sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

COLHEITAS NA FAZENDA NOVA AMÉRICA




A semana na Fazenda Nova América foi movimentada. Começou com a colheita de mandioca na roça, onde meu tio Marcelino com uma enxada e com os braços fortes arrancava as raízes e deixava-as para que um senhor, que ajudava meu pai eventualmente, separasse as raízes e as deixasse em um pequeno monte, onde meu pai as recolhia e enchia os jacás, que eram conduzidos pelo velho e manso cavalo.
Daí, levava para a “casa de farinha”, situada à margem da estrada que ia para a casa de meu avô, onde varias mulheres descascavam e deixavam-nas prontas para serem moídas na barulhenta máquina, tocada à mão.
Era um serviço pesado e difícil. Depois de moída, a massa era colocada em uma espécie de rede, de onde era retirada a água, que resultava no polvilho.
A seguir era colocada em uma grande prensa, que terminava o serviço de retirada da agua. Ficava ali de um dia para outro, quando enfim seguia para a casa da fazenda, onde meu pai passava dois dias torrando aquilo que seria uma farinha branquinha e bem feita.
Foram cerca de quatro dias nessa labuta. depois de torrada a farinha e seco o polvilho, eram acondicionados em sacos branco.. O trabalho valera à pena e no sábado, quando o jipe do Zé Tucano aportou na sede da fazenda, saiu pesado e cheio. Percebi no semblante de meu pai uma sensação de dever cumprido, de obrigação feita.
Agora, a movimentação era no terreiro. Era divertido ver aquele número imenso de galinhas e frangos, sendo atraídos pelo milho farto jogado. Os maiores e mais bonitos eram separados em uma casinha fechada que havia ali perto, para que fossem levados para a cidade. Ouvi minha mãe dizer: “esse não vai, quero deixa-lo para galo”.
À noite, o tradicional encontro da família na porta da casa, com meu pai e suas canções ao violão e minha mãe a declamar poemas.
No outro dia, domingo, bem cedinho minha mãe me chamou para o café da manhã, composto de tapioca com manteiga, leite e os deliciosos biscoitos de nata, que ela mesmo fazia. Mandou que eu me arrumasse, pois iriamos até a pequena cidade, ali pertinho, para assistirmos à missa e visitarmos umas pessoas.
Eu me arrumei mais ou menos, mas fui ajudado por uma de minhas irmãs, que com carinho e muito cuidado, me ajudou a vestir uma roupinha limpinha, penteou meus cabelos e ainda me deu um beijo carinhoso.
Fomos em uma grande comitiva, montados a cavalo. O burrico do meu tio Marcelino levava dois jacás cheios de frangos.  Papai e eu íamos no manso e obediente alazão. Eu todo cheio de si na lua da sela, sob os cuidados de meu pai.
Chegando à cidade, entregamos os frangos na pensão de Dona Altina e fomos para a igreja agradecer ao Senhor a fartura da colheita, a saúde da família e a dádiva e a alegria de estarmos ali. Frutos do trabalho árduo, os produtos da fazenda, garantiriam a sobrevivência da família.
Depois da missa, minha mãe e minhas irmãs foram visitar alguns familiares, e eu acompanhei meu pai ali pelo comércio, onde ele recebeu o valor da venda da farinha e do polvilho, e pagou alguns compromissos no armazém do Felão e do Seu Jovino. Nos reunimos e voltamos para a fazenda.
Foi um festivo e alegre almoço de domingo, com frango caipira, arroz com açafrão, macarrão e de sobremesa, rapadura novinha.
 Assim seguia a vida na Fazenda Nova América. Embora pouco tivéssemos, muito éramos felizes. O amor, a dedicação e o carinho mútuo eram o que nos movia. E trazia felicidade. Imensa felicidade.




sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A CASA NOVA DA FAZENDA




Finalmente, a nova morada que meu pai construiu ficou pronta. Uma casa simples, feita de madeira e barro, que eram a tecnologia e os materiais disponíveis naqueles tempos difíceis.
Era bem diferente da anterior, que construíra quando chegaram naquelas paragens. Maior, possuía mais cômodos e tinha em anexo um local grande que meu pai apelidara “casa de farinha”, onde havia um imenso recipiente de folha de zinco, feito pelas mãos hábeis de um artesão.
Do lado de fora foi instalado um pequeno engenho de moer cana, feito de madeira. Poderia ser movido por tração animal ou por braços fortes, dependendo do tanto de cana que se fosse moer. Nada mal poder saborear uma garapa fresquinha, tirada na hora para afastar o calor e matar a sede depois de um dia intenso de trabalho,
Um pouco mais afastado, um cercado de lascas de madeira cuidadosamente fixadas lado a lado. Ali seria um o mangueiro, para criação de porcos.  Pertinho, goiabeiras e abacateiros quase em ponto de florada e as mangueiras plantadas há pouco, pequenas ainda. Logo, seria um pomar grande, cheio de frutos deliciosos e com sombra à vontade.
Mas o que me encantara foram as telhas de barro, feitas por meu pai. Eram de um vermelho vivo e intenso, da cor da terra. De longe se podia avista-las e davam colorido especial ao lugar.
Antes de mudar meu pai construiu alguns móveis simples, feitos de forma rudimentar, tudo com zelo, carinho e cuidado.
Chegado o dia, primeiro vieram as criações. Galinhas, alguns patos e uma legião de porcos, trazidos em uma carroça feita especialmente para isso. Tudo observado pelos fieis cães “Veludo e Rompe-ferro” e pela cadela Jaguar – que segundo meu pai, só faltava falar.
No meio daquela manhã de sol brilhante e clima quente o fogão novinho, coberto por barro branco começou a ser usado. Dali sairia em breve arroz, feijão e costela de vaca, deliciosos. Tudo feito com um tempero único: carinho e amor de minha mãe.
O tempo passou, as primeiras chuvas vieram, juntamente com o plantio da roça e as colheitas. A casa resistiu bem e foi a segura moradia da família, até que deixássemos a Fazenda Nova América.
Ainda estão vivas em mim, em meu coração as lembranças desse dia. Do primeiro dia e da primeira noite na morada simples, feita pelos braços de meu pai.
No inicio da noite, nos postamos de joelhos diante do pequeno oratório da sala, agradecendo ao criador a dádiva recebida.
Após o jantar, o “violão alguém trouxe” e sob o olhar atento das crianças e o sorriso de encanto de minha mãe, papai dedilhou aquelas cordas mágicas e delas, retirou com o coração acordes e canções.
Em noite de lua, cheia de felicidade e sons de violão, com amor, carinho e alegria, era assim a inesquecível Fazenda Nova América.




sábado, 14 de fevereiro de 2015

AS FLORES, E AS CORES DA SOLIDARIEDADE




A primavera se foi. Levou consigo o clima suave, de manhãs e tardes amenas e fagueiras. E eis que chegou o verão. Verão de pouca chuva, de dias longos e muito calor.
Mas, as flores continuam a embelezar minha cidade. Vejo que após a beleza dos ipês-rosa, das acácias que enfeitavam e emolduravam a paisagem das avenidas, vieram os ipês-amarelos, os flamboyants e mais recentemente, as quaresmeiras.
Os flamboyants enfeitam e encantam as avenidas. Em tons vivos e fortes de vermelho, alaranjado, amarelo, e outras cores que somente a natureza sabe dizer o tom, trazem beleza que se acentua com o deslizar dos pingos de chuva sobre o vidro do carro.
A chuva, depois de um veranico longo, dá sinais de ter vindo pra ficar. E parece que incentivou os flamboyants a colocarem cachos e mais cachos de flores únicas.
As manhãs de sol tornaram-se belas, enquanto o céu cheio de nuvens indica que teremos chuva no período da tarde. Chuvas que às vezes vem forte, com muita enxurrada alagando as ruas. E a resposta da mãe-natureza àquilo que o homem faz com ela.
E em uma dessas manhãs de verão, no decorrer da semana, uma cena me chamou a atenção. Andando pelas ruas de Goiânia, mais precisamente na região do Parque Amazônia, próximo a uma rotatória vejo um senhor de brancas cãs, a empurrar uma pesada carroça, cheia de plásticos e papeis para reciclagem.
Me condoí daquela situação. Um senhor já de idade, que aparentava menos força do que aquela carga exigia. Porém, seu rosto embora marcado e castigado pelos anos, demonstrava placidez, serenidade. Não trazia ares de revolta ou desassossego. Seguia seu mister, sua jornada puxando a pesada e difícil carroça.
Observei que ele parou em frente a um imponente edifício e passou a mexer nos entulhos. De repente, um funcionário uniformizado daquele prédio vem até ele e traz uma garrafinha de água, o que parecia ser uma roupa usada e alguns embrulhos que imaginei fossem alimentos. Ele agradeceu efusivamente e percebi que ficou mais feliz ainda quando o rapaz depois de ajudar a colocar em sua carroça os recicláveis, deu uma forcinha na saída da carroça, para que ele seguisse em frente.
Confesso que fiquei emocionado com a cena. E me pus a pensar: de que vale a beleza de tantas flores, de tantos edifícios bonitos e confortáveis, de carros luxuosos pelas floridas ruas, sem solidariedade?
O rapaz de uniforme deu esse exemplo. Exemplo de solidariedade e amor ao próximo. Conversou, brincou e por instantes demonstrou ser amigo, independente da condição desse senhor que em sua jornada, buscava a sobrevivência, a garantia de pão em sua mesa, o alimento para a família.
Continuei meu caminho, mas durante todo o dia fiquei a recordar o que vi. E me senti melhor. Afinal, se existem flores na bela e encantadora Goiânia, existe acima de tudo solidariedade e amizade.
Que nos é tão cara e importante. Que nestes dias de feriado, de descanso, possamos refletir sobre o partilhar do amor e da fraternidade. Assim, nosso mundo, nossa vida, nossa cidade serão bem melhores.

Com flores, e as cores da solidariedade.




domingo, 8 de fevereiro de 2015

BAILARINA




Quanta graça...
Saudou a manhã de luz,
Ao som da orquestra,
De pássaros...

E logo depois,
Sob luzes coloridas,
Se apresentou
No palco da vida.

Bailarina veio de longe...
Depois da primavera,
Coloriu o verão.
Em suave bailado
Permitiu ao coração
Saudades, amores,
Paixões...


Por quem dança?
Porque dança,
E encanta
Sob luzes
Magicas do palco
Da vida...

Bailarina:
Perfeição de movimentos...
No ir e vir de brisa suave,
A magia de flores
Bailarinas!


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

DA POESIA, DA IRMÃ-CHUVA...




Nos últimos dias, ou nos últimos meses a palavra mais pronunciada e o bem mais desejado foi a chuva. O calor intenso que nos acompanhava por todo o dia, invadia madrugadas longas e era companhia constante. Assunto que tomou conta dos noticiários do radio, da TV e dos jornais e motivo de debates nas redes sociais.
A mãe natureza, há anos vem dando seus gritos de dor, em seus estertores. A agua, até então pouco observada e tida como algo tão comum e cotidiana como o ar que respiramos, tem se tornado um bem raro, e as grandes cidades começam a sentir sua falta.
Impossível pensar como as grandes represas, os grandes reservatórios poderiam chegar ao ponto que chegaram. E de forma tão rápida, abrupta. E ao contrario do que foi preconizado na canção popular, o mar começou a virar sertão.
Felizmente, nos últimos dias, ainda que de forma tímida, a irmã-chuva deu o ar da graça. Não o suficiente para que torne os reservatórios novamente plenos e cheios, mas ao menos o calor impiedoso que nos afligia amenizou. Os dias e as noites se tornaram mais confortáveis.
E assim como a água, a poesia me andou fugidia, escassa, longe de mim. Custei a reencontrar o veio poético, o caminho das flores e da inspiração, tão presentes nos últimos tempos da minha vida. Mas, de mansinho e sem alarde, encontrei dentro do coração o que tanto me fez falta.
A poesia para mim é necessária, importante, vital. Refrigério para a alma que nutre o coração e acalenta o viver. Começa ao amanhecer, nas ultimas sombras da madrugada e com as primeiras cores do alvorecer.
Está no canto dos pássaros, nas luzes do horizonte, no encanto de uma manhã. No olhar e no sorriso da amada, em seu bom dia, no café forte e quente que degustamos, quando nos permitimos estar juntos. O meu, forte e com pouco açúcar, e o dela, um pouco mais adocicado.
E ainda na manhã, perceber a poesia nas flores - rosas, orquídeas, lírios e nas pequenas e encantadores bailarinas cuja brisa torna seu bailado ainda mais cheio de encantos.
Com tudo isso, a alma e o coração ficam plenos. É hora de partir para um novo dia, para uma nova batalha e um novo percurso. A luta pela sobrevivência.
No caminho, entre pensamentos, a alegria da presença da irmã-chuva que em pequenos pingos toca leve e suavemente o para-brisa do carro. É a renovação da vida, a volta da alegra e da felicidade. Que coincide com a volta da poesia.

Assim, seja bem vinda, irmã-chuva. Seja bem vinda, Poesia!