sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

CRÔNICA DE ANO BOM

FELIZ 2012
        

            Quase não notamos, mas como passou rápido. O ano chega ao fim daqui a pouco. Em algumas horas estaremos no ano novo.
           Penso que mesmo sem perceber todos param um pouco, refletem o ano que passou e planejam novas ações, no sentido de alcançar o que ainda não alcançaram. Das coisas positivas é manter e melhorar o que foi conquistado no ano que finda. Um círculo venturoso, onde a cada doze meses nos permitimos avaliar e reavaliar nossos passos, nossos caminhos.
                Ano novo, vida nova? Talvez sim, talvez não. Nenhuma mudança significativa ou especial. De minha parte, quero continuar com o compromisso desse nosso encontro. Continuar a buscar nos recônditos da alma e do coração inspiração para a crônica da semana.
                Nesse ano que está por acabar tantas vezes estivemos juntos. Confesso que por diversas vezes me emocionei ao escrever algumas simples palavras. Palavras que permitiram que nos reencontrássemos com a saudade, com recordações e vivências de infância, excertos de momentos guardados no âmago do coração. Nostalgia que às vezes se transformou em pura emoção. Eu sempre procuro escrever com o coração, pensando na pessoa que, distante daqui, seja na cidade, na fazenda - ao pé do rádio - ou pela internet, ouve e permanece atenta à mensagem contida na crônica. Sendo assim, tudo farei para continuar a merecer o prestigio e a atenção dos queridos amigos.
                Ao ver que o ano está se findando, volto no tempo e recordo uma frase, que sempre era dita e redita por meu saudoso pai: “a vida passa muito rápido”. E como passa. Voa à velocidade incomensurável da luz. Sem percebermos, corre diante dos olhos, contida na nossa rotina diária.
                Ainda ecoam os votos de Feliz Natal e estão presentes os de Feliz Ano Novo. Gosto das mensagens e das felicitações, que sempre trazem otimismo e desejos de felicidade. Desejos de saúde, paz, harmonia e prosperidade. Parecem até repetitivas, mas nosso coração espera sempre ouvir isso ao fim de cada jornada, de cada ano. Creio que renova tudo, reafirma as esperança e traz a quase certeza que serão realizadas.
                Ao circular pelas ruas e avenidas consigo ver em cada rosto um ar de fraternidade, de alegria e consideração ao próximo. Aquele semblante carregado, tão comum no dia-a-dia, parece ter se dissipado na beleza das luzes coloridas que decoram nossa bela cidade.
Um catador de recicláveis, mesmo fatigado pelo peso de sua carroça cheia, pára ao lado dos carros e manifesta aos motoristas sua mensagem de feliz ano novo. Sinal que a fraternidade independe de classe ou posição social.
                Quem em 2012 estejamos juntos. Colhendo aquilo que plantarmos. E que a colheita seja rica em alegria, saúde, harmonia, paz e prosperidade.  Que todos possam viver a graça de um FELIZ ANO NOVO.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

UMA HISTÓRIA DE NATAL

             Em uma tarde quase chuvosa dessa semana, ao chegar em casa me deparo com o amigo Elias, funcionário de um hipermercado da cidade a me aguardar na porta de casa. Depois de cumprimentá-lo, como ele merece, afinal, é considerado um irmão, me vem a solicitação: se eu poderia ir junto com ele levar uma cesta de alimentos e brinquedos a uma família, em um bairro da periferia, na vizinha Aparecida de Goiânia.
                Em sendo outra pessoa, até que poderia me furtar a tal missão, porém sendo o amigo Elias, me senti na obrigação de levar a cabo a empreitada, não obstante o cansaço do dia, afinal a companheiro e amigo não se nega um favor.
                Depois de embarcarmos a carga na pequena pick-up, seguimos rumo ao sul de Goiânia, norte da vizinha Aparecida. Demoramos um pouco a chegar.
                Não foi fácil encontrar o local que buscávamos. Vira daqui, vira dali, segue em frente, o endereço não batia perguntamos em um ou outro estabelecimento, indagando pelo nome da pessoa, certo é que enfim, logramos por achar a tal casa onde deveríamos entregar a cesta e os presentes.
                O que deu origem a esta entrega é um fato interessante: os funcionários do hipermercado onde Elias trabalha, acharam por bem fazer um ato de caridade. Buscaram entre si indicações de famílias que poderiam receber cestas de natal, doadas pelos próprios funcionários, para que passassem a data festiva com fartura e alegria. E quem vencesse a indicação, seria responsável pela entrega da cesta. Com alegria Elias foi premiado e encarregado da missão.
                Ao chegarmos à pequena residência, localizada em uma rua de poucas casas e de chão enlameado, com uma cerca de tela à frente, ladeada por pequeno portão fechado a cadeado, logo avistamos duas crianças desconfiadas por detrás da porta, a olhar, como se não acreditassem que alguém viria até ali. Ato contínuo chega a mãe e de longe pergunta o que queríamos.
                Elias explica o motivo da presença e, ainda sem acreditar, manda que deixemos os presentes e mantimentos ali. Entendendo a preocupação, obedecemos e mostramos o que trazíamos.
                Aos poucos, a mãe e as crianças foram chegando perto, se aproximando, até que nos mandaram entrar. Desembrulhamos os presentes e oferecemos aos pequenos. Bonecas, carrinhos, bichos de pelúcia, livros de historias, lápis de cor, tudo encantou aquelas crianças.
                Depois a cesta de alimentos. Notei naquela senhora e nos pequenos um ar de perplexidade e uma lágrima incontida rolar pela face. Não esperavam por aquilo.
                Passada a surpresa, nos oferece um café, que faria ali na hora, e enquanto aguardávamos observei os detalhes daquela casa feliz. Casa simples, é verdade, sem reboco, sem luxo, sem vaidade, mas um lar feliz.
Sentamos à pequena mesa da sala coberta por alva toalha, onde repousavam um jogo de xícaras e uma garrafa de café bem usada. Ali em frente uma velha TV sobre uma cômoda antiga e carcomida.  O chão limpinho e adornado por pequenos tapetes feitos à mão. Do lado, um filtro em uma cantoneira, coberta por toalhas brancas, alvas, bem cuidadas.
                Desperto daquela letargia ao ver a minha frente uma xícara de café fumegante e cheiroso. Passados alguns minutos, nos despedimos. Recebo o abraço das crianças com um obrigado singelo, sincero e verdadeiro. “Feliz Natal! Que Deus os abençoe”.
                Não consegui esconder o nó na garganta, a emoção que tomou conta de mim. Por tão pouco, um amigo e eu, fizemos a felicidade de uma família. Família simples, honesta, de bem. Que um dia fará o futuro do país. Dali, saí com uma certeza: meu natal, depois disso, será verdadeiramente feliz. E divido isso com os amigos. Feliz, Feliz Natal.
               

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A SIBIPIRUNA DA VELHA CAMPININHA DAS FLORES

O que restou da velha sibipiruna

O bairro de Campinas, em Goiânia, ou Campininha, como é carinhosamente chamado por todos que ali vivem ou trabalham é deveras interessante. Berço da nova capital, construída por Pedro Ludovico. Mesmo assim, no inicio, era “distante” do novo centro do poder do Estado de Goiás.
Aos poucos, foi ficando perto, perto, com a inauguração do local de lazer da cidade, o lago das rosas, onde ao lado de magnífico bosque ficava um aprazível piscinão com trampolim, pedalinhos e outros brinquedos.
Dizem que no inicio a Campininha era bastante cheia de árvores. Tinha muito verde, muita sombra que dava abrigo aos animais dos carroceiros, aos trabalhadores braçais que, em seu horário de almoço, puxavam deliciosa e preguiçosa soneca.
O campineiro, como é chamado o seu bairrista morador não entende que ali é um bairro, mas o considera uma cidade. Assim como os gaúchos consideram o seu Estado um País, o campineiro entende seu canto como uma cidade.
Tem tudo que precisam. Escolas tradicionais – como os colégios Pedro Gomes e Santa Clara – o mercado de Campinas, antigo e tradicional centro de compras, onde existe a melhor carne de sol da cidade, o tradicional fumo de rolo e o delicioso pastel de diversos sabores, artesanatos diversos e outras atrações. É realmente um lugar especial o Mercado de Campinas. Tem também a Igreja Matriz, os irmãos redentoristas, sua emissora de rádio – a Difusora, que opera nos 640 AM, o quase centenário Coreto da Praça Joaquim Lucio, testemunha de muita historia passada devagarzinho sob seus beirais.
Um pouco mais à frente, a hoje imponente sede do Atlético Clube Goianiense, ou Atlético, como carinhosamente os campineiros chamam seu clube do coração. E pensar que por muito pouco o bairro e porque não, a cidade de Goiânia, quase perderam o estádio Antonio Aciolly, sede do clube. A ganância e falta de humanidade de uns poucos quase tiraram esse patrimônio do coração dos campineiros.
Mas a volta por cima foi triunfal. O Atlético hoje é equipe de série A do Campeonato Brasileiro de Futebol e orgulha seus torcedores com seu desempenho em campo.
Nos dias de hoje, a Campininha é um bairro muito parecido com outros bairros antigos de Goiânia, como o Bairro Rodoviário, por exemplo. De dia, um intenso movimento, no comercio, nas lojas, no ir e vir das pessoas. A noite vem a calmaria e pode-se encontrar ainda pessoas em frente a suas casas em pequenas varandas, confortavelmente sentados em suas cadeiras a jogar conversa fora, aproveitando a fresca da noite. Coisas que ainda existem na Campininha.
Esta semana, em visita ao Salão Silva, dos amigos Dito e João Balbino senti falta de alguma coisa. Observando melhor, vi um resto de tronco de árvore, cortado ao rés do chão – o que restou da maravilhosa e imponente Sibipiruna que, durante décadas reinou no local. Era acostumado a admirá-la sempre e ao perceber suas belas flores tinha a certeza que a semana da Pátria estava chegando.
Fiquei sabendo que a Sibipiruna foi “matada”. Colocaram produtos químicos sobre suas raízes e ela foi definhando aos poucos, até sucumbir totalmente. Não teremos mais lá os casais de pombos-do-bando que usufruíam de seus galhos generosos na construção de seus ninhos. E a Campininha ficou mais triste e quente. A sombra generosa da velha sibipiruna, de flores amarelas e folhas de um verde muito vivo não existe mais. Na Rua Quintino Bocaiúva, entre as avenidas Ceará e Mato Grosso acabou o abrigo dos transeuntes que ali paravam para descansar um pouco da jornada. Que pena. Olhando para o que restou da frondosa Sibipiruna me vem um nó na garganta reflito: a Campininha precisa ter de volta suas árvores. Para que seja mais acolhedora e alegre, como são seus moradores. Que saudade, velha Sibipiruna.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

UM PEQUENO RADINHO DE PILHAS E UMA VIAGEM À SAUDADE

                Assim que cheguei a Goiânia, nos idos da década de 1980, estudava à noite no Lyceu e assim que saía da aula, ia direto para o trabalho, em uma lanchonete situada na rua três, no centro, aonde ia até alta madrugada, até o ultimo cliente.
                Apesar das dificuldades da hora, o grande companheiro que tive nesse período – e por um grande tempo da vida – foi um pequeno rádio de pilhas, pouco maior que duas caixas de fósforos, que tinha uma particularidade: sintonizava apenas uma emissora, a sexagenária Radio Brasil Central AM. Presente simples, mas de coração de um amigo da época.
                Assim que chegava à pequena lanchonete e ligava o radinho, aos poucos ia me absorvendo no trabalho e viajando em canções, minimizando a saudade que sentia da casa dos pais.
                Quando chegava meia noite começava um programa alegre, cuja abertura era: “A bença quem é de bença, noite quem é de noite e saravá quem é de Saravá” Ali, começava um programa alegre, animado, comandado pelo Mestre Cuiabano, que ia até metade da madrugada. Era um divertido ponto de encontro de pessoas. Participações ao vivo valorizavam e mostravam o quanto aquele comunicador era querido. A forma com que conduzia o programa fazia com que merecesse o reconhecimento de seu ouvinte.
                A vida aos poucos foi mudando, melhorando aos poucos. Já não precisava mais trabalhar na madrugada como chapista de lanchonete. Agora trabalhava como Office-boy em uma agência de turismo.
                Um dia um amigo me presenteou com uma novidade: colocou a peça que faltava e o pequeno radinho pôde enfim sintonizar todas as emissoras. Jamais esquecerei programas como o “Sensibilidade - a caminho das estrelas” que tanto marcou minha vida.
                Um dia desses revejo o amigo Afonso Berquó. Recebido em sua sala, percebo em um cantinho, um pequeno radinho de pilhas, silencioso e humilde - como aquele que durante tanto tempo me fizera companhia. Não pude deixar de tocar no assunto, afinal, batera uma saudade daquelas naquele momento.
                Berquó, como o chamamos, falou da alegria de ter o pequeno radio como companheiro. Amigo para todas as horas, diz ele. Traz informações do esporte e permite viagens nas canções de Moacyr Franco, de quem é amigo. De repente estamos a falar da filosofia e da poesia contidas em algumas canções, que verdadeiramente tocam a alma. Frases como “só se vive mesmo nove meses, pois o resto, amiga, a gente morre”.
                Com a mesma emoção que fala de canções, Berquó também mareja os olhos ao falar de seu filho, o Tenente Berquó, que recentemente quase perdeu a vida em uma ocorrência, onde teve grande parte do corpo queimado. Passados os dias, felizmente ele se recupera bem. Para muitos foi apenas mais um caso policial ocorrido em nossa metrópole, mas para ele, pai, foram momentos de dor, angústia e ansiedade. Felizmente passou.   
                Saio da sala do amigo Berquó com o coração leve, pensando no pequeno radinho que foi meu companheiro de noites insones um dia.
                Revivi ao ver aquele pequeno radio os meus primeiros passos em Goiânia. Trouxe-me de volta a lembrança da voz e da alegria do Mestre Cuiabano – por onde andará ele?
                Assim é o radio. Radio que toca o coração das pessoas, seja em uma poesia que virou canção na voz de Moacyr Franco, ou na lembrança de um antigo programa da madrugada que fazia as pessoas felizes. E que traz sempre viagens ao tempo da juventude e recordações de saudade e dos bons tempos da vida.


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sábado, 10 de dezembro de 2011

DESAFIOS DO MENINO TONINHO

A nuvem imensa de poeira tomou conta do ponto quando o velho ônibus parou para que o menino Toninho embarcasse. Rapidamente, com um nó na garganta e um soluço entrecortado pelo pedido de bênção ao pai e à mãe, subiu os degraus e foi em direção ao fundo do coletivo, onde ainda havia lugar para que viajasse sentado.
Pouco se importou se as pessoas ali o observaram derramando lágrimas de emoção. O menino Toninho naquele momento deixava o aconchego e a segurança da casa paterna.
Sentou na poltrona e começaram as lembranças. Era a primeira vez que iria em busca da vida, do seu lugar ao sol. Assustava um pouco, pois não teria seu pai sempre do lado a orientá-lo, a guiá-lo pelos caminhos da vida.
Rapidamente reviveu os últimos anos na fazenda. A grande queimada da roça derrubada por seu pai, o primeiro plantio - trabalho difícil - na roça cheia de tocos, que rapidamente se encheram de brotos, dando muito trabalho. A desbrota era trabalhosa, mas assim que o milho cobria os tocos, diminuía o viço e não mais era necessário o serviço.
Lembrou quando pediu ao pai um pedaço de chão para plantar. Com o resultado da colheita comprou sua primeira bicicleta. Isso abriu caminho para que pudesse dar seqüência aos estudos na pequena vila. Era cansativo, mas fazia o percurso de bicicleta todos os dias sem reclamar.
Levantava às cinco da manhã, ajudava o pai a tirar o leite e ia pra escola. Depois, voltava pra fazenda, almoçava, descansava um pouquinho e ia pro eito da roça ajudar seu pai. Mas alegria mesmo era quando sobrava um tempo e ele comparecia ao campo de terra e disputava as partidas de futebol com os amigos da região.
A chuteira azul que ganhou quando do plantio da roça de tocos logo ficou apertada e não coube mais seu pé. Jogou descalço por algum tempo, aproveitou uma chuteira velha jogada fora por algum adulto até que um dia seu pai notou e deu-lhe de presente uma chuteira nova. Era preta, não tão bonita como a primeira que ganhou, mas nem por isso deixou de agradecer. Era considerado bom de bola pelos colegas da região.
A primeira vez que disputou um jogo oficial pelo time da região foi um momento de grande emoção, ainda mais que colaborou com a vitória de seu time marcando um gol. Ficou extasiado com a comemoração dos companheiros. Sequer imaginava que marcar um gol era algo tão importante assim. O menino Toninho contava então dezesseis anos. Do menino mirrado, que ajudou o pai na roça de tocos, restava apenas a humildade, a fidelidade e o respeito aos pais.
O balançar do ônibus naquela estrada esburacada e poeirenta trouxe a sua lembrança também o sorriso daquela menina-moça de vestido azul-claro, que sempre assistia a seus jogos, gritando “vai, Toninho”. Engraçado que apesar disso e de seu sorriso encantador, ele timidamente sequer se aproximara dela, vagamente sabia seu nome. Apenas sonhava enlaçando-a em seus braços.
A realidade agora seria outra. Aceitou de bom grado o convite de seu tio para que fosse morar com ele. Estudaria de noite e durante o dia trabalharia, aprenderia a profissão de armador de estruturas na construção civil.
Agora enfrentar as dificuldades e durezas da vida, que naquele momento passaria a exigir dele postura e atitude de homem. Não decepcionaria, tinha certeza. E foi pensando no sorriso meigo e encantador da menina do vestido azul-claro, que acompanhava seus jogos, que o menino Toninho partiu para a vida.
*-*

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

EM BUSCA DE ONDE DEUS POSSA ME OUVIR

                Em um dia qualquer dessa semana me encontro a viajar aos recônditos da alma, aos escaninhos do coração. Viagem sem preocupação com inicio ou fim, sem paradas obrigatórias, a revisitar lugares, reviver momentos, buscar reencontros.
                Reencontros esses necessariamente com relevantes alegrias e - talvez com algumas quase esquecidas tristezas, momentos nem sempre bons, mas felizmente superados. O lado bom é que tristezas a gente vai sempre deixando pra lá, esquecendo-as.
                Em dado momento me enterneço com o canto dos pássaros que povoam meu quintal. Me vejo sob a frondosa mangueira que, depois de safra generosa e farta, quando se curvara ante o peso dos inúmeros frutos vergando seus galhos quase ao chão, como a facilitar para que fossem colhidos parece afirmar: “agora preciso descansar, me preparar para o próximo ano”. Natureza mãe, que cuida e alimenta seus filhos.
                Dali me vem a vontade de sair caminhando, apreciando o cair da tarde. Em direção a um belo pôr-do-sol caminho em silêncio, ouvindo apenas o quase imperceptível farfalhar dos passos caminhados. No rosto, sinto a suave e agradável carícia de leve brisa. Momento de intrínseca e particular solidão.
                À lembrança me vem as ultimas noticias do mundo dos homens. Ódios, guerras, incompreensão, desonestidade, traições. Muitos fomentam o ódio e o rancor por motivos inimagináveis e fúteis, apenas pela cor da pele, nacionalidade, credo ou pura e simplesmente pela cor da camisa do time do coração. Dor incompreensível.
                Nas ruas e avenidas carros em sua lenta procissão de fé. Querem andar, querem sair do lugar, mas o trânsito engarrafado não permite. Carros com apenas um motorista e quatro lugares vazios. Sejamos solidários, mas... para oferecer solidariedade necessariamente teríamos que ter confiança. O ser humano merece confiança?
                Em sentido inverso, felizmente ainda vejo pessoas se amando, se confraternizando e renovando laços de amor e amizade. Felizmente o mundo não é só ódio ou tristeza.
                Há muitas cidades onde se vê ainda ao fim da tarde pessoas em frente suas casas, nas varandas a conversar. Crianças ali perto em lúdico e inocente momento. Felicidade presente. Enquanto a conversa flui naturalmente, sente-se o cheiro delicioso dos pães de queijo sendo assados, para em breve, acompanhados de café feito na hora serem degustados.
                Me vejo de volta ao presente através de uma canção.  Canção que afirma que devo viajar ao interior do meu interior. Ao íntimo do coração. Talvez nessa viagem eu chegue a esse local maravilhoso, local de paz e harmonia. Onde Deus possa me ouvir.


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sábado, 3 de dezembro de 2011

O PLANTIO DA ROÇA


O menino Toninho acordara mais cedo naquela manhã de chuva fina e intermitente. Era o grande dia do inicio do plantio da lavoura na roça nova, onde há pouco mais de um mês seu pai derrubara e fizera a grande queimada.
Não parecia que já havia passado tanto tempo. Agora o menino Toninho, ansioso, mal conseguia aguardar a hora de ajudar seu pai a colocar as sementes na terra.
Depois da queimada ainda tiveram muito trabalho. Removeram os restos de galhos e os amontoaram em grandes leirões chamados coivaras. Ainda fizeram a queima dos tocos maiores, que ficaram parecendo enormes figuras humanas, por causa do fogo. Ficaram até engraçados.
Mais algumas semanas e vieram as chuvas. No inicio, fortes, com muito trovão e ventania, porém de pouca duração, não firmavam. Ainda não era a chuva ideal para que se pudesse plantar. Todos os dias o menino Toninho via seu pai fitar o horizonte, ao cair da tarde, a observar os sinais da natureza no céu. E seu pai compreendia esses sinais. Uma tarde ele afirmou que logo, a chuva firmaria. O menino Toninho entendeu que em breve chegaria a hora do plantio.
E a chuva começou na tarde do dia anterior. Forte no inicio, entremeando réstias de sol entre as nuvens densas e pesadas, até firmar em um tempo fechado, com chuva para todos os lados. Logo caia uma chuva calma, constante.
Viu seu pai separando as sementes e as ferramentas, limpando a velha matraca. Teve então a certeza que o trabalho começaria.
O menino Toninho ao ouvir sinais que o pai levantara, também pulou cama e foi juntar-se a ele. Notou alegria e satisfação em seu semblante, ao vê-lo ali naquela hora.
Mal pôde esperar o fim do café da manhã, que sua mãe carinhosamente colocara na pequena e rústica mesa, composto de queijo, requeijão, leite, café e algumas bolachas, feitas ali mesmo. Mas o menino Toninho queria mesmo era ir logo para a roça.
No caminho ficou mais feliz ainda ao receber a promessa de seu pai que, se tudo corresse bem com a lavoura ele ganharia um par de chuteiras azuis, dessas de jogar futebol, novinha. Era seu sonho de menino ter uma chuteira como seus ídolos naquele lugar.
Começaram o trabalho plantando primeiramente o milho. Seu pai ia à frente abrindo pequenos buracos no chão. O menino Toninho vinha em seguida jogando as sementes e chegando terra nas covas com um movimento dos pés. Era um trabalho ritmado, constante e rápido. Nem uma topada que dera em um toco escondido no chão o fizera desanimar. Vez em quando uma pequena parada para beber água e logo em seguida voltar ao trabalho.
Nem notara o tempo passar. Vira apenas que já havia passado algum tempo ao avistar sua mãe. Trazia o lanche, que chamavam de merenda, juntamente com o almoço. E foi debaixo de uma grande árvore remanescente eles se agasalharam como puderam e fizeram ali mesmo sua refeição.
Foi assim durante todo o dia. Apesar de franzino o menino Toninho não sentiu o cansaço que tomava conta de seu corpo esquálido. Estava feliz. Trabalhara muito, ajudara o pai a plantar as sementes de milho, arroz e também, junto às coivaras, de abóbora e melancia. Durou quatro dias o trabalho na roça. O menino Toninho já sabia que, passados alguns dias era somente fazer a desbrota removendo os brotos que nasceriam nos tocos queimados pelo fogo. Insistentes em sobreviver - sapiência da natureza.
Agora era esperar para em breve ver a roça bonita, viçosa, com os imensos cachos amarelos de arroz vergados, com as doces melancias próximas às coivaras e com as grandes espigas de milho. Era certeza de mais um ano com fartura. E o menino Toninho sonhou com o par de chuteiras azuis prometido por seu pai.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O BAR DO CARMO


(homenagem aos amigos do Cantina Ville)

                Carmo é um saudosista. Entre uma cerveja e outra que abre, atendendo seus clientes diários encontra tempo e nostalgia para viajar na estampa da camiseta de um cliente qualquer, onde vislumbra um lugar um dia esteve. “Estrada real, de Petrópolis?” pergunta, já passei por lá.
                Entre uma conversa e outra, sempre encontra jeito  para contar histórias de quando tinha um lavajato em Goiânia, no Setor Marista. Talvez o primeiro especializado em atendimento de qualidade, atendimento onde havia a preocupação em chamar o cliente de Senhor, em marcar e cumprir rigorosamente o horário da entrega do carro, primorosamente limpo ao cliente.
                Carmo é um perfeccionista. Não aceita o mais ou menos. Preocupa-se com mínimos detalhes de seu pequeno comercio, situado em um bairro de periferia. As preocupações vão desde o piso em declive da parte externa do bar ao bem estar de seu cliente. E preocupa-se também com a qualidade do que faz - desde o torresmo – cartão de visitas aquele que vem ao local pela primeira vez, como cortesia – até o caldo de franco caprichosamente feito pela sua esposa, Dona Sandra.
                Carmo, embora dedicado e extremamente comprometido com a rotina e qualidade do seu barzinho, gosta mesmo é de falar de seu canto, ou de seu recanto, a fazenda onde passou a maior parte da vida, juntamente com a família.
                Conta com detalhes a lógica perfeita do madeiramento do telhado da casa da sede da fazenda. Não obstante a força dos ventos e as chuvas muitas vezes generosas e intensas da região, afirma que há mais de cinqüenta anos o sistema resiste.
                Não é um madeiramento qualquer, mas uma obra de arte, um perfeito entrelace de diversas espécies de madeiras, como Angelim vermelho, Peroba Rosa, Angico, dentre outros. “Chama a atenção a estrutura”, diz ele.
                Não obstante esteja no ramo do comercio na cidade grande, Carmo sabe que seu tempo por aqui é pré-determinado. Veio juntamente com a esposa para a cidade grande, abandonou a vida da fazenda, que em certos momentos se fazia difícil, mas no fim resultava sempre prazerosa., Veio para que pudesse acompanhar o filho em seus estudos.
                Assim que o rebento puder seguir seu caminho, certamente voltará para a vida pacata e serena da fazenda. E torce que essa etapa chegue logo.
                Assim, Carmo vai vivendo e levando a vida de acordo como ela exige dele. Espera ansioso chegar o natal. As leitoas o esperam.
                Daqui, do cantinho simples e humilde, enquanto atende seus clientes e abre mias uma cerveja, Carmo conta os dias e as horas. Conta as horas para a reunião alegre e festiva da família na noite de natal.
                               Hora de confraternizar a agradecer ao Pai do Céu o ano que se finda. Embora esteja na cidade grande, Carmo não se desapega se seu torrão, de seu canto querido. E sonha envelhecer e continuar a vida ali, sendo feliz ao lado de quem tanto ama.