sexta-feira, 24 de abril de 2026

DOS CÂNTICOS DA MINHA VIDA, DA NECESSÁRIA PAZ NO MUNDO

 


O ambiente na singela e acolhedora casa na Fazenda Nova América, onde passei minha primeira infância, era altamente poético e musical. Meu pai, depois de um dia de trabalho árduo na roça, onde cultivava abacaxis, arroz, feijão e outras culturas, necessárias à sobrevivência, vinha o costume de, ao chegar em casa, procurar à minha mãe se estava tudo bem, se alguém da casa da minha avó, que morava perto, viera nos visitar, assuntos triviais, mas que simbolizavam a alegria de partilharem o dia a dia um com o outro.

Nesses momentos, enquanto meu pai “esfriava o corpo” do calor, eu ficava por ali pertinho, escutando, e esperando que ele me chamasse para o melhor momento do dia: ir tomar banho no pequeno riacho que ficava bem próximo á nossa casa.

Aliás, o riacho era um lugar maravilhoso, cujo acesso de dava por um grande lajedo na margem “de cá”, do lado que ficava a nossa casa. Na outra margem, imensas e centenárias mangueiras davam sombra e aconchego a inúmeras espécies de pássaros, até as temidas e ditas agourentas, porém inofensivas “Alma de Gato”, que com seu canto mavioso, enchiam as crianças de temor.

Pouco acima, uma pinguela – um tronco de madeira forte e seca, que atravessava o riacho de um lado a outro, em uma altura tal, que quando viessem as enchentes, não fosse levada. E interessante: a pinguela não tinha nada parecido com um corrimão, mas adultos e cachorros passavam por ela, tranquila e calmamente.

Depois do reconfortante banho para meu pai – e super divertido para mim – era hora de jantar. Reunidos na pequena e rústica mesa, após a oração, a conversa animada surgia e se estendia para mais um pouco, quando meu pai buscava, ou “alguém trazia” o violão e ele tirava seus dobrados e valsas nas cordas cansadas do velho instrumento.

Quase sempre, mamãe atendia aos pedidos de recitar versos marcantes, como os do “Pavão Misterioso” ou outros de famosos cordéis da época.

O tempo passou. A fazenda se fez saudade, quando mudamos para a cidade. Era hora de, aos sete anos, enfrentar realidades que até então desconhecia. Pouco tempo depois, aos nove anos, fui estudar como aluno do internato do distante Ginásio Anchieta, na histórica e então bucólica Silvânia, outrora, Bomfim de Goyaz. Ali, eu não era mais o Paulinho, o caçula da família, mas apenas mais um dentre 130 alunos, entre adolescentes e jovens adultos. Da minha idade, éramos apenas três.

Quando da festa de Nossa Senhora Auxiliadora, a turma ia toda para o colégio das freiras Salesianas, e alguns escolhidos, dentre eles eu, ensaiados pela gentil e simpática irmã Terezinha, Soltavam a voz. Ainda lembro de canções, cuja letra traziam: “Sobe à Jerusalém, Virgem Oferente, sem igual...”.

Por ocasião da Semana Santa, a cidade de reunia na Igreja do Rosário, a Matriz, e em suas proximidades, seguindo a procissão. Era quando ecoava pelas ruas a inesquecível e vibrante voz do querido “Tio Zé Luiz” (Gonçalves dos Santos), que puxava a enorme fila da procissão entoando, dentre outros, um canto que nunca esqueci: “Pecador, agora é tempo, de contrição e de temor, serve a Deus, despreza o mundo, já não sejas pecador...”.

De volta à casa paterna, chegava o tempo de Natal eu me encantava com as canções. E na véspera, na tradicional Missa de Natal celebrada na Matriz da querida e distante São Miguel, ainda hoje me vem à lembrança o marcante: Glória, Glória, In Excelxis Deo...”, magistralmente interpretado pelo Coral da igreja.

  Vez por outra, “passeio” por estes cânticos de minha vida, usando a facilidade que a tecnologia nos traz, onde basta pedir à IA que toque aquilo que quero ouvir.

E entre reminiscências da Fazenda Nova América, a saudade de meus pais e outros tantos cânticos que me acompanham pela vida, vejo o tanto que a vida seguiu com pressa.

E, reflito que, ao mesmo tempo em que a tecnologia evoluiu a ponto de pedirmos qualquer música a uma pequena esfera, alguns ditos homens que se intitulam “senhores da guerra, do ódio e do mundo” prescindem da paz e da boa convivência entre os povos. Paz, que tantas vezes encontrei em momentos de singela harmonia familiar

e em cânticos, de louvor.

E, que a paz e o bem, ainda que difíceis, possam permanecer entre nós.

 

    


 

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