sexta-feira, 2 de outubro de 2015

POR GUIA, AS ESTRELAS...




Os dias extremamente quentes e secos são compensados pelo colorido de minha cidade. A primavera chegou e encontrou as ruas e avenidas floridas, belas, onde há ipês de variadas cores, o dourado das sibipirunas, o perfume das acácias, e tantas outras encantadoras espécies.
Nos quintais, as mangueiras com galhos baixos e carregados de frutos mostram que a criançada irá novamente se fartar esse ano. E a goiabeira, ainda que tardiamente, mostrou qual brancas grinaldas, as flores que em breve tornar-se-ão frutos, doces, vermelhos e saborosos. Talvez a florada das goiabas tenha atrasado, pela generosa safra temporã que acabou há pouco, quando as maritacas e periquitos a cada barulhenta aparição, fizeram a festa.
No alto das arvores os ninhos ocupados trazem a certeza que a vida se renova. A natureza agasalha pequenos ovos, que logo haverão de eclodir trazendo novos e belos pássaros para encantar nosso universo.
A noite chega, mas o calor do dia continua. Embora mais amena, a temperatura impede de ficar dentro de casa. Ideal buscar a companhia das estrelas, em confortável e amiga cadeira de fios, perto da jabuticabeira, que em sua primeira safra, depois de tanto tempo, começa a mostrar as flores se transformando em frutos.
E ali me deixo ficar, na noite quente, com o inseparável rádio que traz canções, e estrelas distantes como companhia.
Aliás, as estrelas parecem querer fazer uma festa particular. O céu vai ficando cada vez mais intenso e, apesar da claridade das luzes urbanas, é possível ver o quanto é mágico e misterioso o infinito.
O espetáculo me leva ao tempo de criança, onde observar o céu nas noites calmas da Fazenda Nova América era a diversão principal.
Como hoje, lá, tínhamos como fundo musical as canções do radio – no caso, o velho ABC – A Voz de Ouro - ou o violão plangente de meu pai, que depois do dia corrido e difícil, se punha a dedilhar canções, qual poemas, sob olhar plácido de minha mãe.
Aqui e ali a melodia é interrompida por comentários de meus irmãos ou por versos declamados por minha mãe. A harmonia era presente.
Mas o céu e a noite estrelada era o que mais me encantava. Tentava adivinhar perto de qual constelação as inquietas estrelas cadentes iam deslizar e me punha a fazer pedidos, como rezava a lenda que quem visse uma estrela cadente e fizesse um pedido, seria atendido. E eu ficava assim, até que mamãe viesse me chamar para que fôssemos todos dormir.
Já na cama, me punha a “adivinhar” o céu pelas frestas do telhado, que traziam a luz das estrelas. E sob o acalento dos sons diversos da noite, adormecia.
Hoje, em uma noite quente, sentado na cadeira acolhedora, também me vejo contemplando o céu e as estrelas como fazia quando criança. É o mesmo céu de minha infância e as mesmas estrelas. O tempo passou para mim, mas o céu continua o mesmo. Como os sonhos que acalento, e estão guardados no infinito do coração. Sonhos que nunca mudaram.
Afinal, ainda tenho por guia, as estrelas.



Um comentário:

  1. PURA POESIA...

    "Hoje, em uma noite quente, sentado na cadeira acolhedora, também me vejo contemplando o céu e as estrelas com fazia quando criança. É o mesmo céu de minha infância e as mesmas estrelas. O tempo passou para mim, mas o céu continua o mesmo. Como os sonhos que acalento, e estão guardados no infinito do coração. Sonhos que nunca mudaram.
    Afinal, ainda tenho por guia, as estrelas."

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