sexta-feira, 6 de julho de 2018

NOVENTA MILHÕES, EM AÇÃO...



Foto: El País


Aos amigos que leem o título dessa crônica, apresso-me a explicar que não se trata de valores apreendidos ou confiscados em alguma das tantas operações da polícia federal que ocorreram, a exemplo da Lava Jato, ou estão em curso, buscando colocar bandidos corruptos atrás das grades e ressarcir aos cofres públicos, ao menos, parte do que foi surrupiado.
No caso, refiro-me ao título da música tema da copa de 1970, vencida por Pelé e seus companheiros, composição de Miguel Gustavo e gravada pelo ótimo conjunto musical “Os Incríveis”, detentores de grande sucesso à época.
Em 2018, segundo dados extraoficiais do IBGE somos cerca de 210 milhões de brasileiros. 210 milhões de pessoas vivendo em um país onde a velha formula de pão e circo parece não colar mais.
Não obstante os esforços da TV que detém com exclusividade os direitos de transmissão da copa do mundo edição 2018, de transformar os eleitos para vestirem a camisa amarela da seleção de futebol e que carrega as cores do país, em heróis e imbatíveis, tudo caiu por terra diante de aguerridos belgas.
Tal seleção de futebolistas começou com um grande show de acrobacias de seu eleito principal jogador, mas não fosse a perspicácia e confiança de um atleta coadjuvante – futebol é um jogo coletivo – teríamos perdido a primeira partida desse certame para a Suíça, ótima em honestidade e IDH, mas inexpressiva em futebol.
Mas a TV detentora dos direitos de transmissão insistia em acreditar e imputar ao crédito do telespectador que tínhamos uma equipe de super-heróis e homens de ferro, imbatíveis e abençoados pelos deuses – todos brasileiros – que trariam a copa do “sonhado” (?) hexacampeonato.
E quem eliminou nossos super-heróis do campeonato mundial? A Bélgica, de um futebol de pouca tradição, de incipientes participações em campeonatos mundiais. Sua melhor colocação foi no segundo mundial disputado no México, em 1986, quando obteve o quarto lugar.
Mas, em que esse país de pouco mais de trinta mil quilômetros quadrados é melhor que o Brasil, pentacampeão do mundo? Em quase tudo!
O Reino da Bélgica, situado no oeste do continente europeu, de quase doze milhões de habitantes, possui uma renda per capta de 45 mil dólares, grau de escolaridade ao nível dos países do continente, e é um dos países menos corruptos do mundo.
Se pensarmos em Brasil, claro que somos um país privilegiado. Temos um povo bom, recursos naturais como em nenhum lugar, um país de gente boa, porém o que tem acabado com nosso país é a corrupção.
Se começarmos pelo futebol, lembramo-nos que tem ex-dirigente condenado e cumprindo pena nos Estados Unidos da América. A cúpula dirigente da entidade responsável pelo futebol no brasil não pode sair daqui pois também irá para a cadeia americana.
Em alguns meses, teremos eleições. Então, que não elejamos ídolos de pés de barro, acrobatas como os que se apresentaram na copa, influenciados por este ou aquele veículo de comunicação.
Busquemos pessoas que querem o bem comum, sem corrupção, malandragem e desonestidade. E se você sonhou com um hexacampeonato, tudo bem, natural. Mas dependia do talento, da vontade e da garra de 22 jogadores.
Sonhe agora com um país melhor, pois depende unicamente de você eleger os que  hão de conduzir nossos destinos nos próximos quatro anos.
Queira um Brasil melhor e sem corrupção, ao depositar seu voto. Afinal, nesse jogo da democracia, seu voto certo será o gol decisivo!


sexta-feira, 29 de junho de 2018

JUNHO INDO, JULHO E FÉRIAS CHEGANDO...






Na noite da última quinta-feira, ao chegar em casa deparei-me com as luzes da varanda apagadas. Normalmente estão acesas, mas dessa vez ocorreu um problema com o sistema de células fotoelétricas, que ao anoitecer acende automaticamente as lâmpadas da casa.
Após colocar o carro na garagem, me permiti por alguns instantes admirar a escuridão da parte interna e ao me voltar para a parte de fora e contemplar o céu, agradeci pelo fato de as lâmpadas não estarem acesas: um espetáculo grandioso se iniciava. A lua aparecia entre prédios esplêndida, imponente e bela. E iluminava o firmamento e todo o meu quintal, majestosamente incrustada em um céu sem nuvens, de tom azul escuro.
Por um tempo que não posso mensurar, fiquei ali absorto, com o pensamento distante nas coisas boas e belas da vida. A lua cada vez mais brilhante e clara, em escala ascendente iluminava agora uma pujante roseira do pequeno jardim, que estava coalhada de rosas.
E uma dúvida surgiu: a lua se encantava com as rosas ou as rosas de encantavam e retribuíam a beleza da lua? Impossível saber...
Mas a responsabilidade voltou e tive que acender as luzes da casa. Rapidamente encontrei o pequeno problema ocasionado no sistema elétrico e a luz se fez presente em todas as varandas da casa.
Mas busquei uma cadeira de fios e fui fazer companhia à roseira, deixando a luz da lua acariciar minha face. Fiquei ali por um bom tempo, imerso em minhas reflexões.
O mês de junho está chegando ao fim. Tivemos um mês festivo, com homenagens a Santo Antônio, São João e São Pedro. Muitos festejos, alegria, comidas típicas, dança de quadrilhas. E julho está à porta, trazendo clima de férias e descanso para muitos. Tempo de praias no Rio Araguaia, reencontros e confraternização.
 É quando me lembro que em breve teremos eleições, e o país segue ainda em rumo incerto. É preocupante perceber que um país que há pouco mais de trinta anos lutava por liberdade de expressão, democracia, livre associação, multipartidarismo, hoje se veja com pessoas – desinformadas, diga-se – pedindo a volta do regime militar.
Vivi intensamente a época da ditadura. Lembro que para poder apresentar um espetáculo teatral era necessário obter autorização de um sisudo e quase sempre mau humorado servidor do departamento de censura polícia federal de então. Haviam outras situações, que também não deixaram nenhuma saudade. Vencemos, tivemos a aprovação de uma constituição cidadã – hoje mutilada – e o país experimentou por mudanças que vieram atender em parte aos anseios da sociedade.
Mas de repente, quem comandou essa mudança fez pior do que os que estavam no poder, levando o país, de gente honesta e trabalhadora, à uma crise sem precedentes.
E carregando junto instituições outrora merecedoras de crédito e confiança, como a nossa suprema corte, que parece mais uma banca de advogados que de fato guardiã da constituição. Isso para não falar em nossos parlamentos, que salvo raras e honrosas exceções, têm como integrantes pessoas descompromissadas com a sociedade, com o bem comum.
As eleições estão chegando. Os protagonistas até agora são os mesmos de sempre. Significa que nada deve mudar e que o país deve continuar como um paraíso de políticos corruptos e desonestos.
Mas é melhor voltar à lua e seu interessante diálogo com as rosas.  Tamanha beleza traz conforto e aconchego.  Lua, rosas perfumadas, noite de encantos, o som de um violão ao longe, tudo isso me faz ao menos por alguns instantes esquecer as mazelas do Brasil.
E embora tentem, ainda não conseguiram nos roubar a poesia. Que deve sempre prevalecer em nossos corações.


sexta-feira, 15 de junho de 2018

JUNHO: FESTAS, E MUITA ALEGRIA!






O mês de junho era bastante movimentado na querida e saudosa Fazenda Nova América e em suas imediações. Assim que se iniciava, as famílias se reuniam para fazerem a novena em louvor a Santo Antônio. A cada noite acontecia na casa de uma família, onde os vizinhos se encontravam para rezar e se confraternizar.
Embora eu fosse muito criança, me emocionava com os cânticos, com as orações, com as demonstrações de devoção e o agradecimento de todos ao santo protetor. Eram depoimentos de pessoa simples, cercados de timidez, que agradeciam as graças alcançadas. Louvavam a saúde recuperada do filho que adoecera, a colheita farta na safra anterior, e por tantas razões que aquele povo simples fazia questão de colocar àquele momento.
Após as orações, sempre puxadas pela noveneira e pela dona da casa que recebia os visitantes fieis, era hora do jantar.
Àquela época era tudo muito difícil, mas todos se preparavam para aqueles festejos. Os mais remediados ajudavam aqueles que tinham menos recursos ou estavam passando por situação difícil, cedendo uma leitoa, uma quantidade de frangos e outras coisas. O fato é que sempre havia um jantar, que embora simples, era com muita fartura. E tudo com aquilo que produziam na terra.
Constava do cardápio o delicioso frango caipira ao molho, feito em grandes proporções em tachos sobre as fornalhas à lenha, carne de porco com farofa, abóbora com leite para quem andava enfastiado, arroz com suam de porco, feijão verde, quibêbe de maxixe, mandioca ou macaxeira, como chamavam na região frita e cozida. Para “queimar a manteiga”, os adultos se permitiam uma dose pequena de cachaça da região.
A meninada animada e esperta, mal jantava: queria mesmo era que chegasse o momento em que eram servidos os doces. Doces de leite, rapadura, cocada, a deliciosa canjica e outras guloseimas faziam a alegria dos pequenos. Mas era comum ver adultos, em sua simplicidade encherem os bolsos. “É para morder amanhã na roça”, diziam.
Cada casa tinha uma habitual regra. Em algumas, sempre aparecia uma sanfona, um violão e um pandeiro - ou uma zabumba. Noutras, o final era mais contido, havia a reza, o jantar e após isso, encerrava-se com boas conversas dos adultos próximo à fogueira. Mas aos meninos, a liberdade de brincarem era total, apesar de algumas mães e tias solteironas zelosas tentarem contê-los, sob o argumento que estavam com a barriga cheia. Como se adiantasse...
Mas invariavelmente, após a reza e o jantar havia muita diversão. E quando havia a coincidência de ser fim de semana – creio que propositadamente marcavam a noite de novena para a casa de alguém mais animado – tudo terminava em alegre folguedo, com animados saraus à beira de uma fogueira.
Para os que moravam mais distante e precisavam dormir, oferecia-se o pouso. E no dia seguinte, servia-se lauto café da manhã, com leite, cuscuz com nata, rapadura e claro, café. Antes, os homens que haviam pernoitado ali ajudavam no curral e as mulheres ajudavam ao limpeza e organização da casa.
O tempo passou e hoje para mim, tudo é saudade. As festas juninas são marcantes em minha vida.
Mas, mantendo a tradição, sei que minha irmã Vitória e seu esposo José Sôffa, todo final de junho, promovem a novena de em devoção à São Pedro em sua fazenda no município de Xinguara no Pará. E tudo sempre, claro, termina em festa, encerrando o mês.
Também foi em uma festa junina que comecei minha história vida com a amada. Depois de tantos anos, impossível não lembrar aquela festa junina, na rua do prédio onde morávamos; ali começávamos nossa caminhada.
E junho também é especial para mim, pois é quando sempre completo mais uma etapa da vida.
Junho é festa, alegria e claro: sempre saudade boa!
Assim sendo, vivas a Santo Antônio, vivas a São João, vivas a São Pedro!


sexta-feira, 8 de junho de 2018

MAIS POESIA, MENOS BARBÁRIE



As redes sociais e os programas vespertinos de televisão ultimamente têm trazido uma gama de cenas de violência e de pura barbárie. De repente chega um vídeo e quando o abrimos nos deparamos com lamentáveis cenas de pessoas agredindo outras, fazendo justiça com as próprias mãos. Percebe-se que pela ótica dos personagens dessas lamentáveis cenas, desde que os algozes tenham cometido algum crime, não importa se leve ou grave, suas mãos não ficarão sujas de sangue.
Da mesma forma, as ditas redes sociais tornaram-se terra de ninguém, ringues de violenta luta onde não há espaço para o debate ou a oposição ponderada e fundamentada de ideias, mas a “verdade” de um sempre deve prevalecer sobre aquilo que o outro entende ser correto, de acordo com seu pensamento.
Não há espaço para meio termo, bom senso ou reflexões. Se você entende como errado determinada ação política ou mesmo como munícipe e cidadão critica decisões de gestores públicos, imediatamente um batalhão de apaniguados que você sequer conhece, o defenestra e tenta a todo custo demovê-lo de seu pensamento e ainda por cima, o ataca violentamente.
Muito parecido os acontecimentos do virtual com as lamentáveis imagens de violência contra seres humanos, gravadas e repetidas milhões de vezes nessas maquininhas luminosas que um dia também serviram para ouvir a voz de pessoas queridas.
Em minhas reflexões e em bate-papo com amigos, chegamos à conclusão unânime que é preciso agregar coisas positivas ao nosso cotidiano. Pela manhã, ainda sob os últimos momentos da madrugada, quando o alvorecer chega belo e cheio de vida – seja com brilhante sol ou com a benfazeja irmã-chuva - que bom seria se ao invés de pregar o olho na TV, se pudesse buscar um poema, uma mensagem de paz ou até mesmo fazer uma oração...
Claro que não podemos nos furtar de saber as realidades. E a violência cotidiana é uma dessas tristes realidades em um país onde sucessivos governos – inclusive o atual – deixaram de lado a preocupação com o progresso e bem-estar da população, praticando atos escandalosos de corrupção que quebraram a nação. Inegável que com esses maus exemplos, a violência tendesse a crescer, tomando as dimensões atuais.
As maiores autoridades do país frequentam o noticiário, mas sempre dentro de conteúdos onde a corrupção e o roubo à “res publica” é o destaque.
Não está fácil viver em nosso Brasil. Mas busquemos soluções onde a paz e o bem sejam protagonistas. Propagar cenas de violência não ajuda em nada, ao contrário, pode desencadear reações semelhantes. Precisamos de mais poesia, lirismo, e menos barbárie.
Da forma que se vê, passaremos a achar normal que cidadãos de boa índole, em momentos de descontrolada fúria, julguem, condenem e executem a sentença, que pode ser até de morte.
Não podemos jamais nos acostumar e ver como normal a barbárie. Melhor, em tarde amena de outono, ver o entardecer chegar calmamente e buscar no coração versos e canções, onde certamente estará contida a poesia tão necessária à nossa vida.
Mais poesia, mais amor, solidariedade e sorrisos. Para que o sonho de um mundo melhor se torne realidade, devemos dar uma chance à paz!




sexta-feira, 11 de maio de 2018

MÃES: AMOR, TERNURA, SAUDADE





A publicação feita por uma pessoa amiga em conhecida e popular rede social, incitando seus leitores e seguidores a escrever uma frase que era – ou ainda é -  rotineiramente dita pela mãe, teve imediata e volumosa quantidade de respostas. Afinal, qual mãe não tinha, ou tem para seus filhos frases e expressões comuns, cotidianas e marcantes?
Ao passar os olhos sobre essa publicação confesso que me vejo novamente nas brincadeiras solitárias no oitão da casa simples da saudosa Fazenda Nova América, quando tinha por companhia o cachorro Guamá, e ficava sempre ao alcance dos olhos e ouvidos de minha mãe. Também me vi nos banhos de córrego com meu pai ou já adolescente e morando na cidade, na companhia de livros em intermináveis leituras, onde o pensamento voava através daquelas narrativas maravilhosas.
O coração bateu forte ao recordar a doçura da minha mãe em frases como “vem pra dentro, Paulinho”, ou “vem merendar” e depois, quando já era rapaz, “vai dormir, já está tarde” ou “não demore a chegar”.
A preocupação com a demora tinha sentido, pois no início das noites de sábado ia à missa e depois seguia direto para a praça da pequena cidade onde encontrava amigos e amigas da escola, começando ali a viver os primeiros momentos e emoções da juventude que se apresentava.
 Mamãe sempre foi muito zelosa. Lembro que quando deixamos a fazenda e mudamos para a cidade eu não tinha permissão para brincar na rua. Mas aos poucos fui fazendo amizade e conhecendo os vizinhos, a maioria da minha idade, quando comecei a jogar bola em frente à nossa casa, brincar de salve-bandeira, béti, e o mais legal de todos, de cowboy.
E quando demorava um pouco mais, bastava olhar rumo à minha casa para ver a inconfundível silhueta de minha mãe com o olhar na rua. Era o bastante para imediatamente deixar o que fazia e correr para casa, quando ouvia a frase “vai tomar banho, menino”.
Era hora de cuidar de algumas obrigações, como trocar água do galinheiro, molhar a horta e depois, ficar sossegado ou estudando, fazendo tarefas da escola.
Quando mudei para a cidade grande, meus pais continuaram morando na pequena São Miguel. E quando os visitava nas férias ou em feriados, era sempre uma grande alegria o reencontro. Ao dar a bênção, recebia um abraço, um beijo seguido de um “Deus te faça feliz”.
E como eram felizes esses momentos.
Hoje ao recordo com imensa saudade as frases e expressões que marcaram minha infância e adolescência. Ainda ecoa em meus ouvidos a voz suave e terna de minha mãe e estão no coração a lembrança de seus cuidados, seus carinhos.
Amor de mãe é único e inabalável. E as mães mesmo muito iguais no cuidado, no amor, no zelo com seus filhos. São capazes de enfrentar o mundo para defendê-los.
Que todos tenham as mães em seu mais absoluto carinho. E que as mães tenham todos os seus dias felizes.
Afinal, todo dia, é dia das mães.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

SEMPRE ELA: A POESIA





Quando menino eu me encantava com os sons advindos do velho e surrado violão que meu pai costumava tocar quase todas as noites – ou quando o cansaço da lida diária permitia. A singela calçada de chão batido, escorada por velhos troncos de madeira era seu palco, com a plateia cativa de meus irmãos e irmãs, além de minha mãe, que vez ou outra se animava a declamar versos. A luz que costumeiramente iluminava esse palco maravilhoso vinha da lamparina que ficava na sala da casa simples - e das estrelas, que pareciam emitir brilhos de alegria a cada acorde que meu pai dedilhava ao violão e a cada sorriso daqueles que estavam ali a se encantar.
 E vez em quando ela aparecia. No início eu apenas a percebia pelas frestas do telhado, juntamente com estrelas. E ela, a lua, assim como as estrelas companheiras aos poucos se iam deixando de certa forma confuso meu pensar de criança, que se encantava com o barulho da noite e a claridade do céu.
Mas eis que em algumas vezes ela vinha imponente, em início da noite com as luzes do entardecer ainda se despedindo do dia. Chegava imensa, clara, mágica e bela e se postava no firmamento, trazendo raios de luz que acalentavam ainda mais aqueles momentos de poesia, canções e felicidade.
A vida seguiu. A poesia, que conheci e senti quando minha mãe cantava ao me embalar na rede da pequena casa onde morávamos, ou nos singelos porem líricos momentos de enlevo ao som de canções, acordes e declamações, me acompanha até hoje.
Seguiu comigo na adolescência, no primeiro amor, nos poemas que me atrevi a compor ouvindo o coração, no andar pelas ruas de mãos dadas com a amada e a ela dedicar canções, como fazia meu pai à minha mãe.
Esteve nos momentos da infância de minhas filhas, em cada conquista que tiveram e sobretudo nos momentos de alegria que nos permitimos dividir. E na maioria das vezes com o som de um violão, mas agora, tocado por mim.
E a poesia se faz presente no sorriso de criança do pequeno Gabriel, que se encanta com coisas simples porem indispensáveis ao coração, como o canto de galo no terreiro, mugir de gado no campo, o diálogo ininteligível de um casal de araras que corta o céu na beleza de um entardecer, ao caminhar lenta e calmamente por uma estrada de fazenda, acompanhado pelo espevitado e irrequieto cãozinho Bidu.
Hoje recordo esses momentos, diante da mesma lua, das mesmas estrelas e do som da noite que um dia me fizeram companhia na infância. O tempo inexoravelmente passou, a vida trouxe novos e alegres momentos.
E com ela, sempre ela, a me acompanhar: a indispensável Poesia.


sexta-feira, 6 de abril de 2018

ÁGUAS E TEMPESTADES DE ABRIL






O alto volume das águas que cai nesse mês de abril em Goiânia surpreendeu meio mundo. É que normalmente, após as aguas de março e a famosa e até esperada enchente de São José, por ocasião da data comemorativa ao santo, em abril caem poucas e distantes chuvas, como que a preparar para o mês de maio, onde tradicionalmente em Goiás se encerra o ciclo de chuvas.
Haviam ocorrências de chuvas fortes, mas a que caiu na tarde da última quinta-feira foi talvez, como nunca aconteceu por aqui.
De uma hora para outra se viu veículos rodando ao sabor da volumosa enxurrada e a assustadora imagem do Córrego Botafogo e sua famosa “marginal” tomados pela água deu a dimensão do que de fato ocorreu. Acostumados que estamos a ver tal situação em capitais como Rio de Janeiro e São Paulo, de repente percebemos que Goiânia não é mais aquela cidade tão boa de se viver, longe de tragédias e intempéries dessa monta.
Mas a pergunta que se faz é sobre os motivos dessas ocorrências. O que está acontecendo na outrora bela e acolhedora capital mundial do pequi? Afinal, chuvas fortes sempre ocorreram, mas de levar carros, invadir residências e tomar por completo ruas e avenidas não tenho lembrança.
E antes que os especialistas de plantão coloquem a culpa em situações óbvias, como o desmatamento da Amazônia, aquecimento global, o Presidente Trump e outros motivos, é preciso olhar para o que ocorre em nossa metrópole.
Até algum tempo, tínhamos quintais, onde se cultivavam pequenas hortas, cresciam mangueiras e outras arvores frutíferas. Hoje, somente cimento e com sorte, quem pode tem uma piscina. Os quintais acabaram, afinal, ninguém tem tempo para cuidar de horta, podar mangueiras e com frequência varrer e retirar as folhas que caem ao chão.
Outro fator importante é a especulação imobiliária desenfreada, desumana e fria, com imensos arranha-céus que fazem jus ao nome sendo construídos em locais até então inimagináveis. Pode até ser símbolo de modernidade, mas as consequências certamente são o que se viu esta semana.
E a natureza, assim como a arte, imita a vida. Vivemos em nosso país intempéries e incertezas quanto ao futuro. De uma hora para outra, tribunos do alto de sua megalomania e vaidade estão a decidir os rumos de nosso país. Com o poder que têm, levam àquele cidadão simples que deixa seu lar para ir ao trabalho as cinco da manhã a certeza que poderosos se locupletam em mares de lama da corrupção e ainda tem apoio desses “doutores”.
O cidadão que trabalha o dia inteiro na maioria das vezes por um salário irrisório, volta para casa sem saber se encontrará seus poucos e simples móveis dentro de casa; e ainda vê que corruptos encontram guarida diante de altas autoridades.
Daqui do meu cantinho simples, humilde e aconchegante, onde me permito admirar a chegada de um novo dia, ou mesmo ver a noite calma e tranquilamente trazer estrelas ou nuvens de chuva benfazeja - às vezes com sinfonia de pássaros - me resta ter esperança. Esperança que nosso país volte a ser um lugar onde as pessoas podem se cruzar nas ruas harmoniosamente, sorrir um para o outro e serem amigos, independente de opção partidária.
É a esperança que resta. E que nunca darão conta de acabar.