sexta-feira, 23 de junho de 2017

EM FELIZ E ALEGRE NOITE DE SÃO JOÃO

Imagem retirada da internet


O crepitar das brasas da imensa fogueira, emitia som único e interessante, que aliado ao calor que dispensava e ao vermelho das lavaredas vivas e inquietas, parecia hipnotizar as pessoas que estavam ali a observar.
O encantamento se desfez quando os acordes dolentes da sanfona convidaram o povo a se aproximar do local onde aconteceriam as apresentações dos diversos grupos de quadrilha, em um animado e alegre concurso.
Eu era um dos poucos que não participaria da minha classe. Eu era aluno transferido há pouco tempo e quando chegara àquela escola, os grupos e pares já tinham sido feitos e os ensaios já aconteciam. Fiquei com certa tristeza, afinal, tinha muita vontade de participar daqueles folguedos. Restara-me torcer para os colegas de classe e, claro divertir-me ao lado dos meus pais com tudo aquilo que a festa junina poderia oferecer.
Absorto, quase não percebi quando meu pai se aproximou e com sua voz macia e terna me chamou para irmos ao local assistir às apresentações. Papai chegou trazendo um grande saco cheio de pipocas, com o que imediatamente me animei.
Sem muita dificuldade, nos acomodamos na improvisada arquibancada, feita de tábuas quase soltas e esperamos o anúncio do inicio da festa. Papai parecia animado e conversava a muito com minha mãe. Aliás, essa era uma característica marcante de meu pai: sempre animado e bem humorado, gostava de festa e de estar perto de pessoas alegres.
O som da sanfona tomou conta do ambiente e firmou em uma melodia alegre e animada. Logo, um grupo de jovens começou a apresentação, com a quadrilha sendo cantada por um senhor de cabelos brancos e voz forte, que comandava as evoluções, que iam sendo mostradas pelos pares do grupo. Terminada aquela apresentação, entrou outro grupo e assim, a animação ia ficando cada vez maior.
O frio de junho começou a apertar e minha mãe, zelosa como era, apressou-se a me entregar e pedir que vestisse um agasalho que ela providencialmente trouxera. Senti-me confortável e aquecido de imediato. Logo, papai em entregava mais pipoca e outras guloseimas.
Terminadas as apresentações, fomos passear e visitar as barraquinhas da quermesse. Eu todo alegre e feliz, ao lado dos meus pais, brinquei de pescaria, de tiro ao alvo, joguei argolas em garrafas e claro, tomei caldo de frango e feijão quentinhos e degustei um delicioso milho assado. E minha mãe a se perguntar como tudo aquilo cabia. Eu ria a valer e aproveitava muito aquele momento, de pura alegria e felicidade.
Chegada a hora de ir embora, e nos colocamos a caminho de casa. Íamos a pé, pois morávamos ali pertinho e naquele tempo, era tudo muito tranquilo na pequena e acolhedora cidade onde morávamos.
Chegando em casa, coloquei uma roupa quente para dormir, afinal junho é sempre muito frio. Hora de ir par a cama, não sem antes receber o carinho e o beijo de minha mãe junto com a bênção do meu pai.
Naquela noite, demorei um pouco a dormir. Me vinha à lembrança o crepitar da fogueira, e o sorriso daquela menina que me encantava e que estudava na mesma sala que eu e que naquela noite, estava ainda mais linda, vestida com a roupa típica da quadrilha junina.
Adormeci e sonhei que dançava com ela. Que era seu par e juntos, bailávamos ao som da alegre canção junina.
Sonhos de um menino quase na adolescência. Sonhos de uma alegre e feliz noite de São João.



sexta-feira, 16 de junho de 2017

DOS ÚLTIMOS DIAS DO OUTONO...



            A manhã de junho, na cidade de Palmas, Tocantins, de esplendor único e inigualável parecia ter deixado toda a beleza possível para aquele momento. Não bastasse o sol brilhante e o céu de um azul límpido e sem nuvens, a lua minguante resolveu dar o ar da graça, ainda que durante o dia.  Parecia encantada com o cenário, buscando, como se fosse possível, embelezar ainda mais aquilo tudo.
Ventos vindos de todos os lados passavam sobre o cajueiro coberto de flores e pequenos frutos, trazendo perfumes únicos, do aroma do cerrado.
O outono chega aos seus últimos dias. Em toda a estação, tivemos momentos de frio, calor, dias e noites espaçadas pelo mesmo tempo e a natureza, renovando a vida, permitindo que novas folhas venham e ocupem o lugar daquelas que, cumprindo sua missão, deixam-se cair, ainda para uma ultima etapa da existência, de generosamente proteger a árvore-mãe e adubar a terra que a mantém, garantindo a sobrevivência.
Em poucos dias teremos a chegada do inverno. As novas folhas que sucederam as caídas no outono haverão de proteger e garantir o ciclo venturoso da vida. É hora de buscar as energias acumuladas e garantir os próximos meses, onde o frio e os ventos, aliados ao tempo seco, haverão de ser mais difíceis.
Logo, após tudo isso entre as folhas ou nos caules haverão de aparecer pequenos e tímidos bulbos, que se transformarão em flores, anunciando alegre e festiva primavera – a rainha das estações. E logo, a vida confirma sua renovação, em frutos e sementes que alimentarão os viventes.
Também somos manhãs se sol, manhãs de ventos que trazem perfume de flores e aromas do cerrado. Em nossa existência talvez sequer percebamos, mas passamos por todas as estações. Talvez percebamos melhor a mais bela, a mais pujante e encantadora, por tudo que representa. Mas, também somos dias nublados, com ventos fortes, ás vezes ameaçadores e perigosos, ou com chuvas fortes, temporais que amedrontam, assustam.
Da mesma forma que um dia somos flores, depois frutos e por fim sementes, trazendo beleza e renovação, um dia somos folhas que, caídas ao chão, pouco ou mais nada representam.
Assim caminhamos. E que essa caminhada seja plena de carinho, ternura e compreensão. Que em cada instante da existência, nas belas manhãs de junho ou em dias e noites tormentosos e difíceis, o amor prevaleça. E assim estabeleça-se laços fortes, profundos, inabaláveis, capazes de suportar dores e tormentas, mas também de alegremente, celebrar manhãs de outono de céu azul, ventos travessos e sol brilhante. Observados pela lua minguante que não haverá de querer perder o espetáculo de encanto e beleza.


sexta-feira, 9 de junho de 2017

JUNHO: DOS NAMORADOS E DE ALEGRIA



O mês de junho é realmente muito especial. Diferente dos demais meses do ano, em junho temos manhãs de beleza indescritível. Emolduradas pelo verde que a temporada das chuvas deixou presente na natureza, as manhãs de junho são de sol brilhante e brisa amena.
Tido como um mês romântico, festivo e alegre, junho encerra o primeiro semestre, quando intimamente nos vem àquela sensação de dever cumprido, de já ter vencido a primeira parte do ano que segue. Com as festas de Santo Antônio, São João e São Pedro é certeza de diversão, alegria e claro, muita devoção.
Na Fazenda Nova América havia comemorações juninas. Na noite da véspera do dia de cada santo, meu pai fazia uma imensa fogueira, por onde minha imaginação de criança viajava e se encantava, ao observar a beleza do vermelho intenso do fogo e das brasas que se formavam.
A fogueira da véspera de Santo Antônio era precedida por uma reunião dos familiares que moravam por perto, quando rezavam um terço. Não raro, após o ato de devoção meu pai pegava o violão e ali mesmo, na sala acontecia um improvisado e agradável sarau.
Já na véspera de São João a festa era grandiosa. Era o fim de uma novena que as famílias da região faziam e na noite de 23 de junho se reuniam, rezavam o terço e encerravam a novena, agradecendo pelas graças obtidas.
Então acontecia a grande festa. Era muita fartura e alegria. Além dos vizinhos, vinham políticos, pessoas importantes e o vigário da pequena cidade de Araguaçu, que ficava bem próxima à fazenda.
Após a reza, os violeiros, sanfoneiros e tocadores de percussão se organizavam afinando os instrumentos e afiando a voz sob a barraca feita de palha e bambu, em frente à casa. Era para que todos se acomodassem bem e não sofressem os efeitos do sereno.
Enquanto isso minhas irmãs se reuniam com outras moças da mesma idade e cantavam os sucessos que ouviam através do rádio. Havia uma música que nunca esqueci. Uma puxava as estrofes e em seguida, todas em coro cantavam o refrão. Dizia assim: “...pegue uma esteira e seu chapéu, vamos para a praia que o sol já vem...”. Com alegria eu recordo aquele coral de jovens alegres e felizes, que até hoje ecoa em meu coração.
Eu não percebia, pois era muito criança, mas dessa festa saíram muitos  namoros e depois casamentos. E tudo transcorria em alegria e muita amizade. Logo, todos jantavam até se fartar, degustavam os doces e começava a diversão, com muita música, repentes e alegria, que ia pela madrugada.
É muito bom buscar nos recônditos do coração esses momentos. Mas o que mais me chama a atenção em junho é o fato de ser o mês dos namorados, tendo o dia doze como seu ápice. Para mim, uma data mais que especial. É tempo de renovar laços de amor e de reviver e viver momentos de ternura e enlevo.
Através de canções, recordar momentos felizes, de passear de mãos dadas com a amada nas tardes, que como as manhãs, são também repletas de beleza.
E para mim, doze de junho, embora seja outono, é tempo colheitas e de primaveras. Assim, seguir pelos caminhos da vida, agradecendo a dádiva de mais um ano vivido, vivenciado.
Que a vida tenha sempre esse clima de junho. Clima de alegria, paz e muita, mas muita felicidade.


-*-



  


sexta-feira, 26 de maio de 2017

PALMAS - TO: UM INEXISTENTE MAIO AMARELO E A LUTA PELA VIDA

Foto: Reprodução - Jornal do Tocantins


A distância entre estar alegre, feliz e pensando nos dias que virão, vibrando com as recentes conquistas, celebrando a chegada de um novo dia e sonhar com dias venturosos, e estar em uma UTI, mantido por aparelhos e contando com a perícia e a dedicação dos profissionais da medicina, é mesmo muito pequena.
É uma linha muito fina e tênue, que quando é ultrapassada, traz dores, tristezas, angustia e muita incerteza.
Era apenas mais uma manhã de inicio de semana. Semana que precisava ser boa e para que isso fosse, era bom que começasse com mente e corpo sãos. E para isso, nada como ir ao belo e majestoso Parque Cesamar, na cidade de Palmas, capital do estado do Tocantins e colocar isso em prática.
A intenção de começar a semana praticando esportes, e com isso trazer disposição para enfrentar os desafios parou brusca e violentamente em um cruzamento de duas avenidas amplas, teoricamente seguras, monitoradas e bem sinalizadas da capital tocantinense.
De imediato, Genilson, farmacêutico e grande amigo, teve sua vida violentamente ceifada. Genilson Rodrigues era um cidadão de bem, pai de família jovem e alegre, responsável, correto e trabalhador e teve ali, naquele momento, a decretação irreversível da perda do direito de continuar a viver.
O motorista do carro, José Américo Rolim – meu irmão – ainda teve uma chance. A rápida e eficiente ação dos socorristas foi determinante. Segundo soube, o ambiente da tragédia era de estarrecer. Uma pessoa morta, outra gravemente ferida e três rapazes com evidentes sinais de embriaguez, segundo boletim de ocorrência da Policia Militar, perdidos e sem noção do que acabara de acontecer. Talvez ainda continuassem com o espírito de animação e alegria, conforme segundo se apurou, da festa que acabaram de sair.
Um pai de família teve sua vida ceifada. Outro, pelo que o conheço, ainda luta com todas as suas forças, apesar do coma, da respiração mecânica e do trauma neurológico, em uma UTI por permanecer vivo.
Para mim, distante do local da tragédia, foi doloroso ver imagens de servidores recolhendo os restos, pedaços do carro amarelo que pertence à meu irmão. Carro que servia para passeio e era também ferramenta de trabalho, instrumento de sobrevivência.
Falar em amarelo, estamos – ou não estamos? – na campanha “Maio Amarelo – atenção pela vida”. Bonito slogan, estampado em todos os sites, blogs e em veículos de comunicação oficiais de todo o país.
O maio amarelo na cidade de Palmas, para mim terá como símbolo os pedaços do carro que vitimou meu irmão e seu amigo Genilson. Maio Amarelo em Palmas terá como referência pedaços de um carro amarelo. E eu nunca esperava isso.
Não se trata de revolta contra quem, em tese, não tem nada a ver com a tragédia do acidente. Mas tem a ver sim, pois os equipamentos de monitoramento do cruzamento, segundo informou em entrevista o responsável pelo setor de trânsito da Prefeitura de Palmas, não funcionava. Portanto, notadamente, a campanha Maio Amarelo em Palmas, fica representada por pedaços de um carro, que em um trágico acidente, ceifou a vida de um homem e feriu gravemente outro.
Mas, a Prefeitura de Palmas não precisa se orgulhar de ser o único mau exemplo. Quem quiser, tente acessar o site “maio amarelo ponto com”.  Se conseguir, avise. Como as câmeras de monitoramento do transito de Palmas, o site também não funciona.
Restam esperanças. Ainda restam esperanças que meu irmão consiga sair desta situação. Ele que gosta tanto da vida, ama a liberdade é amigo de todos.
O Pai Eterno, Deus, Todo-poderoso tem ouvido nossas orações e sido complacente. Confiemos.
Afinal, a vida ainda está presente.


sexta-feira, 19 de maio de 2017

MEU DOLORIDO CORAÇÃO, TÃO BRASILEIRO...



A cada semana, tenho a alegria de ocupar esse espaço e escrever, a partir daquilo que está contido em meu coração, sobre reminiscências da infância, a magia dos amplos quintais da querida, saudosa e amada Fazenda Nova América, dos banhos de riacho ao fim da tarde, quando meu pai depois de um dia extenuante de trabalho na roça, ainda encontrava disposição e forças para brincar comigo e com meus irmãos, onde éramos grandes amigos em alegre folguedo.
Gosto de descrever as noites de humildes e singelos saraus, onde minha mãe declamava versos, acompanhada pelo violão dolente tocado por mãos rudes e calosas de meu pai. Também recordo com imenso carinho o colo e o amor intenso de minha mãe, compartilhado com meu pai e meus irmãos.
Hoje meu coração está em compasso de tristeza. Difícil escrever sobre alegrias, tão presentes em minha alma, vividas na infância, na adolescência, junto com a amada e depois, com a presença das filhas e recentemente, do neto querido e também muito amado. Difícil escrever sobre demonstrações cotidianas de amizade e respeito de tantos amigos que utilizando a tecnologia e a modernidade, fazem contato.
A realidade nua e crua é que o Brasil, antes o país do futuro e da esperança, celeiro do mundo, está à deriva.
Meu coração hoje sangra. Meu coração está machucado e triste. Sou como tantos brasileiros de uma geração que lutou por ideais. Lutamos por liberdade. Liberdade em suas diversas vertentes. Liberdade de expressão, liberdade de ir e vir – é, liberdade de ir e vir, algo tão corriqueiro e indispensável ao ser humano.
Lutamos por eleições diretas, por democracia, por igualdade econômica e justiça social. No meio dessa luta muitos tombarem ante baionetas ou ante balas de pistoleiros à serviço de poderosos que, para ampliarem seu poder, ceifaram vidas.
Hoje, a luta pela vida continua. E temos que combater quadrilhas comandando nossos destinos. Bandidos que utilizam expedientes vergonhosos e ilegais para manter o poder. Temos um presidente da república investigado pela polícia, os presidentes da câmara e do senado também investigados. Eles, hoje não representam o povo brasileiro, não representam o sofrido e honesto trabalhador, que todos os meses, apesar das dificuldades, paga suas contas. Isso quando não está entre os trinta milhões de desempregados, herança maldita de um partido que se dizia “dos trabalhadores”.
Tivemos durante longos anos uma quadrilha se locupletando do poder. Uma quadrilha nefasta que usando da popularidade obtida minimizou tsunamis que vinham sobre o país, fazendo acreditar que eram “marolinhas”. Ledo e desonesto engano. Eram turbilhões que não demoraram a cair sobre o Brasil.
Hoje, novamente vem à tona mais verdades. Apesar da ação célere e firme de setores da justiça e do ministério público, os ladrões do erário mantiveram ativos os esquemas de corrupção. Não se intimidaram com o braço forte da justiça, com a ação incansável de abnegados que acreditam que a justiça se fará valer. Confiavam evidentemente, na impunidade, que nunca atingiram as dinastias, as castas a que pertencem.
A cadeia deve ser o destino certo, longo e grande para esses ladrões. Ladrões de sonhos, de vidas, de ideais. Roubaram também nossas suadas conquistas. Com isso, que meu coração, assim como o coração de tantos brasileiros honestos e que batalham cotidianamente, possa voltar a acreditar no Brasil.
Mas em um Brasil livre de bandidos, de ladrões como os que nesse momento ainda decidem nossos destinos.
Que o pouco que nos resta, seja mantido, preservado. Que o país que acreditamos e que sonhamos, ao menos para as próximas gerações, possa se concretizar. À minha geração, que citam como perdida, já vai passando. Que venha um país melhor para quem for viver o futuro. O presente é de desesperança. Infelizmente. Que o país do futuro seja sem ladrões e corruptos entre os que devem defender esta terra.
É o que nos resta esperar. Ainda que seja sonho e a maioria de nossos sonhos tenham sido roubados.
E que nunca esqueçamos: somos livres. De alma e coração!




sexta-feira, 12 de maio de 2017

O SER MÃE TODOS OS DIAS...




Ao cair da noite, logo após o banho de riacho e o jantar, toda a família – papai, mamãe, meus irmãos e eu – se reunia na pequena e rústica calçada de chão batido, amparada por grossas toras de madeira, que ficava em frente à casa simples da Fazenda Nova América.
Embora ocorresse praticamente todos os dias, esse encontro era sempre um momento único, mágico, quando meus pais aproveitavam para colocar os assuntos em dia, falar dos acontecimentos nos vizinhos, do destino da colheita que estava armazenada nos paióis, quando começaria a preparação para a próxima safra, coisas assim. Enquanto isso, a noite ia se fazendo e logo, surgia no horizonte uma lua grande, imensa, cheia de beleza e encanto.
Eis que o clima pedia e o violão alguém trazia. Assim, papai se punha a dedilhar valsas e dobrados. Apesar das mãos judiadas pelo trabalho árduo e cotidiano da roça isso não era empecilho, e ele soltava sua alma, seu coração em acordes maravilhosos. Mamãe também passava declamar versos e entoar as canções que tanto gostávamos.
E eu logo sentia o cansaço bater e o sono chegar.  Cansaço de um menino que brincara durante todo o dia. Então, buscava o acalento do colo de minha mãe, onde deitava e recebia em meus cabelos seu carinho, vindos de mãos suaves e ternas. Eu me deixava enlevar naquelas canções até adormecer. Sequer percebia quando era levado por meu pai à cama simples onde dormia. Não raro parecia escutar ao longe: “como esse menino está ficando pesado”.
A vida seguiu. O tempo inexoravelmente passou e essas lembranças estão aqui em mim.  Apesar da distancia e do tempo, são muito vivas, permeando os recônditos do coração. Ainda lembro quando nas madrugadas frias de outono, no meio da noite, minha mãe se levantava e vinha ver se eu e meus irmãos estávamos bem cobertos, agasalhados e se não passávamos frio. Era cuidado, amor, carinho de mãe.
A cada ano no mês de maio, a lembrança se intensifica. O dia das mães me leva a esses momentos de pura saudade. Hoje divido a alegria desse dia com a presença da esposa, mãe de minhas filhas, da minha filha que é mãe, e também minhas irmãs e sobrinhas.
A saudade dos momentos da infância com minha querida mãe se junta á alegria do presente. Cresci em um lar onde o amor era a marca maior. Meus pais muito se amavam e faziam questão de que esse amor fosse estendido aos filhos. Isso nos tornou muito próximos, e também muito amigos. Amor e amizade de irmãos, pais, filhos.
E falar em amor, neste domingo é o dia das mães. Que possamos dar amor e carinho às mães que estão perto de nós. Caso a vida não permita um presente, uma lembrança, dê carinho na forma de um beijo, um abraço forte e demorado. Não há nada melhor que presença e atenção.
Desejamos felicidade e alegrias à nossas mamães. Não somente neste dia e neste mês de maio, mas em todos os dias da existência. Que possamos retribuir ao menos em parte o tanto que recebemos.
Que o dia das mães seja também todos os dias. Às mamães de nossa vida, muito amor e carinho. Um feliz todos os dias, às mães.





sexta-feira, 5 de maio de 2017

FLORES, CORES E SAUDADES, TÃO PRESENTES EM MAIO



O mês de maio chegou com poucas e esparsas chuvas, madrugadas amenas e dias com menor intensidade de luz. Sim, menor intensidade de luz, pois o anoitecer vem rápido, pouco depois das seis da tarde.
É interessante, mas em maio – seja nas árvores das avenidas da cidade ou nos quintais, os pássaros parecem ter saído de sua letargia da época das chuvas e, fagueiros, cantam como na primavera, ziguezagueiam pra lá e pra cá, como que a aproveitar o frescor e a beleza das manhãs de outono.
As famosas chuvas de maio, por aqui foram poucas. Deram o ar da graça longe, distante. Percebe-se que estão presentes, por causas das nuvens negras no horizonte, mas em meu bairro, foram poucas.  A previsão do tempo informa que elas ainda virão, mas cada vez mais raras, até sumirem de vez. Talvez voltem em junho ou agosto, na famosa e importante chuva das flores.
E por falar em flores, percebo nas mangueiras do quintal imensos cachos com seu perfume característico, que atrai inúmeros insetos que ficam circundando-os. E esses cachos de flores, em meio às frutas temporãs que fazem a alegria dos pássaros são a certeza de que em breve, nova safra, nova temporada de mangas, doces e sempre deliciosas.
Maio é para mim um mês muito especial. É quando o clima tem a ver com o que a estação do ano, o outono, representa. É em Maio que temos o retorno das manhãs de sol brilhante que trazem até nós aquele ar de cidade do interior, transcendendo paz e harmonia em todas as horas do dia. E maio é o mês em que comemoro bodas. E neste ano, de madrepérola. 31 anos.
Pra mim, maio tem datas sempre muito especiais. No seu segundo domingo é o dia das mães. Não te como deixar de se emocionar ao recordar os carinhos e o cuidado de minha mãe durante minha vida e o cuidado das mães que me cercam – a amada, que é mãe das minhas filhas e avó do meu neto, minhas irmãs, mães de amados sobrinhos e sobrinhas que também são mães, e tantas outras mães que, ao longo da vida, amei e fui amado por elas.
Outra data a celebrar, é o dia 24. 24 de maio era quando comemorávamos o aniversário de min ha querida e saudosa mãe Elvira Rolim. No mês das mães, minha mãe era aniversariante.
Era quando toda a família se reunia. Irmãos e irmãs, cunhados e cunhada, sobrinhos e sobrinhas, e amigos da família para primeiro, um almoço onde todos davam sua parcela de colaboração. A mim cabia fazer o churrasco, ou quando o cardápio era diferente, fazer o prato especial no fogão à lenha.
Era um dia de alegria e confraternização. E o violão “alguém trazia” e era tocado por meu pai, meu irmão e por mim. Tocávamos acompanhados por muitas vozes que entoavam canções que nos acompanharam desde a infância. O ponto alto era quando alguém pedia e começava duas canções muito marcantes: “Utopia” e “Canção da família”, ambas do Padre Zezinho. Momento de abraços, de lágrimas de emoção e de alegria.
Logo todos almoçavam e no meio da tarde era a alegria da meninada: hora do parabéns e de cortar o bolo, que  vinha acompanhado de brigadeiros, doces e bombons.
Hoje, minha queria mãe não está mais entre nós. Mas o mês de maio me traz essas lembranças e o presente é sempre maravilhoso. Como as etapas da vida sempre se cumprem, viver o presente, guardar nos recônditos do coração as saudades.

Na felicidade de viver mais um mês de maio, que antecede junho. Que este maio seja como sempre, de bênçãos e bem aventuranças.  De saudades e, também de muitas alegrias. 






terça-feira, 18 de abril de 2017

BOREAL







Ante luzes
Diante de mim
Procuro
 Ansioso
A luz
Do teu sorriso...

Ao lado de 
Milhões de
Intensos leds,
 Quero me encontrar
Em tua poesia, e
Me ver em versos
Em teu coração...

Eis que encontro
luz de
Teu sorriso
Que se apresenta
Única
Diante de mim...
Ante leds,
Milhões de leds...

-*-



#Deumpoetaqualquer

sábado, 8 de abril de 2017

EU, RIOBALDO...VOCÊ, DIADORIM!




Olhos no mar
De Minas,
De gerais.
Sorriso de céu!
Eu Riobaldo
Você, Diadorim.
Eu em você
Você distante
Aqui, em mim.

O coração,
Em tropel
Por
Veredas,
Nesse sertão...
Dentro do peito,
Sendas,
Insondáveis...

Apenas e
Tão somente
Conhecidas
Por ti
E por mim.
Eu Riobaldo,
Você, Diadorim!

Olhar de céu
Olhos...
Verdes veredas
Doce refrigério...
Tua boca,
Pôr do sol, carmim;
Eu, Riobaldo
Você, Diadorim...
Eu em você
Você sempre
Aqui, em mim.

O coração,
Em tropel
Por
Veredas de um
Sertão sem fim
Dentro do peito.
Sendas
Insondáveis...

Apenas e
Tão somente
Conhecidas
Por ti
E por mim.
Eu, Riobaldo,
Você, Diadorim!





sexta-feira, 7 de abril de 2017

EM DIAS E NOITES DE OUTONO


Imagem retirada da internet


O outono chegou e como sempre, alternando dias quentes com chuvas fortes e repentinas, quase sempre ao final da tarde. Às vezes, a chuva vem à noite, trazendo acalento e quietude. Não raro, se estende pela madrugada e ao alvorecer, tem-se uma bela manhã de sol, clima ameno, suave, o orvalho cobrindo árvores, plantas e pequenas moitas de capim, verdes nessa época, que ocupam os terrenos baldios da cidade.
O encanto e o enlevo da alma ficam por aí. Ao ligar o rádio para ouvir noticias matutinas ou acessar portais via internet, vem-se um turbilhão de assuntos, em sua maioria, desalentadores e tristes.
O país está à deriva. Governado por um presidente que quer porque quer aprovar leis que vão contra direitos adquiridos dos cidadãos, com a desculpa de zerar défits e atender aos mercados, que se locupletam com a especulação financeira e a leniência das autoridades.
Também criminosos contumazes travestidos de políticos – muitos detentores de  mandato parlamentar, que vergonhosamente atentam contra tudo aquilo que é bom e honesto. Eles, detentores da confiança do povo através do voto, roubam, conspiram e vilipendiam o país, composto em sua imensa maioria por pessoas honestas e trabalhadoras, que ainda assim têm orgulho de ser brasileiros.
Agora os senhores políticos, a maioria deles indiciados por corrupção, peculato, roubo do erário e outras modalidades criminosas, com medo de perderem o mandato ao não serem reeleitos – o que esperamos – querem impor ao país uma tal de lista fechada, onde os caciques, donos dos partidos políticos, como chefes de facção criminosa, indicarão seus parceiros preferidos.
Lutamos árdua e dificilmente para poder votar em quem quisermos. Lutamos contra uma ditadura militar durante 21 nos, mais o tempo que o Sr. José Sarney, eleito por via indireta, sendo vice de Tancredo Neves, assumiu a presidência da república por cinco anos.
A democracia no país, regime por mais imperfeito que seja, é um patrimônio de toda a sociedade e está em perigo. Não podemos aceitar que políticos criminosos, – como o Sr. Renan Calheiros, réu e indiciado por 12 vezes – e que contam com a leniência e bondade de tribunais que deveriam julgá-los, de maneira vergonhosa e repentina, acabem com o nosso sagrado direito de votar em quem quisermos. Pensar que enquanto políticos roubam bilhões, falta gaze e dipirona nos postos de saúde da rede pública.
O povo brasileiro, o cidadão de bem, honesto e trabalhador, que diariamente luta pela sobrevivência não pode aceitar que essa corja mantenha-se no poder à custa de manobras escusas.
E em outro campo, as noticias que chegam pelo rádio dão conta que o mundo não vai bem. Na insana e inaceitável guerra da Síria, crianças inocentes, homens e mulheres morreram atingidos por armas químicas, notadamente o letal e cruel gás Sarin. A sensação é de indignação, tristeza e decepção com o ser humano.
E para piorar, na manhã de hoje, acordo com a notícia de retaliação dos poderosos senhores da guerra, lançando seus precisos e poderosos misseis contra a Síria.
O mundo poderia ser bem melhor. A esperança nos leva a sonhar que, talvez por um único momento de um dia esses senhores da guerra, sempre imersos em seus ideais assassinos, deixassem por alguns instantes de lado o ódio e percebessem a beleza de uma manhã de outono. Quem sabe, mudariam seus conceitos. E a paz se tornaria mais fácil.
Felizmente temos a beleza das manhãs e a força da poesia, que diariamente nos alimenta e acalenta. Apesar de tudo, apesar dos senhores da guerra.
Em dias e noites de outono.


sexta-feira, 24 de março de 2017

DAS VIAGENS DE CRIANÇA, ATRAVÉS DOS LIVROS




Dia desses, soube de um menino que, enquanto aguarda sua mamãe sair do trabalho em uma escola estadual de Goiânia, fica sob os cuidados da pessoa que cuida da biblioteca. É por pouco tempo, porém, o suficiente para ele viajar pelos caminhos belos e coloridos de um mundo de livros que estão à sua frente, em estantes organizadas e enfileiradas.
Aos seis anos de idade, ele estuda em uma pequena escola que fica perto do trabalho de sua mãe. E o interessante é que ele já está aprendendo a ler, conseguindo identificar símbolos até pouco tempo estranhos, e assim formar as palavras. Entende o significado de palavras simples, como é normal em sua idade.
E viaja pelos livros, principalmente os de desenho e história infantil. Mas seus preferidos são os atlas geográficos, que mostram mapas do mundo, onde  aos poucos vai entendendo como é e como funciona a geografia de nosso planeta. Em seu pensamento de criança, certamente vem a curiosidade de saber como são as crianças de países de nomes estranhos, como elas brincam, como vivem e quais suas diversões prediletas.
Um dia desses, ele encontrou um manual que ensinava a construir instrumentos musicais a partir de sucatas e materiais recicláveis. E se encantou, se imaginou fazendo muitos  instrumentos, onde poderia chamar seus vizinhos, seus colegas de escola e juntos, formarem uma grande orquestra como as que ele vê nos programas de televisão.
Só acha sem graça os livros sem figuras, sem fotografias, apenas com palavras. Pensa que ler aquilo tudo, deve ser muito sem graça. E sempre pergunta à Professora que cuida da biblioteca se chegaram livros novos.
Quando a resposta é não, ele pega seu celular e vai brincar, como todo menino de sua geração, com jogos que o aparelhinho oferece. Mas, logo se entedia e volta a procurar pelos seus amigos livros.
Ao saber da história do pequeno menino, curioso e ansioso por saber das coisas do mundo, da vida, eu vou à minha infância. Quando tinha sua idade eu frequentava uma biblioteca e me encantava com tudo aquilo que os livros me traziam.
Como já sabia ler, eu devorava com avidez as aventuras de Júlio Verne, os gibis Disney e aos poucos, ia entendendo o mundo da literatura de José Mauro de Vasconcelos, Alencar, Jorge Amado e outros que me fizeram interessar cada vez mais pelo mundo encantado dos livros.
Fico feliz e admirado ao ver o menino, que em um mundo dominado pela tecnologia, gosta, se diverte e viaja em sua imaginação através de livros e atlas geográficos. E consegue tornar natural e harmoniosa a convivência dos livros com os jogos de seu celular.
Um dia afirmaram que um país se faz com pessoas honradas, homens e mulheres, e livros. E como estamos precisando de pessoas corretas, do bem.
Fico feliz ao saber do pequeno menino que se encontra diariamente com o mundo mágico e encantado dos livros. Me traz uma certeza: que a vida pode mesmo ser muito melhor!




  

sexta-feira, 17 de março de 2017

MENINO GABRIEL: FELIZ ANIVERSÁRIO





Sempre que o menino Gabriel chega por aqui, trazido pelos pais, ainda dentro do carro, nos brinda com seu sorriso marcante, encantador. Sorriso de criança pura, demonstrando o amor e alegria de estar novamente conosco.
Estende seus pequenos braços em minha direção e vem, com alegria, com carinho para o abraço apertado, retribuindo com leves toques através das pequeninas mãos, sem tirar o sorriso do rostinho. E Gabriel se sente feliz com o aconchego.
Menino Gabriel, anjo Gabriel, anjo anunciado, hoje você faz seu primeiro aniversário. Um ano de muita felicidade, onde tivemos alguns momentos de preocupação – como é natural na vida - mas sobretudo, na quase totalidade do tempo momentos de ternura e encanto.
É impossível não lembrar – e parece que foi ontem – quando soubemos que você viria. Durante os nove meses, a expectativa era muita, muitos mimos, cuidados, roupinhas, avós e tias aqui e ali se preocupando.
Até que finalmente você chegou, em um inicio de noite quente de verão. Na pequena face dois olhinhos negros, de intenso brilho. E chegou calmo, como a querer reconhecer o ambiente estranho que se apresentara a você, diferente do conforto e da segurança do útero materno. Mas a calma durou pouco, pois o berreiro veio logo em seguida.
Depois desses primeiros momentos, você passou a encantar a cada dia mais nossa vida. Os domingos, quando temos a certeza que você vem nos visitar, agora demoram a chegar. A semana não passa tão rápido, ante a expectativa que temos que você venha nos trazer seu sorriso.
Você já ensaia seus primeiros passos. Ainda relutante, com certo medo e se amparando nos móveis já anda por toda a casa. Adora ficar próximo à porta da sala, onde sempre se postam as duas cadelinhas que você tanto gosta. Ah, que vontade você tem de se misturar a elas e puxar as orelhas, ou simplesmente acariciar, como tantas vezes fez sua mamãe como saudoso cãozinho Muleke.
E nesse seu primeiro aninho de vida, como foi bom ter você sempre por perto e poder acompanhar muitos de seus momentos: os primeiros sorrisos, o balbuciar das primeiras expressões, tocar violão para você, entoando a canção “do pato”.
E em noite mágica, te levar até a frente da casa para apreciar a beleza da lua cheia, dizendo “olá Tetéia”.   Perceber que você se encantava com os mistérios dessa lua, dessa luz brilhante no céu.
Menino anjo Gabriel, parabéns pelo primeiro aninho de vida. O primeiro de muitos e muitos aniversários que passaremos juntos. E rogamos ao Papai do Céu, proteção e amparo à sua vida.
Como te amamos. E amaremos sempre! Somos muito felizes com sua presença entre nós! Feliz aniversário, menino Gabriel!






sábado, 11 de março de 2017

QUASE MADRUGADA...





Em quase madrugada,
Chegas linda,
Como lua cheia
Em noite de verão.

E vens de encontro
À minha saudade.
Trazendo no sorriso
O encanto que
Embala um coração...

Então a noite
Se torna mágica,
Encantada,
Feito aconchego
De barulho de
Chuva calma,
Suavidade de brisa,
Ou leveza de
Gotas de orvalho
Douradas pela luz
Do alvorecer...

Te vejo em poemas,
Me vejo em canções...
Canções
De amor!

sexta-feira, 10 de março de 2017

CHICO AAFA: POETA CANTADOR DAS COISAS DO CORAÇÃO DO BRASIL


Foto: divulgação


Conheci Chico Aafa nos anos 1990 em uma manhã quente de primavera, quando um grupo de moradores do Setor Faiçalville, bairro da região sudoeste de Goiânia, se reuniu em torno da defesa do Bosque - de arvores centenárias e belas. À época, o então prefeito de Goiânia queria “doar” a área à construtoras e à uma família, mas devido à pressão da comunidade, isso que acabou não acontecendo. Nessa manhã de primavera, n os reunimos e promovemos um show, que por intercessão de amigos, teve a presença marcante de Chico Aafa. A comunidade o agradecerá sempre por isso.
A vida se encarregou de nos colocar sempre perto um do outro. Seja nos corredores da Rádio Universitária, quando da inauguração do auditório ou nos estúdios ou em andanças pelos shows, na estrada da vida, onde ele cumpre a sina descrita por Milton e Brant, que “o artista sempre vai até onde o povo está”.
Foi assim que nos encontramos no premiado Fica – Festival de Cinema e Vídeo Ambiental, na cidade de Goiás em 2015, quando ele, sempre ao lado de sua amada, se apresentou acompanhado de músicos competentes e consagrados, como o maestro Luiz Chaffin.
Já tive a felicidade de entrevistar Chico Aafa algumas vezes. A primeira, em um extinto programa que comandei na TV Capital, canal 32, onde uma canção composta por ele era o tema de abertura do programa.
Depois, na Rádio 730, a antiga Rádio Clube de Goiânia, em um espaço de duas horas, em que Chico Aafa cantou com seu violão, falou de sua vida, de sua rica trajetória musical e artística. Falou das andanças pelo Brasil, das lutas em defesa da música brasileira e de suas origens. E falou do menino que, ainda criança, veio para Goiás, acompanhado pelos pais.  
 Ele é reconhecido como o melhor e mais completo interprete do compositor baiano Elomar  Fiqueira de Melo, mas esse é apenas um detalhe – importante claro – da vida e da obra artística de Chico Aafa.
Dono de uma voz privilegiada de contra tenor, interpreta canções próprias, como a bela “Amo-te”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, como a emocionante “A morte do vaqueiro”, ou canções gravadas pro Jessé, como “Voa Liberdade”. A bela e emblemática “Rosa de Hiroxima”, de Vinicius de Moraes e Garoto ganha contornos especiais, bem como “Planeta água”, de Guilherme Arantes e “Rosa”, clássica canção do mestre Pixinguinha.
Canções de Elomar, como “Arrumação” ou “Campo Branco” estão eternizadas na voz de Chico Aafa.
Obrigado, Poeta Chico Aafa. Prometo que não vai demorar muito, colocarei letra em uma de suas melodias (lembra disso, chico?). Ah, se eu tivesse competência...
Chico Aafa com sua elevada sensibilidade vê poesia e lirismo onde nós, pobre mortais, nunca conseguiremos enxergar.
Assim, vamos viajando em suas canções.  Por onde eu for, irei sob gotas coloridas e perfumadas da chuva das flores, em busca do cio das águas. Talvez, encontre em sertana cantares a cantada do sertanez de Elomar, e assim, terei a certeza que cantam em si as cigarras.
A bença, Poeta cantador Chico Aafa. Feliz aniversário!



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O MENINO DA RUA SÃO PEDRO




O menino da Rua São Pedro está volta ao lugar de onde seu coração nunca saiu. Aquelas calçadas em frente às casas, os paralelepípedos - que o tempo se encarregou de torna-los lisos - de um negror quase brilhante estão no mesmo lugar, como a querer saber o porquê do menino estar por tanto tempo tão distante, sem pisá-los com os pés descalços, como a acariciá-los.
E onde estará a velha e antiga bola de meia, onde o menino, juntamente com seus amigos vizinhos, se punha a correr atrás, em alegre e ruidosa brincadeira? E aquele céu azul de mês de abril, em que soltavam pipas, que sumiam no horizonte, levando às alturas os sonhos adolescentes?
A Rua são Pedro hoje está silenciosa. Silenciosa, a ponto de permitir ouvir-se somente o bater apressado do coração do menino que volta no tempo. As flores dos jardins em frente às casas parecem ser as mesmas. As cores desbotadas das fachadas das casas simples, não mudaram. Talvez os quintais ainda sejam os mesmos e nas varandas dos fundos das casas, e as velhas senhoras matriarcas ainda se ponham a falar de dificuldades, de  saudades e desejos de bem aventurança.
Nos quintais, as arvores antigas ainda estarão lá... A velha mangueira, generosa e sempre com a sombra amiga oferecia flores, frutos e abrigo para os pássaros. Os pés de seriguela, o imenso e imponente pé de cajá rivalizava com o pé de jenipapo em pujança, confrontado com o belo abacateiro. Era um tempo em que havia quintais...
De volta á rua, o menino desvia o olhar e volta a face para a velha construção, de portas de madeira, com pintura apagada e que se abriam para a freguesia entrar no velho armazém. O armazém da Rua São Pedro. Agora, de portas fechadas. Mas o menino ainda se lembra da velha caderneta, em que se anotavam as compras vendidas à prazo, e de onde ele um dia pegou um pedaço de folha branca e se atreveu a fazer um poema, buscado no coração, para aquela menina linda, que o fazia sonhar...
Atrás dos balcões marcados pelo tempo do velho armazém, a saudade refaz a imagem da saudade do velho patriarca, de mãos grossas e dedos longos, que do alto de sua sabedoria se punha aconselhar os mais jovens - para que se tornassem homens honrados, mas sem jamais perder princípios com generosidade e solidariedade.
Ah, Rua São Pedro. Seu menino está de volta. Está de volta, caminhando descalço pelas suas pedras lisas, com o coração imerso na saudade e com os olhos marejados. Coração que nunca saiu dali, nunca deixou aquele lugar. Não obstante as asas da Pan Air o terem levado para outros cantos, para outras terras, onde o menino tornou-se homem, tornou pai e avô. Mas continua a ser o menino. O menino que ao olhar os arredores de sua cidade teve a certeza que poderia remover montanhas russas, realizando seus sonhos.
Na Rua São Pedro, o menino um dia escreveu poemas para a amada, declamado e difundido em velhas radiadoras, unidas pelo fio da esperança.
As ondas do rádio se encarregaram de espalhar ainda mais poesia e sentimentos. E assim, a amada trouxe aconchego e ternura e assim, ao lado do menino construiu castelos de sonhos alicerçados em realidades.
A Rua São Pedro está lá. Recebe o menino com suas pedras e com seu encanto. O menino da Rua São Pedro está lá hoje, em velhas pedras de saudade!