sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

SENDAS DO VERBO - III - SOZINHO

 


Os dias passavam e nada de Dé aparecer. Também não soube peo pai nenhuma notícia dos irmãos que foram com os homens, ou mesmo Tiquinho, que ficara na festa de folia e de lá, seguira com aquele casal estranho.

Teve vontade de perguntar ao pai para onde foram os irmãos, mas sentia medo. E mais medo sentia quando o pai saía para trabalhar e o deixava dentro de casa, ordenando que só saísse em caso de extrema necessidade, seja para urinar, ou mesmo outras situações. E se chegasse alguém, nada de responder ou de abrir a porta.

No começo, Quinzin passava a maior parte do tempo deitado na pequena esteira. Aos poucos, foi se acostumando à nova situação e passou a brincar nos outros cômodos da casa. Só não entrava no quarto do pai, pois tinha medo que ele brigasse ou batesse, por querer saber o que havia lá.

Um dia o pai trouxe um pequeno porquinho e disse que, como ele já era grande o suficiente, precisava ajudar em alguma coisa.  Dali em diante cuidaria de dar milho e colocar água para as galinhas e para o pequeno leitão. E aos poucos iria ensiná-lo a cozinhar. Não precisava sentir medo, pois onde moravam era lugar seguro.

Aos poucos foi adquirindo confiança. O pai o ensinou a cozinhar feijão, colocando no fogo baixo, em brasa e sem labaredas, renovando a água sempre.

Quinzin estabeleceu uma rotina mais ou menos organizada. De manhã, tomava sua merenda, sempre com leite que o pai trazia da sede da fazenda, e cuscuz ou beiju. Às vezes tinha rapadura e tapioca.

E assim que o pai saía, ele se punha a cuidar das obrigações. Dava milho para as galinhas, se divertindo com o movimento dos espertos pintinhos e admirando a multiplicidade de cores que cobriam as penas. Repunha a água e colocava restos de comida que o pai trazia para o porquinho no chiqueiro.

Todos os dias cumpria aquela rotina. Começou a notar que cada vez mais os animais se acostumavam à sua presença. O porquinho, assim que ele se aproximava fazia um barulho intenso, mal esperando que ele derramasse a comida, ou lavagem, como o pai chamava, sobre o cocho. E ele deixava-se ficar um certo tempo ali, vendo o animal comer e olhar para ele, como a pedir mais comida. Depois, ia para o riacho, na verdade, um filete de água com uma pequena bica que caia em um poço raso onde inúmeros pequenos peixes que ficavam para lá e para cá.

Divertia-se quando começava a limpar as panelas e os peixinhos se aglomeravam. Eram pequenos e prateados, que sob a luz do sol pareciam mais bonitos ainda. E Quinzin se encantava com aquele ir e vir dos pequenos seres.

De início, fugiam dele, mas aos poucos se acostumaram e vinham em número cada vez maior para usufruir as migalhas que vinham nas panelas eu lavava. Era seu momento mais feliz do dia. Por horas ficava ainda a lembrar os movimentos deles na água.

Apressava-se em voltar. Tinha que cozinhar feijão e era preciso ficar atento e ter cuidado. Se deixasse queimar, a surra era certa. Para evitar que acontecesse, ficava o tempo todo por perto do fogão até que os grãos estivessem amolecidos. No início, tinha medo de se queimar e dificuldade em tirar a panela do fogo, mas aos poucos se acostumou e conseguia mais facilmente movê-la para fora da chapa.

Uma manhã de domingo o pai falou que iria levá-lo à vila. Quinzin, apesar de desconfiado, se animou. Não tinha em sua lembrança de criança uma ida à vila, mas pelo que seus irmãos falavam, era um lugar interessante.

Após merendar e cuidar dos animais, tomaram banho no riacho, trocaram de roupas e se puseram a caminho do vilarejo. Caminharam por cerca de uma hora por ruma estrada larga. Finalmente, após uma curva avistaram ranchos cobertos de palha e alguns poucos telhados vermelhos. Era ali a vila.

Ouviu do pai a recomendação que não saísse de perto dele em momento algum, que não dirigisse a palavra a pessoas estranhas e não pedisse nada a ele ou a quem quer que seja. O menino ouviu calado, olhar baixo, sabendo que deveria ficar atento e cumprir rigorosamente o que o pai dizia. Se não fizesse assim, correria dois riscos: o primeiro, de não mais acompanhá-lo e o segundo, o pior: levar uma surra.

Foram até um armazém, onde o pai encomendou mantimentos, dizendo que pegaria mais tarde. Ali, viu algo que o encantou: uma espécie de bolas de vidro, cheias de balinhas coloridas. Ficou olhando e mais feliz ainda quando o pai encheu a mão de algumas e o entregou. Ele não tinha muito costume com balinhas. Lembrava que Tiquinho ou Dé vez em quando traziam para ele. Tirou a casca que a envolvia e levou a boca, sentindo uma alegria imensa ao degustar e sentir o doce.

Passaram em outros locais e depois foram a um lugar esquisito, nos arredores do pequeno arraial onde vários homens bebiam e falavam alto na companhia de mulheres em trajes curtos. Notou a presença dominante de uma senhora atrás de um balcão encardido, com o rosto exageradamente pintado e grandes brincos pendurados na orelha.

O pai mandou que ele ficasse sentado em um banco de madeira na entrada e se aproximou do balcão, sendo atendido pela mulher. Pediu algo, que ela colocou em um copo e entregou a ele que levando à boca, bebeu de uma só vez, fazendo uma careta horrenda. Parecia não estar bom, mas o semblante do pai mudou, demonstrando que aquilo lhe fizera bem. Pediu outra e mais outra, repetindo a careta e dando a impressão que era algo ruim.

Enquanto bebia aquilo, levava uma animada conversa com a senhora, que vez em quando olhava de soslaio para ele. A mulher ria alto e Quinzin percebeu que os dois pareciam ser bem conhecidos. Passados alguns instantes, o pai veio até ele e disse que precisava resolver um pequeno problema e que não saísse dali de jeito algum.

Trouxe um pedaço de carne em um prato pequeno e uma bebida escura, que soltava bolinhas. Quinzin ficou ali, absorto, olhando as bolinhas no copo, até que resolveu beber. Tinha um gosto bom, doce, mas era estranho. Aos poucos foi bebendo, se acostumando com aquele sabor até então desconhecido.

Viu que alguns homens olhavam para ele e riam. Ele se arriscou a soltar um sorriso em retribuição, tímido, é certo, mas franco.

Passado algum tempo viu o pai sair de dentro da casa acompanhado da senhora que estava no balcão. Tomou outro gole daquela bebida estranha, fazendo a mesma careta de sempre e enfiou a mão bolso, tirou algumas notas de dinheiro e entregou a ela, que disse para voltar sempre.

Virou-se para o menino e retornando ao semblante habitual, disse:

— Vamos, moleque.

Quinzin seguiu o pai. Viu que ele estava mais rápido e até mais animado.  Sentiu sede, talvez por causa das balinhas e da bebida que tomou. Pediu água ao pai que apenas o ouviu e nada disse.

Caminharam até o grande armazém onde pegaram os mantimentos previamente encomendados e se puseram a caminho da simples e pequena morada. Recebeu um pequeno pacote com algumas coisas que de início lhe pareceram leves, mas que logo começam a pesar.

Sentiu que o pai não o daria para os outros, pois precisava dele. E teve a sensação e a certeza dentro de si que dificilmente reencontraria os irmãos.

Em seu pequeno coração de criança, dolorido e magoado, tinha imensas dúvidas e incertezas. Afinal, o que seria dele? Teria que fazer aquele caminho todos os domingos com o pai? Talvez preferisse ficar em casa, com seus peixinhos na bica d’água, ou com os passarinhos que vinham todos os dias acordá-lo pela manhã.

Recordou os momentos que vivera e das coisas novas que viu, como a bebida de cor escura que o pai lhe dera, as balinhas retiradas daquele monte de potes que giravam, a alegria dos homens daquele lugar estranho... Talvez tivesse se divertido mais com as bolinhas que se formavam no copo que com o sabor. Mas de qualquer forma era gostoso, refrescante e ele nunca provara nada igual. Na festa de folia chegou a ver ao longe algumas garrafinhas como aquela, mas não era para ele ou seus irmãos, conforme dissera o pai.

O sol do meio do dia começou a incomodar e o pai andava em um ritmo mais forte do que ele. As vezes o pai parava, mostrando inquietação e ele tentava apertar o passo. Começou a sentir mais sede e agora, fome. Mas manteve-se firme, vez em quando, quando o pai parava, olhava para ele com a expressão ruim, dizendo algo: “Anda, moleque. Deixa de ser mole!”.

Naquele momento, apertava o passo, apesar das pernas trêmulas e do medo que sentia. Tinha medo sim do pai, e queria que chegassem logo em casa.

Finalmente, chegaram ao colchete que dava acesso à estradinha e mais algumas centenas de metros de caminhada estariam em casa, para alívio do menino.

Tinha sede, fome e sentia dores nos pés, resultado da longa caminhada. Foi com alívio que chegou à porta de casa, e ao adentraram, correu para o pote de água, de onde tirou uma caneca e bebeu sofregamente. Percebeu que o pai estava atrás dele e esperou um tapa, mas isso não aconteceu. Por incrível que pareça, ele estava calmo e aparentemente amistoso.

Enquanto o pai preparava o almoço, acrescido de pedaços de carne que comprara na vila, Quinzin foi ao quintal com a desculpa de buscar água e ver como estavam as galinhas e porcos. Felizmente estava tudo em ordem, no mesmo lugar, sem novidades. Os peixinhos para lá e para cá no riacho, as galinhas com seus pintinhos aproveitando as sombras e protegendo do calor e do sol forte, e o porquinho, que ao sentir sua presença, emitiu sons característicos, como a pedir comida, ainda que não fosse hora.

Voltou para casa e institivamente, olhou em direção da mata onde vira a silhueta de seu irmão Dé pela última vez. Sentiu um nó pesado e forte na garganta e não se contendo, deixou-se quedar ao chão quente do trieiro e chorou, derramou copiosas lágrimas. Um choro sentido, represado de muitos dias. Chorou de saudade da mãe, dos irmãos que se foram e das incertezas que tomavam conta de seu coração. Não precisou quanto tempo ficou ali, mas aos poucos foi se recompondo e a realidade se fez presente.

Com dificuldade, pegou o pequeno balde onde levava água e seguiu em direção à casa. Ao chegar, o pai terminava o almoço que trazia uma novidade, que ele não lembrava do que era. Achou o nome estranho, engraçado até: macarrão.

E como estava com muita fome, pegou o velho e furado prato de esmalte que costumeiramente usava e serviu-se de uma porção de carne de porco, feijão, farinha de mandioca e o dito macarrão. Esperou esfriar um pouco e começou a almoçar. Primeiro pegou um naco de carne, o que mais gostava, depois uma colherada de feijão e finalmente, colocou na boca aqueles fios amarelados, que o pai elogiara. Não era de todo ruim, mas também não era essa coisa toda. Mas comeu calado, matando a fome que sentia.

O restante da tarde foi como os outros dias, diferente apenas pela presença do pai. Ora se deitava na esteira, ora ia até a biquinha ver os peixinhos espertos e coloridos, ora sentava no tronco que ficava nos fundos da casa.

Já no fim da tarde, ouviu o som de tropel de cavalos. Correu e viu surgirem dois homens a cavalo, um deles com uma caixa nas mãos. O pai foi ver quem era e ao reconhecer os cavaleiros, clareou o semblante antes sério e franzido.

Os homens não quiseram descer, apenas entregaram ao pai uma caixa. O outro, apontando para Quinzin, disse dando risadas que, “se ele quisesse, levava também o pequeno”, ao que o pai acenou negativamente com a cabeça. Rápido como chegaram, viraram os animais em direção à estrada por onde vieram, deixando atrás de si os rastros seguidos de uma nuvem de poeira.

O pai, parecendo criança que se encanta quando ganha brinquedo novo, levou para dentro de casa a caixa e com muito cuidado, sobre o jirau, começou a tirar os papeis que a envolviam e logo surgiu algo que para Quinzin parecia novo, desconhecido. Lembrou de ter visto algo semelhante na sede da fazenda do Sr. Jessé, quando foram à festa da Folia.

Era uma caixa de madeira bonita e brilhante, tendo ao lado pequenos cilindros de cores alegres, que o pai prendeu dentro da grande caixa. Ao ver que Quinzin observava atentamente, disse:

— Isto é um rádio. E você nunca coloque a mão, somente eu posso mexer.

Continuou a observar o trabalho do pai e tomou um susto quando ele mexeu em um dos botões e após um estalo, ele ouviu um chiado forte, seguido da voz alta de um homem. Viu o pai mexer em outro botão e ouviu a voz de uma mulher que cantava. Lembrou imediatamente da mãe, que entoava canções para que ele e os irmãos dormissem, mas aquele canto era diferente, havia toques que ele não conhecia.

Era a primeira vez que via um rádio de perto e sentiu que a partir daquele momento se apaixonaria pelos sons e pela alegria que aquela caixinha trazia. Em sua cabeça de criança, tímido e calado que era, tentava imaginar como caberiam em espaço tão pequeno homens e mulheres, até crianças que falavam, cantavam, cada vez de uma maneira diferente.

Quem sabe seus irmãos foram encantados e estariam ali, pequeninos, de volta para cantarem para ele?

Após “fazer o rádio falar”, foi a vez de instalar a antena externa, formada por fios finos ligados no rádio. O pai disse com olhar sério e duro, que os pequenos seres dentro daquela caixa iriam vigiá-lo e que se ele mexesse, contariam para ele. Como sempre, ouviu calado e apenas movimentou a cabeça em sinal afirmativo.

Deitado na pequena esteira onde dormia, ouviu o som até mais tarde quando o pai finalmente desligou o aparelho e foi dormir. Ainda ficou olhando o brilho das estrelas e o clarão da lua que passavam pelas frestas e buracos do telhado. Adormeceu com um sorriso nos lábios e sonhou com a mãe, que cantava canções de ninar para ele e seus irmãos. E com Dé, que no sonho dizia que viria buscá-lo. Acordou com o barulho do rádio e ao levantar percebeu que o pai estava com o semblante mais suave.

A rotina daquele e dos próximos dias foi a de sempre, acrescentado o fato que havia um pouco mais de alegria pela presença do rádio, que trazia canções e falas de pessoas diferentes.

No domingo seguinte, novamente acompanhou o pai ao vilarejo e desta vez, não achou tão longe. Novamente tudo se repetiu. O pai tomando uma bebida esquisita e fazendo caretas e depois sumindo por algum tempo juntamente com a senhora de faces pintadas e voz estranha; e deixando ele sozinho tomando a bebida de cor escura que fazia bolinhas engraçadas e comendo pedaços de carne. A caminhada de volta, foi penosa como no domingo anterior, mas já começava a reconhecer a estrada e logo, chegaram em casa.

Chegou com fome e com sede. Tomou água e foi olhar o porquinho, as galinhas e o riacho com seu poço cheio de peixinhos coloridos e brilhantes. Voltou o olhar com tristeza para a matinha por onde Dé se fora. Não chorou como da vez passada, mas ficou um tempo parado, olhando para o local como a esperar que o irmão aparecesse e dissesse que estava ali perto para protegê-lo e que não se afastaria dele.

Voltou para casa e viu o pai acompanhando uma canção do rádio. Olhou admirado para a caixinha que dizia palavra alegres e emitia belas melodias. Pensou que ali dentro o mundo seria bem mais feliz e divertido, pois não ouvira em momento algum grito ou choro de crianças apanhando.

 

SENDAS DO VERBO - II - A CASA GRANDE DA FAZENDA


 


Até então, Quinzin esteve apenas uma vez na sede da fazenda do Sr. Jessé Capistrano.  Foi em uma festa, algum tempo depois que perdeu a mãe. Tinha em sua lembrança as amplas varandas, o grande número de pessoas presentes, dos arcos feitos de folhas de palmeira e das bandeirolas coloridas espalhadas no alto por todo o local.

Lembrava também dos homens mascarados que corriam atrás das crianças, embora ele e os irmãos tivessem ficado quietos ante a presença daquelas figuras caricatas, mas divertidas. Um deles se aproximou e perguntou se ele não tinha medo, e mas Quinzin respondeu que não. Diante da resposta firme do menino, o Palhaço o pegou nos braços e ergueu sobre os ombros, dizendo em voz alta que ali havia um menino-homem de verdade. Pouco entendeu, mas apesar do inusitado da situação, sentiu que aquele homem vestido com aquelas roupas estranhas e com uma máscara imitando um rosto, gostara ele.

A festa continuou e os irmãos se mantinham juntos, vez em quando observados pelo pai que passava por perto olhando-os de maneira ameaçadora.

Se encantou quando viu um grande número de pessoas portando instrumentos musicais como violões, violas, tambores e sanfonas, se aproximar da entrada da casa e em frente ao arco de folhas de palmeira, sendo recebidos pelo dono da casa e sua família, que seguravam juntos um pano  vermelho cheio de fitas coloridas e figuras coladas com dizeres que não conseguia entender, entoando um canto para ele ininteligível, mas que ao fim terminava com várias vozes quase gritando um “êêêêê...”. Ele e os irmãos, estimulados e empolgados pela cantoria passaram a entoar aquele final, juntando-se aos cantadores. Soube depois que era a chegada de uma Folia do Divino que tradicionalmente ocorria em certa época do ano.

E a grande quantidade de comida, uma verdadeira fartura, acompanhadas de umas bebidas doces e saborosas que depois soube serem sucos de frutas variadas. Havia doces e muita carne, de porco, de frango. A carne de gado era assada, cortada e servida quentinha por muitos homens que ficavam atrás de um grande balcão situado diante de um imenso braseiro. Quinzin e os irmãos comeram tudo o que lhes era oferecido, apesar das broncas e da cara feia que o pai fazia quando passava por perto.

E foi ali que ele viu pela última vez um dos irmãos. Lembrava bem dele; não sabia ao certo seu nome, chamavam pelo apelido de Tiquinho. Percebeu que um casal veio até eles, observando-os um a um como mercadoria em prateleira. Lembrou que a senhora, de uma certa idade, apontou para Tiquinho e disse que “aquele menino” era o que procuravam, pois “tinha os ombros largos e cara de quem comia pouco”.

Perto da hora de virem embora, Tiquinho foi chamado pelo pai e com ele sumiu no meio escuridão. Antes de ir, ele olhou para os irmãos como a se despedir, mas estes não entenderam o que estava por acontecer. Passado algum tempo, o pai veio, com uma cara estranha e os chamou para irem para casa. Já era noite alta e os meninos sentiram a falta do irmão. Dé, o mais velho perguntou ao pai por Tiquinho, mas ele mandou que calasse a boca. Não era hora de dar satisfação a moleque. Todos sentiram um nó na garganta e Quinzin chegou a soluçar, mas teve que parar pois o pai o ameaçou com um tapa.

O que teria acontecido com o irmão? Para onde ele tinha ido?

Engoliu em seco e achou o pai diferente, com um cheiro estranho e falando enrolado. Trôpego, errava os passos, cambaleante e tropeçando nas próprias pernas.

Calado como os irmãos, Quinzin continuou a caminhar. Mas, de seu pensamento, algo não saía: onde estava Tiquinho? Para onde levaram o irmão? Era o mais divertido deles, que apesar das dificuldades em que viviam, sempre dava um jeito de proteger a todos.

Deixou-se levar no ritmo da caminhada. No alto, a lua Crescente e quase Cheia dava impressão de querer cuidar e iluminar o caminho daquelas crianças. Volta e meia, deparavam com um coqueiro rasteiro, cuja flor banca brilhava, fazendo um conjunto perfeito com a luz da lua. Algo belíssimo, não fosse o momento de incertezas e aperto que sentiam no coração.

Viu o pai ficar um pouco para trás e com gestos de dor, gemer, se contorcer e lançar vômitos. Os meninos pararam, mas um gesto com a mão do pai os fez andar novamente. Alcançados pelo pai, seguiram calados. Entraram na pequena e simples moradia e cada um se acomodou no lugar de costume, ficando vago o lugar onde Tiquinho dormia.

Passados algum tempo Quinzin percebeu pelo barulho do pai dormira, roncando alto e respirando de maneira difícil. Notou que Dé estava acordado e resolveu perguntar baixinho sobre o que acontecera com Tiquinho. Este, vendo que o irmão mais novo não entendera nada, disse que seu pai “deu” o irmão para uma família que morava distante dali. E que no dia seguinte iria dar outro irmão, mas ele não sabia quem. Torcia para que fosse ele, pois não aguentava mais viver ali, daquela forma.

Quinzin ficou intrigado. Seu pai “deu” um de seus irmãos e daria outro no dia seguinte? Mas, como assim, pois ele era pai, e eles eram filhos dele. Como dar um filho, retirá-lo do convívio dos irmãos? Sua pequena cabeça de criança não entendia aquilo.

Demorou a dormir e acordou no dia seguinte com o chamado de Dé, que já tinha feito suas obrigações matinais. Notaram que o pai continuava em seu quarto deitado. Não entendeu, mas resolveu ficar quieto. Ao tomar leite e comer o cuscuz feito pelo irmão, notou o clima de tristeza. Estavam todos calados, ao contrário dos dias anteriores, quando ocorria uma verdadeira algazarra naquele momento. Comiam quietos e sem vontade de dizer nada.

O pai se levantou com o semblante carregado. Respondeu com um grunhido o pedido de bênção dos filhos e mandou que vestissem roupas limpas. Foi ao pote de água situado no canto da cozinha e sorveu dois copos cheios de água. Depois, no terreiro, com uma vasilha de água nas mãos lavou o rosto. Os meninos perceberam o silêncio e as atitudes fora do comum do pai, que costumeiramente levantava primeiro que eles.

O silêncio continuou quando ele retornou para o interior da casa e foi em direção ao fogão à lenha providenciar algo para comer. Com uma concha pegou um pouco de carne em uma lata, jogou em uma velha e retorcida frigideira e colocou sobre a chapa, atiçando o fogo para que se avivasse.

O barulho característico indicava que a carne estava pronta. Ele retirou e colocou em um prato e adicionou farinha de mandioca, misturando com uma colher de pau. Enquanto a comida esfriava foi até o pote e novamente bebeu dois copos cheios de água, àquela hora bem fresquinha.

Calado como os filhos, degustou a iguaria que preparou. Normalmente, os meninos vinham até ele e pediam uma colher ou mesmo, raspavam o que restava na frigideira, mas desta vez permaneceram quietos, cada um em seu lugar.

Após o desjejum, ele foi até o pequeno paiol, pegou algumas espigas de milho secas, retirou a palha e foi selecionando as mais finas para fazer seus pitos. Começou a debulhar as espigas, reunindo as galinhas que disputavam avidamente cada grão lançado ao chão.

 Os meninos continuavam dentro de casa. Estavam de olho nos movimentos do pai, que parecia inquieto e ansioso. Será que outra tragédia, como a que levara do convívio o irmão Tiquinho estava por vir?

 Estranharam que o pai não tivesse saído cedinho para trabalhar, como de costume. Também acharam esquisito ele mandar que vestissem roupas limpas, como se fossem sair. Era hábito dele, em dias normais ir para o trabalho às primeiras luzes do dia. Somente aos domingos que costumava ir à uma pequena vila que havia nas proximidades, sempre levando um dos irmão – quase sempre Tiquinho. Ali adquiria mantimentos que davam para a semana, como açúcar, farinha e às vezes café, um pó preto que Quinzin detestava, mas que servia para aquecer nas manhãs frias. Também era comum passarem na sede da fazenda, onde seu pai ia conversar com o Sr. Jessé e acabava ganhando algumas peças de roupas usadas e algum corte de carne de vaca ou de porco. Tiquinho dizia que o pai bebia “cachaça”, um tipo de bebida que o deixava às vezes alegre ou nervoso. Voltavam normalmente por volta do meio dia, quando Dé já tinha adiantado o almoço, cozinhando arroz e feijão e esperando que o pai chegasse para que almoçassem.

O barulho de tropel de cavalos alertou os meninos. Todos viram assustados pelas frestas da janela uma comitiva de homens montados em cavalos, seguidos por algumas carroças. Pelo jeito de falar de vestir, os meninos perceberam que não eram da região. Chamaram o pai pelo nome, que acorreu a eles, cheio de mesuras e gentilezas e gritou pelos meninos que de imediato não atenderam ao chamado, pelo medo que sentiam. Foi preciso um berro mais alto para que, aterrorizados, um a um fossem para perto dele, com o olhar baixo e um soluço contido e preso à garganta.

Ouviu alguns gracejos e gargalhadas dos homens, dizendo entre outras coisas “...que gabirus esquisitos”.  Quinzin não sabia o que era gabiru, mas entendeu que não era coisa boa.

Por fim, um dos homens apontou o dedo para Toin e Dió, mais velhos que ele e mais novos que Dé. O pai olhou para eles, e ríspido mandou que buscassem suas coisas – algumas roupas em frangalhos – e fossem com os homens.

Ouviu de Dé o questionamento, de “por quê aquilo”, seguido de um “Cala a boca, moleque” dito pelo pai.

Foi assim que entre choro dos meninos, puxões de orelhas e algumas palmadas que o pai colocou à força os dois irmãos na traseira de uma das carroças, abarrotada de moveis velhos, bugigangas, quinquilharias, galinhas e porcos. Seus irmãos foram jogados em uma parte muito apertada e junto a porcos...

Um dos homens, que parecia ser o chefe daquela comitiva, disse rispidamente:

 — Fiquem quietos que não sou bonzinho como seu pai. Comigo a coisa é diferente.

E saiu chicoteando o ar com um longo e aterrorizador pedaço de sedenho...

E ele e Dé, com lagrimas nos olhos e soluços viram os irmãos sumirem na pequena estrada, deixando apenas os rastros paralelos das carroças, incerteza e medo.

O que viria a seguir?

Ficaram ali frente à casa, paralisados, não acreditando que em poucas horas perderam três de seus irmãos. E agora? Era ele, o mais novo, franzino, pequeno e frágil, e Dé, o irmão mais velho, que apesar de ter mais idade que ele, também era mirrado e pequeno.

Ouviram movimentos do pai dentro de casa, mas não entraram. Notou o claro ar de revolta no semblante do irmão, que soluçava baixinho, como que para não chamar a atenção.

Por fim, este pegou a mão de Quinzin e foram para dentro, dando de cara com o pai fumando e sentado em uma velha cadeira, próximo ao jirau que usavam como mesa.

Dé, em um átimo de coragem, parou em frente ao pai e disse:

— Por que você fez isso?

Ouviu do pai:

— Cala a boca, seu moleque. Não tenho que te dar satisfação.

— Não pode fazer isso. Agora está vendendo nossos irmãos?

Irado, o pai levantou e partiu violentamente para cima de Dé, dando tapas e retirando da cintura o temido relho que usava para segurar as calças. Surpreendeu-se quando viu que ele o enfrentava, lutando e tentando tomar o relho das mãos dele, mas o pai era forte e rapidamente o dominou e derrubou no chão. Dé, caído, começou a levar sobre o corpo uma saraivada de pancadas e chibatadas. Quinzin viu o sangue do irmão escorrer e não se contendo, encontrou coragem e colocou-se entre eles.

O pai ainda levantou o relho em direção a seu rosto, mas diante do olhar firme do menino, arrefeceu a mão e apenas o empurrou, dando tempo suficiente para que  Dé corresse para fora e dissesse:

— Foge, Quinzin, senão ele vai te matar.

E saiu correndo em direção à mata que havia nas proximidades, por onde desapareceu.

— Moleque safado, quando voltar aqui, vai ver. Vou te moer de pancada, disse o pai.

                Quinzin ficou parado, sentindo as pernas tremerem. Não era possível, há pouco eram cinco irmãos e de uma hora para outra só restava ele? Para onde foi e o que fizeram com Tiquinho, Dió e Toin? Para onde eles foram levados? E se Dé, com medo do pai não mais voltasse para casa? 

Por longas horas permaneceu paralisado, perdido, esperando para qualquer momento a retaliação do pai. Sentia o peito apertado, as pernas trêmulas e não teve vontade de mais nada. Foi em busca de seu canto, na pequena esteira que dormia e deixou-se ficar ali.

Viu o pai aparecer na porta do quartinho e dizer:

— Agora, você pode escolher onde dormir.

                Teve vontade de responder, mas não conseguiu. Apenas moveu os olhos em direção a ele, que se afastou rapidamente. Pelos barulhos que fazia, tinha ido rachar lenha e limpar com uma enxada as proximidades da casa.          

                Chegou a hora do almoço e ele continuava deitado. Adormeceu, sonhou com os irmãos, com a mãe e com a mesa de doces da festa da sede da fazenda. Como seria bom se aquela festa acontecesse sempre. E como era bom ganhar doces e afagos, ainda que fosse de gente que não conhecia.

                Até o temido palhaço da Folia do Divino que o pegara nos braços parecera amistoso. Apesar do medo que outros meninos tinham, ele não, ficara ali perto, admirando aquela figura única, até então desconhecida para ele.

                Pelo meio da tarde saiu do quarto e viu o pai ao longe, consertando uma cerca que protegia o local onde as galinhas costumavam botar ovos. Sentiu medo. Olhou em redor e não viu sinais de Dé, o último dos irmãos que lhe restara.

                Dé não fora “dado”, não seguira com ninguém, portanto, onde estaria ele? Será que algum animal bravio, como as pessoas diziam que tinha muito naquele mato o teria pego? Já tinha ouvido histórias terríveis de onças, de lobos, cobras e outras feras. Sentiu àquele momento imensa falta do irmão.

 

SENDAS DO VERBO - I - QUINZIN

 



Quinzin nunca teve uma vida fácil. Mais novo de uma família de cinco irmãos, ficou órfão de mãe quando tinha sete anos.

Moravam em uma casa simples, pequena e velha, em um talhão de terras pertencente ao Sr. Jessé Capistrano, fazendeiro e grande criador de gado da região.  

Vez em quando revive os momentos de pesadelo, como quando os irmãos foram “dados” pelo pai a gente desconhecida, de maneira brutal e repentina. A exceção foi Dé, que resolveu fugir, depois de um ataque de fúria do pai.

Naquela manhã não teve vontade de levantar-se da esteira onde dormia. Mas chamado pelo pai, não teve alternativa. Com muito esforço se levantou, tomou a bênção do pai e buscou olhar para a estradinha que saia da casa onde moravam e ia em direção à estrada maior, como a buscar vestígios dos irmãos.

Passou diante do jirau que improvisavam como mesa, ouviu do pai um “come logo, que vou te ensinar o serviço”. Com o coração apertado e sentindo um nó na garganta não queria comer, mas sabia que se não o fizesse a possibilidade de apanhar era grande. Ainda assim, pegou um pedaço de tapioca e começou a mastigar, sorvendo o leite quente no copo de lata. Entendeu que teria que assumir as funções que o irmão fazia, como varrer a casa, o pequeno terreiro e dar milho às galinhas.

Não quis perguntar ao pai pelos irmãos, temia uma resposta bruta ou mesmo alguns tapas. Ouviu de maneira vaga o que tinha que fazer e viu o pai sair apressado para o eito, onde trabalhava. Quinzin não teve dificuldades em executar os serviços, pois sempre observara os irmãos fazendo e até os ajudava.

Com saudade lembrou dos momentos de alegria, quando após as obrigações, ele e os irmãos costumavam brincar, correr no pequeno pasto que ficava em frente à casa. E quando se punham a observar as nuvens no céu, como mudavam de forma, sugerindo animais, pássaros ou arvores. “Aquela é a minha”, dizia um, logo retrucado pelo outro: “E aquela grandona é minha. Ganhei de você!” E riam, com toda a pureza e inocência de crianças que, apesar das adversidades que a vida trouxera muito cedo e da brutalidade do pai, eram felizes pelo amor que os unia. Tinham um ao outro, e isso significava muito.

Agora, era somente ele e o pai naquele canto do mundo. Era terminantemente proibido de sair de casa ou de conversar com pessoas estranhas. Com o tempo, começou a conversar sozinho, e um dia o pai percebendo isso, o chamou de “Aluado”. Não sabia o significado daquela palavra, mas entendeu como um elogio. Começou a conversar mais e mais, até que percebeu o erro que cometera: o pai chegando da roça, em uma tarde quente viu que ele conversava e foi ver com quem seria. Percebeu que falava sozinho e recebeu os gritos e berros do pai, que dizia que não criaria filho louco. Olhou para o pai e não teve tempo de desviar da dolorosa e violenta lapada que o pai lhe deu com o pedaço de couro que fazia as vezes de cinto. Levou uma, duas, três e na quarta caiu no chão, perdendo a conta de quantas chibatadas levara e sentindo a quentura da urina que involuntariamente fizera nos trapos que usava como roupa.

Viu que o pai levantara o braço para outra lapada, desta vez muito mais forte, mas percebeu que alguém chegara em frente à casa, o que fez com que o pai arrefecesse de sua fúria. Ficou ali, jogado no chão, percebendo que pela mudança de voz do pai, que se tornara humilde e servil, era alguém importante havia chegado.

Tentou se levantar, sentindo o sangue escorrer em suas pernas, parecendo que um batalhão de formigas de fogo o atacara. Reuniu forças e se dirigiu a um pequeno tronco de madeira que improvisavam como banco, onde sentou. Sentiu a aproximação de alguém montado a cavalo e viu um senhor bem vestido, que olhou para ele balançando negativamente a cabeça, mas que não disse nada. Sentiu naquela figura uma certa proteção.

Ficou ali, quieto, vendo a tarde cair e a noite chegar, até que o pai o chamou, desta vez com a voz mansa, dizendo que fosse tomar banho e passasse água de sal nos ferimentos. Sem olhar para o pai, se perguntou o motivo daquela maldade, daquela judiação que sofrera. O pai nunca batera nele daquele jeito, apenas dava tapas que doíam, mas não tirava sangue como desta vez. Obedeceu ao pai, que preparou uma salmoura e mesmo sentindo imensas dores, se lavou e foi se deitar.

Na pequena e velha esteira não conseguia dormir. As dores nas costas e nas pernas e braços feridos o impediam de se mover. Não encontrava posição que oferecesse o mínimo de conforto para receber o amigo sono. Ouvia o barulho da noite, o canto dos curiangos e outros sons que normalmente o acalentavam, mas daquela vez sentiu que dificilmente conseguiria adormecer. Ouviu o pai tossindo, e novamente veio à lembrança o ocorrido naquela tarde. Por qual motivo o pai o ferira tanto? Por que ele não pediu para que não mais conversasse sozinho? Afinal, era obediente e não tinha o costume de teimar ou responde ao pai.

Adormeceu de cansaço e às primeiras luzes do dia, viu o pai ir em direção ao riacho para tomar banho. Assim que o pai voltou, apesar das dores levantou e foi dar início à sua rotina diária. Tomou a benção do pai, que respondeu baixo e foi tomar uma xícara de leite com cuscuz de milho.

Depois saiu de dentro de casa e foi colocar água e dar o milho às galinhas. Viu o pai ir para o trabalho, sem o costumeiro hábito de deixar as ordens, o que era para fazer e como fazer.

Sentiu-se só e abandonado. Mas era preciso seguir e ainda sem entender o motivo que o pai fizera aquilo, deu sequência as suas obrigações.

Passou o dia cuidando para que mosquitos e moscas não se aproximassem dele e a noitinha, novamente percebeu a presença daquele senhor que, montado no cavalo, tinha uma imagem imponente, diante da qual seu pai se derretia em mesuras e suavidade na voz.

Ouviu ele perguntar sobre “o menino”, se estava melhor e dera conta do serviço do dia. Sentiu o coração bater mais forte e quase perdeu o fôlego: aquele homem perguntava por ele. Será que seria “dado” como foram seus irmãos?

Ficou ali no banco e ouviu os passos do cavalo e a presença do cavaleiro. Ao vê-lo sentado no tronco que servia de banco, perguntou a ele:

Como está, menino?

Sentiu medo, baixou a vista e a voz não saía; até que ouviu o pai delicada e suavemente dizer: 

—Responda ao senhor Jessé!

                Novamente tentou, mas a voz não saiu, o máximo que conseguiu fazer foi balançar a cabeça em sinal afirmativo, de maneira tímida e com os olhos no chão. Não conseguia olhar para aquele homem que montado no cavalo, parecia um gigante que ia do chão até o céu.

            Ouviu o pai justificar que ele era calado mesmo e viu o homem sem se despedir, dar meia volta com o cavalo e sumir em direção a estrada principal.

Ficou ali um pouco até que o pai o chamou, chamando-o para o banho com salmoura e uma mistura de ervas com casca de barbatimão, segundo ele, para curar as feridas. Notou que o pai estava com a cara boa, ao contrário do que era normal. Ele mesmo passou a lavar as feridas e embora calado, o tratou com cuidado e após o banho, deu para ele vestir uma peça de roupa desconhecida. Ficou um pouco folgada para seu corpo franzino, mas ainda assim ele vestiu, junto com a costumeira camisa surrada e cheia de rasgos, mas que ele gostava de usar.

Mesmo sem sentir fome, jantou e ficou por ali, calado como sempre observando o pai fumar seu cigarro de palha. Não demorou, sentiu o peso do sono e foi se deitar. Pediu a bênção ao pai e se dirigiu a esteira no chão. A mistura de ervas com água de sal que o pai passara fizeram efeito e logo ele adormeceu, sonhando com os irmãos e com aquele homem do cavalo, que o chamava para que percorressem os recantos e pastos da fazenda.

No outro dia, levantou e a costumeira rotina: lavar o rosto, tomar leite e comer cuscuz com nata. Ele estava animado, como se algo de bom estivesse para acontecer. Viu o pai se dirigir para o trabalho, tendo antes feito as recomendações de costume.

                Ficou ali quieto, olhando para a estrada e se divertindo com os passarinhos que ciscavam em alegre e barulhento folguedo nos pequenos trecho de areia depositadas no caminho. Depois de algum tempo, buscou o milho no pequeno paiol e foi dar para as galinhas, que já se concentravam ali à porta da cozinha.

                Viu surgir uma galinha que estava sumida, com muitos pintinhos, todos espertos, amarelinhos e se postando sempre sob a mãe que com seu jeito característico, os chamava, avançando sobre as outras galinhas, garantindo a ela e aos pequenos seu quinhão de milho e farelo.

                O dia passou sem novidades. Por longo tempo ficou olhando para o céu, imaginando que os irmãos poderiam estar ao lado dele, e em pensamento, brincava como se não estivesse só. Evitava falar, pois de repente seu pai poderia chegar e novamente dar outra surra como aquela que ele ainda carregava as feridas.

                À tardezinha, o pai chegou e perguntou algumas coisas, disse que iria reformar o chiqueiro pois iria trazer um leitão para engordar e depois, reforçar as latas de banha da cozinha. Quinzin lembrou que foi o irmão quem cuidou dos últimos porcos que criaram e agora, seria ele. Teve medo, pois o chiqueiro ficava longe da casa e com frequência viam cobras passando por lá. Mas ficou calado e preferiu esperar os acontecimentos.

                Novamente, tiveram a visita do Sr. Jessé, que sempre montado no cavalo perguntou algumas coisas a seu pai; e como da outra vez foi até os fundos da casa, falando com ele, que desta vez respondeu, embora com um monossílabo.

— Tudo bem, menino? Perguntou o fazendeiro.

—Tô... Respondeu Quinzin, de olhos baixos e quase em um sussurro.

                De soslaio, percebeu que o pai abrira um leve sorriso, algo raro de se ver. E o Sr. Jessé deu meia volta e sumiu em rápido tropel pela estrada.

                Mais tarde, o pai o chamou e examinou as feridas, dizendo que estava quase bom e bastaria mais aquele banho com ervas e que as feridas estavam fechadas.

                Quinzin logo foi se deitar, demorando um pouco mais a pegar no sono. Novamente, os barulhos da noite, canto de curiangos e de grilos. Até que adormeceu, sonhando novamente com o Sr. Jessé.

                No dia seguinte, ao se levantar, tomou a benção ao pai que pediu que mostrasse as perebas. Depois de ver, disse que não precisava mais de cuidar com as ervas. Estavam quase boas, disse.

                De supetão, disse que o Sr. Jessé queria levá-lo para trabalhar na sede da fazenda. Era serviço pouquinho, apenas ajudar a molhar alguns canteiros na horta, cuidar das galinhas e se sobrasse tempo, ajudar na cozinha. E fazer o que Dona Santa, esposa do Sr. Jessé lhe pedisse.

Estremeceu ao ouvir do pai que se soubesse de alguma malcriação dele ou sinais de preguiça que viessem reclamar, daria outra surra pior que aquela que ele ainda curava as feridas.

            Sentiu o peito apertado, e o que talvez poderia ser motivo de alegria, se perdeu ante a iminente ameaça de violência, que não seria difícil de acontecer. A ameaça ensejou preocupação naquele coração tão pequeno, mas forte. Lembrou da surra recente e sentiu novamente as dores do relho a cortar suas carnes magras. Mas, apesar da pouca idade e do medo que sentiu, permaneceu calado, sem demonstrar emoção ou manifestar preocupação.

            Triste história do Quinzin e suas labutas como órfão de mãe e as brutalidades do pai

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

CONTE TUA HISTÓRIA!!




Sempre haverá aqueles que vão querer saber como você ou sua marca chegaram ao ponto mais alto do pódio em seu segmento. Obviamente, houve muita luta e coragem para empreender, dar os primeiros passos e se consolidar. E, claro, algumas noites insones.

Portanto, que tal contar a tua história? A publicação de uma autobiografia, a partir de técnicas jornalísticas e literárias em livro físico e/ou e-book dentre outras ações, poderá proporcionar a realização de uma belíssima noite de autógrafos com o glamour que você e sua marca merecem, além de mostrar como a obra poderá ser vendida ou utilizada em ação de marketing, ou ainda ser oferecida como mimo a seus clientes.

Marque uma entrevista presencial ou virtual através do Direct no perfil @paulorolimescritor, que detalharei como podemos construir seu projeto.

 

Paulo Rolim

Escritor e Jornalista (Reg. MTE/DRT 002789GO)

 

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

QUE MARIANA POSSA DIZER: “PERDOMO*”!

Por Paulo Rolim

 

Na manhã desta segunda-feira, 18 de dezembro, inúmeros portais de notícias através de seus perfis em redes sociais trouxeram “a informação” de uma família que havia adquirido doces em pote produzidos por uma famosa confeitaria de Goiânia, que supostamente teriam sido a causa da morte de duas pessoas e a internação em UTI de uma terceira.

O fato triste é que que ao publicar tais “notícias” envolvendo como protagonista do caso o nome da Doceria, sequer se deram conta de checar responsavelmente o que divulgaram, trazendo de maneira açodada e equivocada a própria visão dos fatos, que se seguiu de um imediato e feroz julgamento sumário que sem defesa, pela informalidade das redes sociais, resultou em total e absoluta condenação. Para a maioria dos juízes da internet, não poderia haver outra sentença que não a de morte – ou fechamento – do empreendimento.

Seria mais um caso comum de informação equivocada com drásticos e penosos resultados para a empresa que leva o nome de sua proprietária – Mariana Perdomo – se ela não estivesse amparada em rígidos processos de produção, atendendo todos os requisitos legais e sanitários exigidos, além de meios e protocolos de segurança.

Assim que começaram a pipocar manchetes, inclusive nos telejornais de grande audiência, me veio à lembrança um caso que, guardadas as proporções, poderia ser semelhante. Refiro-me à Escola Base, de São Paulo que em 1994 teve seu nome envolvido em falsas acusações. Pouco tempo depois, se comprovou que tudo não passara de falsas acusações, mas o estrago já estava feito: a escola fechou suas portas definitivamente.

No caso de Goiânia, a pronta reação da empresa, que não fugiu da própria responsabilidade, emitiu comunicados e  franqueou todas as informações e amostras de seus produtos às autoridades de fiscalização sanitária, do consumidor e policiais, aliada à resposta de pessoas que conhecem sua história e de sua proprietária, contribuiu para que em 24 horas a Polícia Civil – que agiu rápida e responsavelmente – emitisse um comunicado onde afirmava que a doceria não tinha nenhuma participação nos tristes acontecimentos que levaram a óbito duas pessoas e deixaram outra em um leito de UTI.

Registre-se também a nota de uma pessoa da família que perdeu seus entes queridos, onde apesar da dor e do momento difícil que passa, pediu parcimônia e cuidado com a divulgação de informações sem a devida comprovação.

Não conheço pessoalmente a senhora Mariana Perdomo, sei apenas da qualidade de seus produtos como consumidor, além de acompanhá-la nas redes sociais. Fico a imaginar como devem ter sido – e ainda estão sendo – estas últimas horas para ela. Justamente ela, Mariana Perdomo, que é exemplo de sucesso a partir de trabalho, visão, foco e coragem de empreender.

“Perdomo”, em tradução livre do idioma espanhol significa “Eu perdoo”, porém, não sei até que ponto a empresária será capaz de perdoar a tantos que irresponsavelmente, por pouco, não jogaram o seu nome no limbo.

Certamente, a empresária e sua equipe, no momento têm preocupações mais imediatas do que exigir retratação de quem a acusou sem provas. Espera-se a que quem cometeu tal erro peça desculpas – ou perdão – e que a sociedade goiana possa abraçar, se solidarizar e prestigiar a confeitaria, que há anos está na batalha diária e se conseguiu se estabelecer e chegar onde chegou foi por competência.

Empresas como a de Marian Perdomo, que pela origem, iniciativa e sucesso geram empregos, recolhem impostos, são exemplo e orgulho para Goiás.


 * Perdomo, na tradução literal do espanhol: "Eu perdoo".

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Paulo Rolim é jornalista e escritor.