sexta-feira, 23 de junho de 2017

EM FELIZ E ALEGRE NOITE DE SÃO JOÃO

Imagem retirada da internet


O crepitar das brasas da imensa fogueira, emitia som único e interessante, que aliado ao calor que dispensava e ao vermelho das lavaredas vivas e inquietas, parecia hipnotizar as pessoas que estavam ali a observar.
O encantamento se desfez quando os acordes dolentes da sanfona convidaram o povo a se aproximar do local onde aconteceriam as apresentações dos diversos grupos de quadrilha, em um animado e alegre concurso.
Eu era um dos poucos que não participaria da minha classe. Eu era aluno transferido há pouco tempo e quando chegara àquela escola, os grupos e pares já tinham sido feitos e os ensaios já aconteciam. Fiquei com certa tristeza, afinal, tinha muita vontade de participar daqueles folguedos. Restara-me torcer para os colegas de classe e, claro divertir-me ao lado dos meus pais com tudo aquilo que a festa junina poderia oferecer.
Absorto, quase não percebi quando meu pai se aproximou e com sua voz macia e terna me chamou para irmos ao local assistir às apresentações. Papai chegou trazendo um grande saco cheio de pipocas, com o que imediatamente me animei.
Sem muita dificuldade, nos acomodamos na improvisada arquibancada, feita de tábuas quase soltas e esperamos o anúncio do inicio da festa. Papai parecia animado e conversava a muito com minha mãe. Aliás, essa era uma característica marcante de meu pai: sempre animado e bem humorado, gostava de festa e de estar perto de pessoas alegres.
O som da sanfona tomou conta do ambiente e firmou em uma melodia alegre e animada. Logo, um grupo de jovens começou a apresentação, com a quadrilha sendo cantada por um senhor de cabelos brancos e voz forte, que comandava as evoluções, que iam sendo mostradas pelos pares do grupo. Terminada aquela apresentação, entrou outro grupo e assim, a animação ia ficando cada vez maior.
O frio de junho começou a apertar e minha mãe, zelosa como era, apressou-se a me entregar e pedir que vestisse um agasalho que ela providencialmente trouxera. Senti-me confortável e aquecido de imediato. Logo, papai em entregava mais pipoca e outras guloseimas.
Terminadas as apresentações, fomos passear e visitar as barraquinhas da quermesse. Eu todo alegre e feliz, ao lado dos meus pais, brinquei de pescaria, de tiro ao alvo, joguei argolas em garrafas e claro, tomei caldo de frango e feijão quentinhos e degustei um delicioso milho assado. E minha mãe a se perguntar como tudo aquilo cabia. Eu ria a valer e aproveitava muito aquele momento, de pura alegria e felicidade.
Chegada a hora de ir embora, e nos colocamos a caminho de casa. Íamos a pé, pois morávamos ali pertinho e naquele tempo, era tudo muito tranquilo na pequena e acolhedora cidade onde morávamos.
Chegando em casa, coloquei uma roupa quente para dormir, afinal junho é sempre muito frio. Hora de ir par a cama, não sem antes receber o carinho e o beijo de minha mãe junto com a bênção do meu pai.
Naquela noite, demorei um pouco a dormir. Me vinha à lembrança o crepitar da fogueira, e o sorriso daquela menina que me encantava e que estudava na mesma sala que eu e que naquela noite, estava ainda mais linda, vestida com a roupa típica da quadrilha junina.
Adormeci e sonhei que dançava com ela. Que era seu par e juntos, bailávamos ao som da alegre canção junina.
Sonhos de um menino quase na adolescência. Sonhos de uma alegre e feliz noite de São João.



sexta-feira, 16 de junho de 2017

DOS ÚLTIMOS DIAS DO OUTONO...



            A manhã de junho, na cidade de Palmas, Tocantins, de esplendor único e inigualável parecia ter deixado toda a beleza possível para aquele momento. Não bastasse o sol brilhante e o céu de um azul límpido e sem nuvens, a lua minguante resolveu dar o ar da graça, ainda que durante o dia.  Parecia encantada com o cenário, buscando, como se fosse possível, embelezar ainda mais aquilo tudo.
Ventos vindos de todos os lados passavam sobre o cajueiro coberto de flores e pequenos frutos, trazendo perfumes únicos, do aroma do cerrado.
O outono chega aos seus últimos dias. Em toda a estação, tivemos momentos de frio, calor, dias e noites espaçadas pelo mesmo tempo e a natureza, renovando a vida, permitindo que novas folhas venham e ocupem o lugar daquelas que, cumprindo sua missão, deixam-se cair, ainda para uma ultima etapa da existência, de generosamente proteger a árvore-mãe e adubar a terra que a mantém, garantindo a sobrevivência.
Em poucos dias teremos a chegada do inverno. As novas folhas que sucederam as caídas no outono haverão de proteger e garantir o ciclo venturoso da vida. É hora de buscar as energias acumuladas e garantir os próximos meses, onde o frio e os ventos, aliados ao tempo seco, haverão de ser mais difíceis.
Logo, após tudo isso entre as folhas ou nos caules haverão de aparecer pequenos e tímidos bulbos, que se transformarão em flores, anunciando alegre e festiva primavera – a rainha das estações. E logo, a vida confirma sua renovação, em frutos e sementes que alimentarão os viventes.
Também somos manhãs se sol, manhãs de ventos que trazem perfume de flores e aromas do cerrado. Em nossa existência talvez sequer percebamos, mas passamos por todas as estações. Talvez percebamos melhor a mais bela, a mais pujante e encantadora, por tudo que representa. Mas, também somos dias nublados, com ventos fortes, ás vezes ameaçadores e perigosos, ou com chuvas fortes, temporais que amedrontam, assustam.
Da mesma forma que um dia somos flores, depois frutos e por fim sementes, trazendo beleza e renovação, um dia somos folhas que, caídas ao chão, pouco ou mais nada representam.
Assim caminhamos. E que essa caminhada seja plena de carinho, ternura e compreensão. Que em cada instante da existência, nas belas manhãs de junho ou em dias e noites tormentosos e difíceis, o amor prevaleça. E assim estabeleça-se laços fortes, profundos, inabaláveis, capazes de suportar dores e tormentas, mas também de alegremente, celebrar manhãs de outono de céu azul, ventos travessos e sol brilhante. Observados pela lua minguante que não haverá de querer perder o espetáculo de encanto e beleza.


sexta-feira, 9 de junho de 2017

JUNHO: DOS NAMORADOS E DE ALEGRIA



O mês de junho é realmente muito especial. Diferente dos demais meses do ano, em junho temos manhãs de beleza indescritível. Emolduradas pelo verde que a temporada das chuvas deixou presente na natureza, as manhãs de junho são de sol brilhante e brisa amena.
Tido como um mês romântico, festivo e alegre, junho encerra o primeiro semestre, quando intimamente nos vem àquela sensação de dever cumprido, de já ter vencido a primeira parte do ano que segue. Com as festas de Santo Antônio, São João e São Pedro é certeza de diversão, alegria e claro, muita devoção.
Na Fazenda Nova América havia comemorações juninas. Na noite da véspera do dia de cada santo, meu pai fazia uma imensa fogueira, por onde minha imaginação de criança viajava e se encantava, ao observar a beleza do vermelho intenso do fogo e das brasas que se formavam.
A fogueira da véspera de Santo Antônio era precedida por uma reunião dos familiares que moravam por perto, quando rezavam um terço. Não raro, após o ato de devoção meu pai pegava o violão e ali mesmo, na sala acontecia um improvisado e agradável sarau.
Já na véspera de São João a festa era grandiosa. Era o fim de uma novena que as famílias da região faziam e na noite de 23 de junho se reuniam, rezavam o terço e encerravam a novena, agradecendo pelas graças obtidas.
Então acontecia a grande festa. Era muita fartura e alegria. Além dos vizinhos, vinham políticos, pessoas importantes e o vigário da pequena cidade de Araguaçu, que ficava bem próxima à fazenda.
Após a reza, os violeiros, sanfoneiros e tocadores de percussão se organizavam afinando os instrumentos e afiando a voz sob a barraca feita de palha e bambu, em frente à casa. Era para que todos se acomodassem bem e não sofressem os efeitos do sereno.
Enquanto isso minhas irmãs se reuniam com outras moças da mesma idade e cantavam os sucessos que ouviam através do rádio. Havia uma música que nunca esqueci. Uma puxava as estrofes e em seguida, todas em coro cantavam o refrão. Dizia assim: “...pegue uma esteira e seu chapéu, vamos para a praia que o sol já vem...”. Com alegria eu recordo aquele coral de jovens alegres e felizes, que até hoje ecoa em meu coração.
Eu não percebia, pois era muito criança, mas dessa festa saíram muitos  namoros e depois casamentos. E tudo transcorria em alegria e muita amizade. Logo, todos jantavam até se fartar, degustavam os doces e começava a diversão, com muita música, repentes e alegria, que ia pela madrugada.
É muito bom buscar nos recônditos do coração esses momentos. Mas o que mais me chama a atenção em junho é o fato de ser o mês dos namorados, tendo o dia doze como seu ápice. Para mim, uma data mais que especial. É tempo de renovar laços de amor e de reviver e viver momentos de ternura e enlevo.
Através de canções, recordar momentos felizes, de passear de mãos dadas com a amada nas tardes, que como as manhãs, são também repletas de beleza.
E para mim, doze de junho, embora seja outono, é tempo colheitas e de primaveras. Assim, seguir pelos caminhos da vida, agradecendo a dádiva de mais um ano vivido, vivenciado.
Que a vida tenha sempre esse clima de junho. Clima de alegria, paz e muita, mas muita felicidade.


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