sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

UM PEQUENO RADINHO DE PILHAS E UMA VIAGEM À SAUDADE

                Assim que cheguei a Goiânia, nos idos da década de 1980, estudava à noite no Lyceu e assim que saía da aula, ia direto para o trabalho, em uma lanchonete situada na rua três, no centro, aonde ia até alta madrugada, até o ultimo cliente.
                Apesar das dificuldades da hora, o grande companheiro que tive nesse período – e por um grande tempo da vida – foi um pequeno rádio de pilhas, pouco maior que duas caixas de fósforos, que tinha uma particularidade: sintonizava apenas uma emissora, a sexagenária Radio Brasil Central AM. Presente simples, mas de coração de um amigo da época.
                Assim que chegava à pequena lanchonete e ligava o radinho, aos poucos ia me absorvendo no trabalho e viajando em canções, minimizando a saudade que sentia da casa dos pais.
                Quando chegava meia noite começava um programa alegre, cuja abertura era: “A bença quem é de bença, noite quem é de noite e saravá quem é de Saravá” Ali, começava um programa alegre, animado, comandado pelo Mestre Cuiabano, que ia até metade da madrugada. Era um divertido ponto de encontro de pessoas. Participações ao vivo valorizavam e mostravam o quanto aquele comunicador era querido. A forma com que conduzia o programa fazia com que merecesse o reconhecimento de seu ouvinte.
                A vida aos poucos foi mudando, melhorando aos poucos. Já não precisava mais trabalhar na madrugada como chapista de lanchonete. Agora trabalhava como Office-boy em uma agência de turismo.
                Um dia um amigo me presenteou com uma novidade: colocou a peça que faltava e o pequeno radinho pôde enfim sintonizar todas as emissoras. Jamais esquecerei programas como o “Sensibilidade - a caminho das estrelas” que tanto marcou minha vida.
                Um dia desses revejo o amigo Afonso Berquó. Recebido em sua sala, percebo em um cantinho, um pequeno radinho de pilhas, silencioso e humilde - como aquele que durante tanto tempo me fizera companhia. Não pude deixar de tocar no assunto, afinal, batera uma saudade daquelas naquele momento.
                Berquó, como o chamamos, falou da alegria de ter o pequeno radio como companheiro. Amigo para todas as horas, diz ele. Traz informações do esporte e permite viagens nas canções de Moacyr Franco, de quem é amigo. De repente estamos a falar da filosofia e da poesia contidas em algumas canções, que verdadeiramente tocam a alma. Frases como “só se vive mesmo nove meses, pois o resto, amiga, a gente morre”.
                Com a mesma emoção que fala de canções, Berquó também mareja os olhos ao falar de seu filho, o Tenente Berquó, que recentemente quase perdeu a vida em uma ocorrência, onde teve grande parte do corpo queimado. Passados os dias, felizmente ele se recupera bem. Para muitos foi apenas mais um caso policial ocorrido em nossa metrópole, mas para ele, pai, foram momentos de dor, angústia e ansiedade. Felizmente passou.   
                Saio da sala do amigo Berquó com o coração leve, pensando no pequeno radinho que foi meu companheiro de noites insones um dia.
                Revivi ao ver aquele pequeno radio os meus primeiros passos em Goiânia. Trouxe-me de volta a lembrança da voz e da alegria do Mestre Cuiabano – por onde andará ele?
                Assim é o radio. Radio que toca o coração das pessoas, seja em uma poesia que virou canção na voz de Moacyr Franco, ou na lembrança de um antigo programa da madrugada que fazia as pessoas felizes. E que traz sempre viagens ao tempo da juventude e recordações de saudade e dos bons tempos da vida.


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