras como o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia e o presidente da suprema corte, ministro Dias Tóffoli, ambos em nada benquistos pelo povo brasileiro.
É interessante e até constrangedor a desenvoltura com que tentam ocupar espaços, aproveitando a ineficácia e pouca inteligência do governo. Maia, cuja alcunha na Lava Jato é "Botafogo",  conhecido de investigações da Polícia Federal e do Ministério Público, se notabilizou por procrastinar ou sequer colocar em pauta votações de temas importantes, que os brasileiros ansiavam, dentre elas o fim do foro privilegiado.
Aliado a um grupo denominado “Centrão”, que claramente trabalha contra o país e não tem nenhum compromisso com os anseios do brasileiro de bem, estão preocupados em somente garantir a impunidade e a certeza que o crime no Brasil, para certas organizações criminosas e seus figurões, a maioria da política, é algo vantajoso e cada vez mais distante das garras da justiça.
Maia, nascido no Chile, pouco se importa com o que os brasileiros pensam. Quer é, de uma maneira ou de outra, se garantir para os próximos anos, como líder de um grupo em uma casa de leis que cada vez mais, por sua atuação e da maioria de seus pares, cai no descrédito popular.
Em outra vertente, Tóffoli tenta se mostrar como conciliador, estadista e líder, mas se esquece que o povo está cansado das mordomias, atitudes e atos de ministros da suprema corte, que também está no limbo da aversão popular. Que o digam os mais de duzentos mil reais empenhados para os lanchinhos do ministro e seus convidados, a serem servidos a bordo dos jatinhos da FAB em suas inúmeras viagens, cujo ato só foi cancelado após ser amplamente divulgado pela imprensa. E mais recentemente, a censura à divulgação de agendas, viagens a possivelmente, atos de seus pares.
O fato é que preocupa e muito a situação pela qual passa o país. O presidente da república cada vez mais se apequena, aparentemente perdido, mal orientado, sem rumo e sem a menor noção da sua importância em um momento como este.
E pequenos e inexpressivos líderes tentam aparecer, dominar, ocupar espaços, mas pela própria natureza e falta de credibilidade, não conseguem. O problema é que, lembrando Rui Barbosa, de tanto insistirem, o poder venha a se agigantar nas mãos dos maus, ainda que pequenos e desprovidos do que o país precisa: além de caráter, honradez e idoneidade, capacidade de liderança e de conduzir bem nossos destinos rumo a um futuro melhor.
Salvo melhor juízo.

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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

UM JOGO PERIGOSO E INSENSATO






A Operação Lava Jato, desencadeada pela Policia Federal há alguns anos desnudou práticas que incluíam e sacramentavam a corrupção de agentes públicos e privados, levando ao conhecimento do cidadão um lamaçal que há décadas cobre o país, e de maneira ainda mais grave, tornando isso como “normal” e “parte do jogo”, no entender da maioria dos políticos.
Com as armas - ou a legislação - que dispunham, a Policia Federal, o Ministério Público Federal e Procuradoria da República promoveram verdadeira devassa em partidos políticos e líderes dessas agremiações, além de empresas que, para obter préstimos e benesses dos governantes, dividiam o quinhão, municiando com polpudos e generosos valores, oriundos claro, do pântano fétido da corrupção. Organizações políticas e suas cúpulas se tornaram, à luz da Policia Federal, do MPF e confirmado em todas as instâncias da justiça, organizações criminosas, cujo único fim era o de se manter no poder e se locupletarem indefinidamente.
A reação do povo brasileiro, com claras mostras de indignação e repulsa a essas práticas criminosas veio nas urnas, parcialmente. Afirmo parcialmente, pois elegeu um presidente da república que se apresentou com um discurso simples, de moralidade e cuidado com a coisa pública. Mas por outro lado, ainda elegeu para os parlamentos, apesar de uma certa renovação, políticos da velha guarda, ou da velha política, que ainda cultivam os hábitos nada republicanos “do toma-lá, dá cá”, ou “do é dando que se recebe”.
E prevaleceu o fato que toda ação gera uma reação. Os membros das organizações criminosas apesar do susto inicial e do baque que sofreram, procuraram se organizar, o que conseguiram rapidamente. E onde foi o local que mais se percebeu essa reação? No congresso nacional. Aquela que em tese deveria ser a “casa do povo”, estraçalhou e inverteu  projetos como “As dez medidas contra a corrupção”, aprovou leis, como a famigerada "lei do abuso de autoridade" que dificultam, constrangem e tentam engessar os atos de instituições constitucionalmente sólidas como o judiciário, o MP e as polícias, além de práticas condenáveis como uso irrestrito de jatinhos da FAB por parlamentares, procrastinação e engavetamento da votação e aprovação do projeto que prevê o fim do foro privilegiado para políticos e outros atos absurdos e que dificultam o combate à corrupção e beneficiam o crime organizado.
Em outro vértice da Praça dos Três Poderes, os atos e decisões do STF, que em tese deveria ser o guardião da constituição e não legislador, chocam a opinião pública e trazem total descrédito ao tribunal. Inquéritos ditos ilegais, decisões monocráticas que favorecem criminosos contumazes de colarinho branco, expedientes onde certo ministro diz que um cidadão, servidor público, não deve se dirigir a ele diretamente nivelam por baixo e tornam a suprema corte brasileira igual ou pior que o congresso nacional. Suprema corte que têm servidores para carregar guarda-chuvas abertos para as excelências, que exigem para seu prazer gastronômico lagostas e vinhos de safras especiais. Esquecem que são servidores públicos e o régio e amplo luxo que têm é pago com dinheiro do contribuinte.
Já no caso do Presidente da República, pouco ou nada afeito ao que se denomina “liturgia do cargo”, o estado é de beligerância constante, seja contra veículos de comunicação e seus servidores, jornalistas independentes, ou mesmo instituições que de uma maneira ou de outra, colaboram para o bem do país e do mundo. É fato que certas ONG’s precisam ser acompanhadas e até investigadas em sua atuação, pois ultrapassaram em muito suas atribuições e desrespeitam a soberania do país, embora não se deva generalizar.
Ainda sobre a presidência, a beligerância segue sua trilha através de atos, palavras e publicações em redes sociais dos filhos do presidente. Quem discorda ou não comunga do mesmo pensamento da trupe governista, é execrado publicamente – independente se é jornalista, parlamentar, membro do MP ou do judiciário ou mesmo um cidadão comum no uso de sua liberdade de expressão.
Por fim, um dos últimos absurdos do presidente Jair Bolsonaro foi no episódio da morte do miliciano e ex-militar Adriano da Nóbrega, foragido da justiça e procurado pela polícia, que através de suas declarações contra a ação da polícia da Bahia, fez o caso parar no âmbito da presidência da república. Totalmente descabida e fora dos padrões, a atitude foi considerada desnecessária e sem precedentes.
Outro fato que chama a atenção e preocupa é o presidente afirmar que, em reunião com entidades empresariais no estado de São Paulo – com cujo governador vive às turras – irá solicitar às empresas que fazem partes dessas associações não anunciem ou destinem verbas publicitárias a veículos de comunicação teoricamente “não simpáticos” ao governo federal. Esquece sua excelência que hoje, ele não governa e representa apenas os 57 milhões de eleitores que o elegeram, mas os mais de duzentos milhões de brasileiros. E em tempos bicudos, de alto desemprego, PIB mínimo e dificuldades imensas, se uma empresa anuncia é porque precisa melhorar suas vendas, e escolhe o veículo conforme orientação de uma agência e de seu departamento de marketing – não de políticos do momento.
O fato é que hoje, temos um congresso nacional e uma suprema corte fracos e desacreditados pela população brasileira e o instituto da presidência segue no mesmo caminho. Estão cada vez mais iguais e imersos no mesmo lamaçal, em um jogo perigoso e insensato, fomentado pelo presidente da república e seus apoiadores.
Sore as manifestações convocadas para o dia 15 de março, creio que haverá até muita gente nas ruas, mas limitado aos apoiadores do presidente. O cidadão de bem, que foi o fiel da balança que levou Jair Bolsonaro à vitória nas urnas em 2018, se manterá seguro, distante e quieto em casa, esperando que os poderes da república tomem juízo e ajam com parcimônia, competência, em defesa do interesse público e que busquem o fim da corrupção e o bem da nação.
Utópico isso? Entendo que sim. Mas, não resta outra alternativa.
Os poderes da república estão cada vez mais se apequenando e perdidos, longe da vocação para a qual foram criados.
Ainda assim, espera-se que o Brasil sempre seja maior que políticos e autoridades de ocasião.




quinta-feira, 14 de novembro de 2019

SÃO MIGUEL DO ARAGUAIA: 61 ANOS DE PROGRESSO




Imagem: Donizeth Alves



O comerciante Donizeth Alves aproveitava a sombra amiga das arvores em frente a sua farmácia, enquanto aguardava os clientes naquela manhã quente e ensolarada de 14 de novembro. Ali, ao lado de um exemplar do histórico e carregado de frutos Abricó de Macaco, conversava com o amigo César Sabino sobre o desfile ocorrido na véspera, em comemoração ao 61º aniversário da cidade.
E entre uma conversa e outra, diálogos com amigos através do aplicativo WhatsApp, onde o assunto principal era o aniversário da cidade, os pioneiros que construíram sua história e a tornaram uma das mais importantes e produtivas cidades do estado, onde a força maior vem do campo, através da agropecuária e do comércio, altamente desenvolvido.
Em grupos de aplicativo como “Os Miozin de SMA” começaram a circular informações, fotos e curiosidades da cidade, seu início e sobre os pioneiros José Pereira do Nascimento, Lozorik Belém, Ovídio Martins, Neca Sôffa e outros, que em qualquer época, colaboraram e trabalharam ativamente para que a cidade se tornasse progressista e desenvolvida, como hoje.
A velha árvore Abricó de Macaco, cientificamente conhecida como Couropita Guianensis, é uma das grandes testemunhas da história. A lado de outros exemplares da praça, está naquela esquina não se sabe há quanto anos, mas é certo que desde que as ruas não aram asfaltadas. Àquela época a praça era o único local de encontro da juventude local, onde ficavam os tradicionais pontos de comercio. Havia também o salão paroquial, mas as festas e encontros lá não eram rotineiros.
Na esquina da Rua Quatro, há anos está a agência do Banco do Brasil, ladeada pela Caixa Econômica Federal e o Banco Bradesco. Na praça, frente a essas instituições financeiras e também no infelizmente extinto Bar do Pimenta, ficava o ponto de encontro dos fazendeiros, negociantes de gado e prestadores de serviços, que em tempos sem celular, internet e de difícil comunicação, se mantinham informados sobre preços de terras, cotação da arroba de boi e outros assuntos importantes.
Em sentido inverso, o reformado e tradicional Hotel São Miguel, que já recebeu hóspedes ilustres e hoje, com instalações e fachada moderna apresenta conforto ao viajante.
Ao mostrar imagens de como era aquela parte da cidade, inegável recordar a Casa Amazonas, que vendia móveis e eletrodomésticos, ao lado da Farmácia do Sr. Sebastião. Um pouco mais perto da praça, o local onde por anos funcionou a loja de tecidos do Sr. Irineu Ribeiro. E na esquina, o local onde foi o Armazém Tiradentes, depois agencia bancária do extinto Bamerindus, depois HSBC e hoje, uma loja de tecidos.
A farmácia do Donizete fica em um local onde durante anos existiu uma selaria, fábrica artesanal de equipamentos de montaria. Ao lado, na Rua Cinco e frente a à praça, havia uma oficina de bicicleta.
A Rua Cinco sempre foi uma das mais importantes da cidade. Ali, frente a praça havia a Xuá, local onde a juventude se divertia nas noites, com música ao vivo e dançante. Destaque para o proprietário Silvio que contratava conjuntos musicais da região, ou mesmo, o tradicional conjunto do João de Deus, conhecido como Tropa Santa. Mais acima, havia a lotérica, algumas óticas e na equina com a Avenida Mato Grosso, a tradicional Móveis Javaé. Indo além, o escritório de contabilidade do Moura, a eletrônica do pai do Valdi Macário e a Igreja Assembleia de Deus na esquina com a Avenida Minas Gerais.
A rua seguia e bem no alto, havia o Bar Oriente e após a serraria do pai do Cireneu Cirqueira, o campo do Raizão, então de terra e cercado por arame liso. Ali, nas tardes de domingo, boa parte da cidade se encontrava, quando haviam disputadas partidas de futebol. Nomes como João Cozinheiro, Orcino da Oficina, Dito da Cerâmica e Juvenal da Prefeitura eram os “dirigentes” das equipes de futebol.
Hoje, debaixo do velho e carregado Abricó, Donizete recorda quando chegou à cidade, nos anos 1970, indo trabalhar na farmácia do Sr. Jairo, a quem carinhosamente passou a chamar de Tio.
O fato é que a pequena São Miguel de ruas de terra e poeira está apenas nas imagens e nas recordações de seus moradores mais antigos. A cidade hoje é pujante, desenvolvimentista e economicamente muito rica.
Apesar das intempéries da política, continua firme em seu caminho de progresso, face à coragem e empreendedorismo de seus moradores, seja da cidade ou do campo.
Á distância, com saudade, me resta dizer: parabéns, São Miguel do Araguaia. Parabéns, cidade querida.

  
Foto: Donizeth Alves

Imagem: internet

Imagem: internet





sábado, 27 de julho de 2019

FINAL DE JULHO, EM UMA MANHÃ ENCANTADA








A carinha triste do pequeno Gabriel ao se postar na cadeirinha do carro para que, em segurança, juntamente com os pais e o irmãozinho Daniel, acessassem a estrada que os traria de volta para casa deu bem a noção do que foram os três dias de estada na Fazenda do Tio João, aproveitando os últimos momentos das férias de julho.
Afinal, nesses três dias ele, o irmãozinho Daniel (ainda bebê, de quatro meses), os pais, avós maternos, tios e primos desfrutaram da harmonia da fazenda, vivendo a alegria do encontro e a boa convivência junto à natureza propiciada pelo ambiente rural.
Ali o pequeno Gabriel pôde acompanhar seu avô no curral onde as vacas eram ordenhadas pelo experiente e simpático Sr. Eurípedes, andou acompanhado pelo pai e pelos tios nos diversos ambientes do amplo quintal, foi até o pequeno riacho onde molhou os pés na agua límpida e fria, andou ao lado do priminho Douglas no carrinho de mão pilotado pelo avô e “ajudou” a trazer a lenha que seria utilizada no fogão caipira onde seriam feitas as guloseimas que ele tanto adora.
Mas o que o pequeno Gabriel curtiu mesmo foram dois momentos desse passeio: o primeiro, quando supervisionado e cuidadosamente acompanhado pela avó mexeu o doce de leite que estava sendo feito no antigo e cheio de histórias tacho de cobre. Ele acompanhou cada momento do processo desde a colocação do leite e do açúcar até notar que ele aos poucos ia mudando de cor, até tornar-se firme e pronto para o consumo. Impossível não dizer de sua alegria quando após o doce ser colocado nas vasilhas para ser distribuído, ao lado dos adultos que ali estavam participou da tradicional “rapa do tacho”.
Outro momento foi quando já perto da hora de vir embora ele finalmente conseguiu soltar pipa. Interessante que desde que chegou ele vinha pedindo ao pai e ao avô que fossem soltar pipa com ele, porém haviam outros afazeres “importantes” e somente no domingo encontraram tempo para atender ao seu pedido.
No início a pipa não subia corretamente. Assim que ganhava altura começava a girar de maneira intensa e rapidamente batia no chão. Mas ajudado por Oziel, um jovem trabalhador da fazenda, que paciente e cuidadosamente detectou o problema construindo uma nova cauda - ou rabiola, como chamam popularmente - para a “raia” e sem muita demora, após essa mudança conceitual no projeto, Gabriel encantado e com um sorriso no rosto viu sua pipa ganhar o céu límpido e claro da fazenda, naquela manhã bela de final de julho.
Ajudado pelo pai, assim que ela ganhou altura ele passou a comandar os movimentos que mantinham o brinquedo nos céus – agora, um pequeno ponto no firmamento.
Aos poucos aquele brinquedo foi ficando monótono e Gabriel logo partiu para outras atividades lúdicas, como verificar como estavam os pequenos peixes no tanque onde as vacas bebem agua e saber o que faziam ali as galinhas com seus inúmeros pintinhos.
Mas chegou a hora de voltar para sua casa e eu também fiquei triste com a despedida do pequeno Gabriel. Para mim também era hora de arrumar minhas coisas e ao lado da esposa, pegar a estrada de volta para casa.
Desses dias, maravilhosos e intensos ao lado do pequeno Gabriel, fica uma certeza: cada vez mais ficam fortalecidos os nossos laços de amor e amizade. E o melhor é lembrar que logo o pequeno Daniel estará junto conosco a correr e a brincar, nas travessuras tão comuns às crianças. E dessa vez acompanhados pelos avós, que de certa maneira, voltam também a ser crianças.





sexta-feira, 14 de junho de 2019

DO AMOR NOSSO DE CADA DIA





Em noite de alegria e confraternização, o pequeno e irrequieto Gabriel surpreende ao me chamar para ver as estrelas e procurar a lua. Pede que apague as luzes da varanda para que assim possamos enxergá-las melhor.
Sentados cada um em sua cadeira de fios, buscamos o firmamento e ele se diverte muito, encontrando a lua em um belo quarto-crescente, além das estrelas e nuvens oportunistas que ornamentavam o céu naquela noite de alegrias. Logo, busquei o violão e naquele cenário passamos a cantar nossas canções, prometendo para breve, compor uma canção de ninar para o pequeno Daniel.
Assim, entre noites calmas e tranquilas, onde podemos ainda ver o céu e as estrelas, observadas pela lua crescente, manhãs amenas e repletas de luz do outono, ou mesmo nas brincadeiras na areia do majestoso parque que fica próximo à minha casa, vamos levando a vida, sempre colocando em primeiro lugar nossa amizade, nosso amor e com a promessa de que seremos sempre amigos. Amigos para sempre!
Aliás, essa frase – amigos para sempre – me leva ao tempo em que minhas filhas eram pequenas como o menino Gabriel, quando sempre estávamos juntos, seja nas viagens que fazíamos ao interior do estado a bordo do poderoso Fusca 1600, ou quando mudamos para a recém construída casa, onde moro até hoje, entre o plantio da horta no quintal e as brincadeiras com a cadela Juma e o esperto e inquieto cãozinho Piteco, animais dóceis e amigos, que ficaram marcados na nossa saudade.
Hoje a infância e os relacionamentos entre pais, filhos e avós incluem algo que não havia no passado: as coloridas, elegantes e quase sempre obrigatórias telas de tecnologia touch screen, que trazem para a palma da mão o mundo em todas as suas vertentes. Boas ou ruins.
Essas telas substituíram muitos hábitos bons que antes eram comuns e aprazíveis. O bom dia era frente a frente, agora é virtual. As conversas e diálogos entre vizinhos foram substituídas pelos famosos “grupos” de aplicativos e aquela ligação para saber como estão os amigos e pessoas queridas, foi substituída por algumas palavras, quando não por intermináveis mensagens de vídeos, que dificilmente se consegue ver até o fim face à obviedade dos temas que trazem.
Evidentemente que não sou contra a tecnologia e o conforto e economia que trazem. É preciso dizer que utilizo muito – e bem – as maravilhas que a modernidade oferece. Mas por outro lado continuo a dar valor às coisas simples e belas da vida que estão aí, bem a nossa frente, pedindo para serem vistas.
Jamais deixarei de admirar as belezas de uma manhã – seja de benfazeja chuva ou de sol brilhante como as deste mês de junho. Jamais deixarei de apreciar o céu, a lua e as estrelas em noite calma na companhia do menino Gabriel ou perceber o milagre da vida acontecer, quando notamos o germinar das sementes que plantamos nos canteiros do quintal, que logo se transformam em pequenas e tenras plantinhas verdes e seguindo o fluxo normal, se tornam alimento sadio, sem agrotóxico algum.
Como é bom receber a visita de pequenos e ariscos pássaros, que do alto da goiabeira mandam seu canto, tornando o dia poético e encantado.
Tudo isso é amor, que se passa de pai para filhos e também para netos. Ao ver poesia em coisas pequenas e simples a transformamos em amor, que nunca será substituído por tela ou equipamento de alta tecnologia.
Assim sendo, apesar das dificuldades do cotidiano, vamos vivendo felizes o poema da vida. Da vida, do amor... Do amor nosso de cada dia!


sexta-feira, 31 de maio de 2019

LUTAMOS POR LIBERDADE E DEMOCRACIA! NÃO POR MADRAÇAIS!



Imagem retirada da internet


Sou de uma geração que viveu momentos da história do país em que as eleições não eram gerais e haviam senadores, prefeitos de capitais e governadores nomeados e o presidente da república era escolhido por um colégio eleitoral formado por deputados e senadores, a grande maioria do partido político da situação, chamado Arena. Era o tempo de bipartidarismo e a oposição se chamava MDB – não confundir com o atual, de Lobão, Jucá e similares.
Sou de uma geração que foi às ruas pedir eleições “diretas já” e viu Tancredo Neves ser eleito indiretamente, para na madrugada do dia de sua posse ser internado, vindo depois a falecer. Vimos José Sarney assumir a presidência, convivemos com inflação galopante de 84% ao mês e vibramos com a promulgação da constituição cidadã, hoje esfarrapada e vilipendiada.
Minha geração viu depois de muito tempo, um jovem político nordestino ser eleito presidente da república pelo voto direto, mas não demorou viu a juventude com a cara pintada de verde e amarelo ir às ruas gritar “Fora Collor” e pedir pelo seu impeachment.
Minha geração viu um plano econômico dar certo, depois de tantos que deram errado, acostumou-se a eleger pelo voto direto seus representantes nos parlamentos e no executivo. Viu Itamar Franco passar a faixa presidencial a seu sucessor, o ex-ministro FHC, que hoje no doce exilio de um apartamento milionário em Paris se dedica a dar pitacos errados sobre o Brasil, além de defender pelas redes sociais a liberação das drogas que aniquilam nossos jovens.
Minha geração viu um ex-operário ser eleito presidente, aproveitando os rumos certos da economia vigente, o que levou o país a um tempo de crescimento. Mas em razão da corrupção generalizada que ele e seu grupo aperfeiçoaram, o Brasil foi à bancarrota e hoje temos milhões de desempregados e subempregados.
Sou de uma geração que em junho de 2013 foi às ruas em todos os estados do Brasil protestando contra aumentos abusivos nas tarifas do transporte coletivo – movimento que começou em Goiânia – e se tornou protesto contra a corrupção e em apoio à Policia Federal e ao poder judiciário. Eram os tempos do mensalão...
Presenciamos a ex-presidente Dilma ser cassada e logo depois, o mesmo deputado que comandou o ato político que a retirou do poder ser cassado, condenado e preso por corrupção.
Em 2018 o país elegeu presidente da república Jair Bolsonaro, ex-deputado, capitão da reserva do exército brasileiro. Porém para nossa tristeza, até o momento ele ainda não se deu conta do significado de sua eleição, tampouco dos motivos que levaram o povo brasileiro a escolher seu nome para gerir os destinos do país por quatro anos.
À época das eleições, Bolsonaro não era o melhor quadro que se apresentava, mas o eleitor percebeu que seria o único capaz de agregar forças políticas e derrotar uma bilionária organização criminosa. Sem surpresa, deu a ele pelas urnas o mandato de presidente da república, com expressiva renovação na câmara dos deputados e no senado federal.
O presidente monta seu governo e como ele mesmo admitiu, com figuras inexpressivas. O primeiro ministro da educação, Vélez, o breve, foi indicado por um certo astrólogo, vidente ou sei lá o quê, e rapidamente teve confirmada sua inapetência total para o cargo. Sai Velez e veio outro, com fama de durão, prometendo enquadrar os servidores públicos de sua pasta, bem como os alunos das universidades e institutos federais país afora.
Novamente, a juventude, os estudantes vão às ruas contra atos do governo que podem inviabilizar a educação, e eis que o ministro ataca e denigre a imagem desses estudantes e professores que democrática e legalmente exercem seu direito a protestar contra o que acham estar errado.
Curiosamente, o ministro da educação disse ter recebido cartas (cartas?) de cidadãos indignados com a atitude dos jovens e de professores. Será que houve tempo para serem postadas, encaminhadas e entregues pelos correios? E em tempos de e-mails e WhatsApp, ainda há quem escreva cartas? Aliás, o presidente recentemente mandou uma carta ao congresso... Mas isso é para outra análise.
E sobre as críticas do mal-educado, incompetente e provavelmente futuro ex-ministro da educação, ele há de convir que tem que se submeter às leis vigentes do país, onde a liberdade de expressão e de livre manifestação ainda estão na constituição.
E a minha geração que lutou por democracia e liberdade, bem como a que aí está, não admitem que as universidades se transformem em madraçais do pensamento um grupo político instável e desorientado.
Evolução na educação, sim! Liberdade e democracia, sim! Madraçais, jamais.

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domingo, 12 de maio de 2019

EM TARDE DE CHUVA, LEMBRANÇAS E SAUDADE




A chuva veio de repente com pingos fortes e frios, quando eu aguardava que minha irmã Fatima ouvisse a campainha e abrisse o portão, para que eu adentrasse sua casa. Após a alegria do reencontro, explicitado em um abraço de irmão, casualmente colocamo-nos na janela, diante da floreira recém instalada no muro de onde pendiam orquídeas, begônias, e outras espécies de flores de uma beleza ímpar, que pareciam agradecer àquela chuva benfazeja.
Contemplando aquela beleza, começamos a conversar sobre a vida, sobre a infância na querida e saudosa Fazenda Nova América e também na longínqua Araguaçu, com seus personagens marcantes que faziam acontecer a vida naquela pequena comunidade.
Recordamos os vizinhos da fazenda, como Seu Zeca Silvino e a esposa Dona Terezinha, compadres dos meus pais. Seu Zeca tinha como característica marcante sua gargalhada forte e seu jeito bonachão e Dona Terezinha, sua delicadeza e suavidade na voz, e que sempre usava roupas da cor branca, certamente por algum voto ou mesmo por razões particulares.
Impossível não lembrar de “Sibila”, cujo nome de batismo era Severino e sua esposa Dona Mariana com sua prole imensa e alegre. Sibila, homem trabalhador das lides da roça, era pura alegria e bom humor.
A casa do meu avô não poderia deixar de estar nesse bate papo da janela. Lembramos da doçura que era a figura de minha avó Genoveva, humilde, generosa, cujas feições traziam paz e harmonia. No interior da casa, as imensas talhas cheias de água que ficavam na sala de jantar, o rádio na sala principal e os hábitos peculiares, como o jantar sempre às cinco da tarde.
Houve um tempo em que fomos morar em Araguaçu para que minhas irmãs estudassem. Morávamos em uma casa simples de tijolos aparentes que ficava em uma grande avenida, cujo destino era a saída em direção aos povoados de “Feijão Queimado” e “Patrimônio dos Mineiros”.
Tenho nos recônditos algumas lembranças dessa casa. Uma delas era quando passavam pela avenida grandes boiadas. Minha mãe fechava as portas, colocando nelas o “Agnus Dei”, invocando proteção divina para que nenhuma rês revôlta viesse a nos atacar. Assim, era expressamente proibido conversar alto, para que não corrêssemos risco.
Nos fundos dessa casa avistávamos um imenso campo de futebol e o grupo escolar, onde estudavam a maioria dos jovens da pequena cidade. Era nesse local que aconteciam as representações em comemoração ao sete de setembro, quando homens montados a cavalo reproduziam o grito de “independência ou morte”, que segundo a história foi bradado o por Dom Pedro I.
Saindo dessa casa e adentrando a avenida à esquerda iriamos encontrar o posto de saúde, onde a diligente Dona Iara atendia a todos que ali buscavam cura para seus males. Ainda lembro da figura ímpar de Dona Iara, de roupa branca e com uma seringa de injeção vindo para o meu lado e dizendo que não doeria, que seria rápido.
Em sentido inverso encontrávamos a praça da cidade, que abrigava uma pequena igreja ao centro, onde um dia foi ordenado padre meu primo Eduardo Alencar Lustosa.
Nas imediações dessa praça ficava a casa do Velho Gil, onde funcionava a agencia dos Correios, comandada por Lívia, uma de suas filhas. Quase ao lado, a loja de tecidos de Seu Mundico e dona Helena, pais do Padre Eduardo e do Fausto. Também ali perto a casa e o consultório de João Dentista e o armazém do Felão - um baiano alto, de voz forte e olhar direto. Ainda na praça e do outro lado, o armazém do Sr. Jovino, que tinha uma geladeira “a querosene” branquinha, Frigidaire, onde dentre outras coisas ele vendia “picolés de Ki-suco” feitos ali mesmo.
Mais abaixo, a farmácia do Zé Silva, a papelaria do Romildo e da Není, com seu aroma característico e na parte baixa da praça um posto de combustíveis e ao lado o armazém do Sr. Raul e de Dona Rica (pronuncia-se puxando o r, como ere), pais do hoje político Raul Filho, que foi prefeito de Araguaçu, de Palmas e também deputado estadual. Um detalhe: Dona “Rica” foi minha mãe de leite, e sempre teve um carinho especial por mim, tratando-me por “meu filho”.
Quase na saída que dava acesso à fazenda de meu avô e á querida Nova América, a pensão de Dona Altina e o armazém do Zé Crispim, de onde tenho a lembrança de ver seu filho João Crispim varrendo a frente, em uma manhã qualquer. E algo que muito me encantava, um dos símbolos da cidade que era avistado de longe: um cata-vento sobre uma torre, que movimentava uma bomba de puxar água, instalado na propriedade de Seu Terto, ou Tertuliano Corado Lustosa, prefeito por várias vezes da cidade.
E mais à frente, a chácara dos meus primos Zé Gonçalves e Francisquinha, com um córrego que corria bem próximo à casa, onde havia uma varanda onde a figura proeminente era um alegre rádio Abc – A voz de ouro.
Em seguida, chegava-se à estrada de rodagem, onde ao percorrer alguns quilômetros se avistavam imensas e talvez centenárias mangueiras da fazenda do Chiquinho Chaveiro, o que indicava que estávamos próximos ao local do acesso a estradinha que dava acesso à Fazenda Nova América.
O tempo passou tão rápido que ao despedir de minha irmã, acabei esquecendo o motivo principal pelo qual fora até ali. Afinal, foi emocionante naquela tarde de chuva, diante de flores tão belas, recordar momentos da vida, da infância, em doce saudade. Em doce saudade!