quinta-feira, 28 de março de 2013

LAVA-PÉS, SEXTA-FEIRA SANTA E ALELUIA: TRADIÇÕES


                “Pecador, agora é tempo, de contrição e de temor. Segue a Deus, despreza o mundo, já não seja pecador”.

A voz forte e grave do Tio José Luiz (Gonçalves dos Santos) ecoava nas ruas da pacata e calma Silvânia, que nos anos 1980 era calma, tranquila e boa de viver. A Silvânia dos tempos da minha distante e saudosa infância.
Tio Jose Luiz puxava com seu canto mavioso e dolente a imensa procissão, que pelas ruas dirigia-se à igreja matriz. Era a procissão do Lava-pés.
                A imponente matriz aos poucos ia se enchendo de fiéis e parecia ficar pequena, não haver mais espaço. O lava pés é um dos momentos mais sublimes e importantes da semana santa. Repetia o gesto de humildade de Jesus Cristo, que também lavou os pés e curou as feridas de seus apóstolos.
                Após a cerimonia do Lava-pés na matriz, hora de se recolher em respeitoso silencio e veneração. Não havia, como hoje, grandes veículos entupidos de som e com jovens a se embriagar e a agredir o silencio e o respeito das pessoas. Silvânia respeitosamente vivia e venerava a semana santa.
                Iniciava-se ali a vigília, onde entre orações e cânticos. Na sexta-feira, pouco se falava. Novamente a matriz, a procissão do Senhor morto e Nossa Senhora da Senhora das dores. A imagem percorria as ruas da cidade, venerada respeitosamente.
                Depois, apenas as orações. Na sexta-feira santa os sinos não tocavam.
                Tudo mudava quando chegava o sábado de aleluia. Era hora de preparar a alegria da festa da ressureição do Senhor. Crianças ficavam meio ressabiadas, pois naquele tempo, tradicionalmente os pais não batiam nos filhos durante o período da quaresma. Assim, eles aproveitavam e se soltavam. Mas, no sábado de aleluia, ficavam ressabiados, pois vai que um pai ou uma mãe havia guardado alguma travessura para “tirar” no aleluia.
                Havia a malhação do Judas, um boneco cheio de balas e doces, que era simbolicamente destroçado, como que a “vingar” a traição que um dia Jesus foi vítima.
                Domingo, dia da pascoa. Passagem. Momento de celebrar a ressureição e a vida. Celebrar o amor e a alegria. Doces, páscoa, chocolates. Doçura e alegria.
                Hoje a semana santa perdeu um pouco do valor que era dado nesse tempo da minha infância. Prevalecem festas, viagens e diversão. Pouca ou quase nenhuma devoção e reflexão. A tradição de não comer carne na sexta-feira santa sequer é observada.
                Tempos modernos. Mas que não foram capazes de me fazer mudar conceitos a ponto de perder a fé e as tradições. Que estão dentro de meu coração.
                Votos de Feliz e abençoada páscoa a todos.

3 comentários:

  1. Que linda! Acho que vc se superou desta vez! é como se eu visse desfilando nos meus olhos a minha infância, a casa da avó, a igreja do povoado (hoje cidade), a procissão... e as ameaças de "tirar a aleluia"no sábado! PARABÉNS! e conseguiu ainda dar um caráter de temor e de religiosidade ao texto!

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  2. Digno Mestre da Escrita!

    Th Mann,em Morte em Veneza afirmava: "A felicidade do escritor é o pensamento que consegue transforma-se completamente em sentimento, e o sentimento ue consegue transforma-se completamente em pensamento".
    Faze-o com maestria,
    Gratissimo

    Felicissimo tempo de renovaçao e continue nos brindando com sabedora que somente o tempo ensina.

    Gratissimo generoso amigo

    José Carlos Bortoloti
    Passo Fundo - RS -
    www.epensarnaodoi.blogspot.com.br

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  3. Paulo, missa do lava-pés, marca o início dos três dias de celebração da Páscoa. Humildade, serviço e amor ao próximo. E vc nos presenteia com um belo texto que nos fala da importância desses 3 dias, dos valores, da família! Devemos pensar em nossos pecados, mudar algo em nós para sermos melhores e poder viver mais próximos de Cristo. Parabéns, vc sempre supera expectativas e nos toca profundo com seus textos, Desejo a vc e sua família uma Feliz Páscoa com muito Amor, Paz e Fé! Abraço Edilene Paiva

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